05 de Abril, 2014 - 11:35 ( Brasília )

Geopolítica

Independência energética dos EUA tem potencial para mudar o mundo


Richard Anderson

O Santo Graal dos presidentes americanos ao longo das últimas quatro décadas, de Richard Nixon a Barack Obama, têm sido a independência energética - e, graças ao gás e petróleo de xisto, esse sonho pode se tornar realidade em breve.

A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) e a petrolífera BP acreditam nisso e prevêem que os Estados Unidos obterá essa independência em 2035.

Obama também faz essa aposta. "Depois de falarmos nisso durante anos, finalmente estamos preparados para controlar o nosso futuro energético", disse ele em um discurso no ano passado.

O país não parará de importar energia da noite para o dia, mas ser autossuficiente gera grandes implicações não só para os Estados Unidos, mas também para o resto do mundo. Veja a seguir quais seriam algumas dessas implicações.

Economia americana

No ano passado, os Estados Unidos gastaram US$ 300 bilhões na importação de petróleo. Isso representa quase dois terços de todo o déficit comercial anual do país. Essas importações estão sugando centenas de bilhões de dólares por ano da economia americana.

Como diz a IEA, um déficit persistente pode desacelerar o crescimento econômico, da manufatura e do emprego.

Se forem independentes nessa questão, os Estados Unidos não só gastariam bem menos com energia mais barata que é gerada no próprio país, como também usaria o dinheiro gasto atualmente com produtores americanos.

Indústria americana

A independência viria apenas com o gás e petróleo de xistos em abundância e baratos. Isso pode levar os Estados Unidos a uma era de ouro na manufatura.

Os preços da energia americana são menores que os da Europa e do Japão. Isso, junto com os salários em alta na China e o aumento da produtividade de fábricas dos Estados Unidos, faz com que empresas americanas estejam analisando trazer - algumas já o fazem - sua produção de volta ao país.

Entre 2010 e março de 2013, foram anunciados quase cem projetos da indústria química no país, avaliados em US$ 72 bilhões, de acordo com o Conselho Americano de Química.

Várias companhias, como Dow Chemical, General Electric, Ford, BASF e Caterpillar, anunciaram investimentos de centenas de milhões de dólares em novas fábricas ou na reabertura de instalações que haviam sido fechadas. Até a Apple anunciou uma nova fábrica no Estado do Arizona uma década depois de ter fechado sua última fábrica no país.

Um estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers estima que um milhão de postos de trabalho podem ser criados até 2025 graças à energia mais barata e a demanda por gás e petróleo de xisto. Uma análise feita pelo Boston Consulting Group aponta um grande aumento das exportações de produtos manufaturados.

Qualquer aumento da manufatura levaria obviamente a um crescimento econômico ainda maior. Na verdade, os benefícios já podem ser sentidos - muitos economistas dizem que a energia mais barata foi um dos motivos pelos quais o desempenho da economia americana superou as expectativas nos últimos anos.

Indústria europeia

Há quatro anos, os preços de gás na Europa eram quase os mesmos do que nos Estados Unidos. Hoje, estão três vezes mais altos, e a IEA prevê que ainda serão duas vezes mais caros em 2035.

Para o próximo ano, o Boston Consulting Group espera que os Estados Unidos tenha uma vantagem no custo de exportação entre 5% e 25% em comparação com Alemanha, Itália, França, Reino Unido e Japão em uma série de indústrias, inclusive de plástico e borracha.

Algumas empresas europeias estão até mesmo pensando em investir pesado nos Estados Unidos. A anglo-holandesa Shell anunciou uma nova fábrica na Appalachia, uma região rica em gás. A francesa Vallourec investiu recentemente mais de US$ 1 bilhão em uma nova fábrica em Ohio, enquanto o grupo alemão de aço Voestalpine está investindo US$ 750 milhões em uma nova fábrica no Texas.

Isso não passou despercebido pelos políticos europeus.

No ano passado, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, anunciou que "todos os líderes estão cientes de que energia acessível e sustentável é muito importante para manter indústrias e empregos na Europa".

"A indústria encontra dificuldades para competir com empresas estrangeiras que pagam a metade do preço pela eletricidade, como nos Estados Unidos", disse Van Rompuy.

A Comissão Europeia falou até mesmo na "desindustrialização da Europa" por causa dos altos preços da energia.

Exportadores de petróleo

Vários países exportam grandes quantidades de petróleo para os Estados Unidos. Essas exportações desapareceriam com a independência energética americana. O impacto nessas economias, especialmente nas da América do Sul, da África e do Oriente Médio, seriam significativos.

Em 2011, por exemplo, as exportações de petróleo do Equador para os Estados Unidos foram de cerca de US$ 6,5 bilhões, ou 8% do PIB do país. Na Colômbia, chega a 7%.

Até mesmo o Canadá, membro do G7, sentiria o golpe. É válido ressaltar de novo, no entanto, que essa perda não viria de uma hora para outra.

Mas não é só a exportação para os Estados Unidos que seriam prejudicadas. O país é hoje o maior importador de petróleo, então, se não mais o comprasse, o seu preço inevitavelmente cairia. Isso prejudicaria produtores de petróleo.

Geopolítica e o Oriente Médio

Com a independência energética assegurada, o interesse americano no petróleo do Oriente Médio seria reduzido.

Muito disso depende do quanto a importação de petróleo é importante para a política externa dos Estados Unidos, mas alguns analistas têm comparado a política americana na Síria, um produtor de petróleo relativamente pequeno, com a sua política no Iraque, um dos maiores produtores do mundo.

Basta olhar a reação da Europa à movimentação russa na Crimeia para ver o quanto a segurança energética está interligada à política externa.

Com a Rússia provendo cerca de um terço da energia da Europa, as mãos dos líderes europeus estão, em grande parte, atadas.

Meio ambiente

As emissões de carbono nos Estados Unidos vêm caindo desde 2008, com exceção de 2010, quando houve um pequeno aumento, e agora voltaram aos níveis de meados dos anos 1990.

A razão é o grande aumento no uso de xisto, que responde por um terço da produção de gás americana e quase um quarto da produção de petróleo - isso leva a um menor uso de carvão, que é considerado mais poluente.

Isso pode ser bom para os Estados Unidos, mas não para a Europa, que tem aumento sua importação do carvão barato dos Estados Unidos.

Ambientalistas tem uma outra razão para estarem preocupados com o aumento do uso dos derivados de xisto: eles podem ser menos poluentes que o carvão, mas são mais poluentes que fontes renováveis como vento e energia solar.

Se a dependência americana do xisto continuar a aumentar e o investimento em energia renovável for reduzido como resultado disso, as emissões a longo prazo serão maiores do que se previa.

Também é importante lembrar que o petróleo e gás de xisto são combustíveis fósseis que se esgotarão. Se os Estados Unidos pretende perpetuar sua independência em energia, será preciso usar energia renovável para esse objetivo.