COBERTURA ESPECIAL - Modernização FAB - Tecnologia

29 de Janeiro, 2015 - 08:00 ( Brasília )

A Saga do Míssil Sidewinder




Nota DefesaNet

Matéria editada em 2002 e reeditada em 2005 e agora em 2014.

Republicamos devido a sua importância em mostrar a busca de resultados no gerenciamento de projetos complexos. Especialmente quando os resultados não são convincentes no início do projeto.

Mantivemos as referências aos projetos de 2002.

O Editor



O míssil Sidewinder é, de longe, o mais famoso míssil ar-ar de curto alcance. Em 1999 foi lançado um livro que conta sua verdadeira e fiel história: "Sidewinder – Creative Development at China Lake" AIAA. O autor, professor Ron Westrum, colheu informações durante 12 anos e contou com o apoio de membros da própria equipe que projetou o míssil para descrever os sucessos e os insucessos do projeto.

Para nós brasileiros, que não aceitamos o insucesso de um único míssil que erra o alvo, a leitura desse livro revela enormes surpresas, pois mostra de maneira clara, por meio de estatísticas e da apresentação de fatos, que a certificação de um míssil dessa classe e sua integração nas aeronaves não significa uma probabilidade de sucesso de 100%, nem mesmo de 70%.

Muito pelo contrário, com menos de 15% de sucesso o sidewinder já foi utilizado na guerra do Vietnam, mostrando que a melhor arma é aquela que já existe no seu arsenal e a próxima arma virá do aprimoramento da qualidade da primeira, na melhoria contínua do projeto; contando com a realimentação indispensável do operador, que representa o cliente final do produto.

O desenvolvimento do Sidewinder começou com o AIM-9A, em 1947. O AIM-9B, implantado nas aeronaves da marinha americana em 1956, foi o mais fabricado (95.000 apenas nos Estados Unidos) e o AIM-9X, que incorpora os avanços tecnológicos atuais, deverá ser fabricado a partir de 2002. A figura abaixo ilustra as transformações que sofreram as estruturas da seção de controle e guiagem do Sidewinder. As demais partes da estrutura sofreram poucas modificações externas.

O desenvolvimento do primeiro Sidewinder é uma demonstração de talento e perseverança de uma equipe de engenheiros e técnicos do Naval Weapons Center, em China Lake. Há muita similaridade entre as dificuldades encontradas em China Lake e aquelas que ocorreram no CTA durante o desenvolvimento do míssil MAA-1. A primeira delas: os dois começaram sem dinheiro e com enorme desconfiança. O MAA-1, em 21 anos de desenvolvimento só teve verba específica durante 10 anos. O Sidewinder, no início, dependia de verbas de outros projetos.

Alguns trechos do livro merecem um destaque especial, pois narram fatos que nos animam a enfrentar os enormes desafios tecnológicos inerentes ao desenvolvimento e a fabricação de mísseis (os números das páginas são mencionados para facilitar a verificação):

Os mísseis anteriores ao sidewinder erravam 90% dos lançamentos (pág. 31) e os foguetes ar-ar eram uma opção. Em uma ocasião, dois F-89 lançaram 208 foguetes contra um alvo aéreo desgovernado que rumava para Los Angeles. Nenhum acertou o alvo que não atingiu L.A. por falta de combustível. Os foguetes iniciaram uma série de incêndios e acertaram um carro (pág. 30). China Lake desenvolvia os sistemas de controle de tiro para os foguetes.

Durante um teste o míssil abandonou o lançador e iniciou manobras imprevistas obrigando o piloto Wally Schirra (futuro astronauta) a agir rápido para evitar ser atingido (pág. 105).

Em 1953, o programa quase foi interrompido após 12 falhas seguidas (pág. 114).

O primeiro tiro com sucesso do sidewinder foi em 11 set 1953 (pág. 115).

Após o primeiro tiro com sucesso seguiram-se 6 insucessos (pág. 116).

Durante uma das fases de testes, lançaram 100 mísseis em 3 meses. Em 3 anos, um único piloto lançou 92 mísseis (pág. 122).

