09 de Setembro, 2014 - 13:00 ( Brasília )

Geopolítica

Japão e Índia inauguram parceria inédita

Os dois países querem reforçar laços de defesa e relações exteriores diante da ascensão dramática da economia e da influência da China no leste da Ásia

 

Nota DefesaNet,

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A iminente (?) renovação militar japonesa - Defesa Net

O Editor


Por Manjeet Pardesi and Robert Ayson - Texto do The Interpreter
Tradução, adaptação e edição - Nicholle Murmel

 
Alguns dias antes da viagem ao Japão, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi decidiu pessoalmente estender sua passagem pelo país por mais cinco dias - sinal do quanto o governo da Índia valoriza as relações ainda em formação com Tóquio. Em resposta, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, quebrou o protocolo e recebeu Modi em Kioto, e não na capital nacional. E, diferente do aperto de mão polido, padrão até mesmo em encontro com o presidente dos Estados Unidos, Abe cumprimentou Modi com um belo abraço.(Nota DefesaNet Este até é algo de transcendental impacto pois o toque físico entre os asiáticos é algo impensável ainda mais na linguagem diplomática)
 
Porém, nem tudo que a viagem prometia aconteceu. A tão antecipada melhora da cooperação entre ministros da Defesa e das Relações Exteriores de ambas as partes (o diálogo 2+2) não foi adiante. Essa interação é importante, pois é a primeira que a Índia consegue firmar. Mas em 39 parágrafos ao todo, Declaração de Tóquio para Parceria Especial Global e Estratégica Índia Japão, resultado do encontro entre Abe e Modi, confirma que os dois países estão comprometidos com uma relação profunda e abrangente, e em não deixar ninguém saber a respeito.

Em termos de números, pelo menos, o ponto alto é a intenção do Japão investir aproximadamente 35 bilhões de dólares na Índia ao longo dos próximos cinco anos. E há palavras no texto da Declaração sobre reforçar os laços de defesa e relaçoes internacionais. Pode haver ainda a exansão do “diálogo triangular em nível oficial”, que inclui também os Estados Unidos, para um “diálogo entre ministros das Relações Exteriores”.
 
Mas o que deve realmente chamar a atenção é o forte senso de apoio que tanto Índia quanto Japão têm para com seus respectivos papéis estratégicos
 
Seguindo a linha do governo Abe, determinada a colocar o Tóquio como agente mais, agora está registrado no documento que Modi “apoia a iniciativa japonesa de contribuir para a paz e estabilidade da região e do mundo”. E há também a gratidão de Abe por sua contraparte indiana ter “escolhido o Japão como primeiro destino para uma visita bilateral para além das imediações da Índia”. A escolha de Tóquio para inaugurar uma nova era de política indiana “voltada para o Oriente” não deveria ser uma grande surpresa. O subtexto por trás dessa boa vontade nascente e, logicamente, a ascenção dramática da China, que chega a ser mencionada na Declaração, apesar de não ser necessário. Em 1978, quando Pequim lançou suas reformas econômicas espetaculares sob a administração de Deng Xiaoping, a economia japonesa era 12 vezes maior que a chinesa.

Já em 2013, segundo o Banco Mundial, a economia chinesa eclipsou o Japão e é quase quatro vezes maior que a economia da Índia. Sgundo estimativas recentes do instituto PWC Economics, do Reino Unido, até 2030 as economias do Japão e da Índia juntas equivalerão a apenas 60% da economia da China.
 
À medida em que Pequim converte seu poder material em influência regional cada vez mais forte, os interesse comum entre Japão e Índia em impedir que a China tenha controle total da região está cada vez mais óbvio. Ambos os países têm rivalidades antidas e consolidados em relação à China - no caso do Japão, um legado histórico de hostilidades, além das disputas das ilhas no Mar do Leste da China. Em se tratando da Índia, há a questão da maior fronteira terrestre não demarcada no mundo, e a questão do Tibet.

Sem dúvida Pequim também percebeu o compromisso de Abe e Modi com !a segurança marítima, liberdade de navegação e voo e a solução pafícica de disputas de acordo com a lei internacional”.
 
Se somarmos esse interesse comum ao fato de que há pouca bagagem geopolítica entre Japão e Índia, a lógica estratégica que rege essa parceria se mostra interessante. Os blocos que compõe essa cooperação também estão mais e mais evidentes. Tóquio e Nova Dheli querem melhorar a parceria marítima, e Abe até mesmo se referiu à relação entre os países como a “confluência” do Oceano Pacífico e do Oceano Índico. No começo deste ano, o exercício naval Malabar, entre Índia e Estados Unidos se tornou trilateral com a
inclusão do Japão. Tóquio já mostrou interesse em ser figura regular nas relações indianas com outros países, e a própria Índia pode considerar isso relevante, uma vez que os termos de sua Estratégia Marítima Militar preveem colaboração “com nações amigas para estabelecer meios de dissuasão, mesmo não havendo alianças formais”.
 
A visita de Modi também promoveu um acordo de defesa de alto nível com o Japão, incluíndo a venda de aeronaves US-2. O contrato representaria um afastamento significativo das restrições à exportação de equipamentos de defesa autoimpostas pelo governo japonês. E nos próximos anos, os dois países podem assinar um acordo civil nuclear, análogo ao que foi firmado entre Índia e Estados Undios em 2008.
 
No entanto, as atuais conversas não anunciam uma aliança propriamente dita entre as duas democracias asiáticas contra a China, mesmo que a cordialidade entre Tóquio e Nova Dheli tenha apoio tácito dos Estados Unidos. O Japão é em grande medida uma potência naval e não teria grande serventia em um conflito na fronteira terrestre sino-indiana. Da mesa forma, a Índia está aos poucos transformando seu alcance marítimo militar, e sua capacidade de projetar poder para o leste além do estreito de Malacca ainda é limitada. É pouco provável que Nova Dheli tenha algum papel militar no caso de hostilidades entre China e Japão no Mar do Leste, e o país pode hesitar diante da possibilidade de uma aliança militar declarada contra a China
 
Ainda assim, o desenvolvimento rápido das relações indo-japonesas tem potencial para dividir a atenção da China entre suas fronteiras terrestres e marítimas. E Pequim, por sua vez, pode entender que há mais razões para reforçar seu poder naval no leste da Ásia, bem como os laços com o maior rival da índia no subcontinente - o Paquistão. A soma de todos esses desdobramentos mostra que o diálogo entre Shinzo Abe e Narendra Modi é peça importante das disputas entre potências da Ásia.