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28 de Março, 2022 - 10:10 ( Brasília )

Ucrânia não abre mão de integridade territorial em retomada de negociações com Rússia


Ucrânia e Rússia estavam se preparando nesta segunda-feira para as primeiras negociações de paz cara a cara em mais de duas semanas, com Kiev insistindo que não fará concessões sobre a integridade territorial da Ucrânia, conforme o curso no campo de batalha muda a seu favor.

Autoridades ucranianas minimizaram as chances de um grande avanço nas negociações, que serão realizadas em Istambul depois que o presidente turco, Tayyip Erdogan, falou com o líder russo, Vladimir Putin, no domingo.

Mas o fato de a conversa ocorrer pessoalmente pela primeira vez desde uma reunião amarga entre ministros das Relações Exteriores em 10 de março é um sinal de mudanças nos bastidores, à medida que a invasão da Rússia enfrenta dificuldades.

No terreno, não havia sinal de respiro para civis em cidades sitiadas, especialmente no devastado município portuário de Mariupol, cujo prefeito disse que 160.000 pessoas ainda estavam retidas, e ele acusou a Rússia de impossibilitar sua retirada.

Uma autoridade turca de alto escalão disse que as negociações de Istambul começariam nesta segunda-feira, mas o Kremlin afirmou mais tarde que não devem começar até terça-feira, acrescentando que é importante que elas ocorram pessoalmente, apesar do escasso progresso até agora.

Mykhailo Podolyak, chefe da delegação ucraniana, disse à Reuters que o horário de início depende de quando as delegações chegarem lá. Autoridades ucranianas têm sugerido repetidamente nas últimas semanas que acreditam que a Rússia poderia estar mais disposta a se comprometer, já que qualquer esperança que Moscou possa ter de impor um novo governo a Kiev desapareceu diante da forte resistência ucraniana e das pesadas perdas russas.

As Forças Armadas da Rússia sinalizaram na semana passada que estavam mudando o foco para se concentrar na expansão do território controlado pelos separatistas no leste da Ucrânia, um mês depois de terem comprometido a maior parte de sua enorme força de invasão em um ataque fracassado a Kiev.

Quando os lados se encontraram pessoalmente pela última vez, a Ucrânia acusou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, de ignorar seus apelos para discutir um cessar-fogo, enquanto Lavrov disse que a interrupção dos combates nem estava na agenda.

Desde então, eles têm feito reuniões via link de vídeo, em vez de cara a cara. Ambos os lados discutiram publicamente o progresso em uma fórmula diplomática sob a qual a Ucrânia pode aceitar algum tipo de status formal neutro.

Mas nenhum deles cedeu às demandas territoriais da Rússia, incluindo a Crimeia, que Moscou apreendeu e anexou em 2014, e territórios orientais conhecidos como Donbass, que Moscou exige que Kiev ceda aos separatistas. "Não acredito que haverá qualquer avanço nas principais questões", disse o assessor do Ministério do Interior ucraniano, Vadym Denysenko, nesta segunda-feira.

Ucrânia diz que Rússia quer dividir nação e pede mais armas

A Rússia quer dividir a Ucrânia em duas, como aconteceu com as Coreias do Norte e do Sul, disse o chefe da inteligência militar da Ucrânia neste domingo, prometendo uma guerrilha "total" para evitar a divisão do país.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, pediu ao Ocidente que dê à Ucrânia tanques, aviões e mísseis para ajudar a afastar as forças russas, cujos ataques têm mirado cada vez mais depósitos de combustíveis e alimentos, segundo o governo de Kiev.

Autoridades norte-americanas continuaram os esforços para suavizar os comentários de sábado do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que disse em um discurso inflamado na Polônia que o líder russo, Vladimir Putin, "não pode permanecer no poder".

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, disse que Washington não tem estratégia para mudança de regime em Moscou e que Biden simplesmente quis dizer que Putin não pode ser "autorizado a declarar guerra" contra a Ucrânia ou qualquer outro lugar.

Após mais de quatro semanas de conflito, a Rússia não conseguiu tomar nenhuma grande cidade ucraniana e Moscou sinalizou na sexta-feira que estava reduzindo suas ambições para se concentrar em proteger a região de Donbass, no leste da Ucrânia, onde separatistas apoiados pela Rússia têm lutado contra o exército ucraniano pelos últimos oito anos.

Um líder local da autoproclamada República Popular de Luhansk disse neste domingo que a região poderá em breve realizar um referendo sobre a adesão à Rússia, assim como aconteceu na Crimeia depois que a Rússia tomou a península ucraniana em 2014.

Os crimeanos votaram de forma esmagadora a favor de romper com a Ucrânia e se juntar à Rússia -- uma votação que grande parte do mundo se recusou a reconhecer.

"Na verdade, isso é uma tentativa de criar as Coreias do Norte e do Sul na Ucrânia", disse Kyrylo Budanov, chefe da inteligência militar ucraniana, em um comunicado, referindo-se à divisão da Coreia após a Segunda Guerra Mundial.

Ele prevê que o exército da Ucrânia fará com que as forças russas recuem. "Além disso, a temporada de um safári de guerrilha ucraniano total começará em breve. Então restará um cenário relevante para os russos: como sobreviver", disse ele.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia também descartou a possibilidade de qualquer referendo no leste da Ucrânia. "Todos os referendos falsos nos territórios temporariamente ocupados são nulos e sem efeito e não terão validade legal", disse Oleg Nikolenko à Reuters. Moscou diz que os objetivos do que Putin chama de "operação militar especial" incluem desmilitarizar e "desnazificar" seu vizinho. A Ucrânia e seus aliados ocidentais chamam isso de pretexto para uma invasão não provocada.

Região "rebelde" ucraniana apoiada pela Rússia pode votar para se juntar à Rússia



A região rebelde de Luhansk, no leste da Ucrânia, que é apoiada pela Rússia, disse neste domingo que pode realizar um referendo sobre a adesão à Rússia, despertando um alerta de Kiev de que tal votação não teria base legal e desencadearia uma resposta internacional mais forte.

Três dias antes de ordenar a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, o presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu as regiões rebeldes ucranianas de Luhansk e Donetsk como Estados independentes, embora o resto do mundo as considere parte da Ucrânia.

A Ucrânia, que diz estar lutando por sua existência contra o que considera uma apropriação de terras pela Rússia no estilo imperial, tem afirmado repetidamente que nunca concordará com a anexação de seu território pela Rússia -- a parte mais difícil das negociações de paz com Moscou. "Acho que em um futuro próximo um referendo será realizado no território da república", disse Leonid Pasechnik, líder da autoproclamada República Popular de Luhansk, segundo a mídia da região.

"O povo exercerá seu direito constitucional supremo e expressará sua opinião sobre a adesão à Federação Russa". A Ucrânia disse que tal referendo em território ucraniano ocupado não terá base legal e enfrentará uma forte resposta da comunidade internacional, aprofundando o isolamento da Rússia do restante do mundo.

"Todos os referendos falsos nos territórios temporariamente ocupados são nulos e sem efeito e não terão validade legal", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, Oleg Nikolenko, em comunicado à Reuters.


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