Em 1955 a Philco começou a produzir os mísseis e as primeiras unidades falharam nos ensaios em vôo (pág. 123). O sidewinder entrou em serviço em 1956 (pág. 121 e 130). Em 1956, 200 mísseis foram lançados para avaliação (pág. 131).

Após uma falha espetacular do míssil na presença do alto escalão da Marinha, um dos engenheiros da equipe, famoso por suas frases, disse: "a probabilidade de sucesso é inversamente proporcional ao posto das autoridades presentes" (pág. 158).

O míssil perdia alvos estacionários em altas altitudes porque sua navegação proporcional foi projetada para alvos móveis (pág. 160).

A probabilidade de sucesso em condições ideais era de 70% (pág. 173).

Mais de 95.000 AIM-9B´s foram fabricados por empresas americanas (pág. 173).

Um B-52 amigo foi acidentalmente abatido pelo Sidewinder devido a falha no lançador (pág. 174).

O AIM-9B teve 9 versões até a chegada do AIM-9C (pág. 174). O atual Sidewinder, AIM-9M, também teve 9 versões (pág. 204).

Problemas na confiabilidade dos protótipos do AIM-9D: um único míssil foi aos testes finais 30 vezes e falhou em todos (pág. 177).

Produção na Philco: apenas 23% dos mísseis entregues ao cliente funcionavam (pág. 179).

Produção na General Electric: um dos mísseis entregues à Marinha não possuia o detetor infravermelho e outro continha flocos de tabaco na parte interna do dome (pág. 180).

Em 1967, produção de AIM-9D na Raytheon: 300 mísseis por mês e apenas 100 aprovavam nos testes (pág. 181).

Os mísseis Sidewinders AIM-9E e AIM-9J eram ineficientes (pág. 213). Obs.: estão previstos no computador de tiro míssil do F-5 da FAB, juntamente com o AIM-9B.

Na guerra do Vietnam: de 1965 a 1968, foram lançados 187 sidewinders AIM-9B e AIM-9D obtendo 16% de sucesso e de 1971 a 1972 foram lançados 267 AIM-9D e AIM-9G com 19% de sucesso. Os mísseis AIM-7, Sparrow, tiveram um desempenho ainda pior (pág. 215).

Na guerra das Malvinas a Marinha e a Força Aérea inglesa lançaram 26 mísseis sidewinder AIM-9L, abatendo 18 aeronaves argentinas, 69% de sucesso (pág. 218).



O míssil AIM-9X, previsto para ser implantado em 2002, pretende devolver a hegemonia no campo de mísseis ar-ar de curto alcance aos Estados Unidos da América. Esta hegemonia pertence aos russos desde 1985, quando lançaram o míssil R-73 (AA-11 é a denominação da NATO), com várias inovações: ângulo de visão de 60o, escravização ao capacete do piloto, controle simultâneo por desvio de jato do motor-foguete e aerodinâmico (canards), controle ativo de rolamento com ailerons nas superfícies trazeiras, medição de ângulo de ataque, etc. O detetor infravermelho ainda é de uma única célula de antimoneto de índio. A foto abaixo ilustra o R-73.

O
Sidewinder AIM-9X terá autodiretor com imageador infravermelho numa matriz de 128x128 sensores, o que possibilitará a rejeição de flares. Entre várias outras inovações o míssil terá ângulo de visão de 90o, escravização ao capacete do piloto e uma grande manobrabilidade.

Os especialistas em mísseis de todo o mundo, brasileiros incluídos, dedicam uma admiração muito grande aos inventores do sidewinder. Quanto mais se conhece sobre mísseis, principalmente sobre as dificuldades, mais se reconhece o trabalho dos precursores. O nosso míssil da mesma classe, o MAA-1 ("Piranha"), também é fruto da tenacidade de engenheiros e autoridades da Força Aérea, que acreditaram num projeto difícil, numa área em que a tecnologia é mantida em segredo total.

Pelos resultados obtidos até o momento nos testes do MAA-1, quando comparados com aqueles obtidos ao longo da história do sidewinder (incluíndo o AIM-9L), podemos concluir que a versão atual já é uma realidade e vislumbrar um futuro de sucessos para as versões que se seguirão. O nosso MAA-1X (2002) não está muito longe, basta acreditar na capacidade dos brasileiros.



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Última atualização 17 DEZ, 15:30

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