EUA deixam o Iraque: soberania recuperada ou vantagem estratégica para o Irã?

O encerramento da missão militar americana abre uma nova fase para Bagdá, mas a resistência das milícias ao controle estatal e a vulnerabilidade do Curdistão colocam à prova a capacidade iraquiana de transformar autonomia formal em segurança efetiva.

Ricardo Fan – DefesaNet

O encerramento da missão da Operação Inherent Resolve no Iraque, em 30 de setembro de 2026, representa uma mudança relevante na arquitetura de segurança do país. Segundo o Comando Central dos Estados Unidos, a retirada de forças e equipamentos da base aérea de Erbil marcou o fim da operação em território iraquiano. centcom.mil

Para Bagdá, a transição oferece a oportunidade de assumir integralmente a responsabilidade pela defesa nacional. Para Teerã, pode ampliar o espaço de atuação de parceiros políticos e facções armadas. Para o governo regional curdo, entretanto, a saída suscita dúvidas sobre a proteção diante de ameaças que combinam terrorismo, drones e mísseis.

A questão estratégica ultrapassa a contagem de soldados que deixaram o território. O resultado dependerá da capacidade do Estado iraquiano de comandar suas forças, preservar a cooperação internacional e impedir que organizações armadas determinem, por iniciativa própria, a política de segurança do país.

O significado do “vácuo” de segurança

A expressão “vácuo” exige precisão. O Iraque possui instituições, forças de segurança e autoridades responsáveis por seu território. A retirada americana tampouco significa o encerramento de todas as relações militares com Washington e os demais integrantes da antiga coalizão: Bagdá anunciou a continuidade da cooperação por instrumentos bilaterais, incluindo treinamento, intercâmbio de inteligência e desenvolvimento de capacidades. www.thenationalnews.com

O problema, portanto, é avaliar quais funções deixam de contar com presença estrangeira e em que medida poderão ser sustentadas pelas estruturas nacionais.

Treinamento, informação e equipamento só produzem capacidade militar quando integrados a uma organização que consiga planejar, mobilizar e executar operações. A disponibilidade de inteligência precisa ser acompanhada de meios para verificar uma ameaça e responder a ela. Uma aeronave precisa de manutenção, tripulação, armamento e coordenação com forças em terra. Uma defesa antiaérea depende de sensores, comando e procedimentos de engajamento.

Sob essa perspectiva, o eventual vácuo seria funcional: uma distância entre as responsabilidades assumidas por Bagdá e os recursos efetivamente disponíveis para cumpri-las.

Também existe uma dimensão de dissuasão. A presença de forças americanas introduzia, no cálculo de qualquer agressor, a possibilidade de confronto direto com os Estados Unidos. A retirada altera esse cálculo, embora não permita concluir que Washington perdeu toda capacidade de influência ou intervenção.

A influência iraniana já possui bases internas

O Irã encontra no Iraque instrumentos de influência que precedem a atual retirada. Segundo a Reuters, facções alinhadas a Teerã articulam capacidade militar, relações políticas e interesses empresariais. A agência também registrou resistência de grupos à entrega de armamento e à integração nas instituições de segurança. www.investing.com

A implicação estratégica é que Teerã pode obter vantagens sem assumir diretamente a administração ou a defesa do país vizinho. Parceiros locais capazes de pressionar autoridades, condicionar decisões e preservar estruturas armadas próprias oferecem meios de influência com custos inferiores aos de uma presença militar convencional.

Nesse modelo, a disputa ocorre dentro das instituições e ao redor delas. A capacidade de bloquear uma decisão pode ser tão relevante quanto a de impor uma medida. Impedir determinado acordo de defesa, limitar a cooperação com um parceiro externo ou constranger uma operação governamental pode reduzir a liberdade de ação de Bagdá.

Entretanto, influência não equivale a controle absoluto. Seria inadequado presumir que todos os atores xiitas, todas as organizações armadas ou todas as decisões iraquianas obedecem a uma direção única de Teerã. A avaliação deve examinar vínculos e comportamentos concretos, evitando transformar identidade religiosa em prova de alinhamento político.

O teste decisivo está no controle das armas

O governo iraquiano apresentou a saída da coalizão como uma conquista de soberania. Contudo, segundo o The National, o prazo para colocar as armas das milícias sob autoridade estatal foi adiado para, no mínimo, junho de 2027, diante da resistência de facções influentes. www.thenationalnews.com

Essa diferença de calendário expõe o principal risco da transição: a presença estrangeira termina enquanto a consolidação do comando nacional permanece incompleta.

A soberania exige que o governo possa decidir quando empregar a força e quando evitá-la. Se uma organização consegue lançar ataques sem autorização, ameaçar parceiros externos ou impedir a execução de decisões oficiais, ela participa da definição da política de segurança por meios próprios.

Colocar armamento sob controle estatal também precisa significar mais do que uma declaração de adesão. O critério operacional deve incluir a autoridade sobre depósitos, deslocamentos, comunicações, financiamento e emprego dos meios. A integração perde substância quando uma unidade recebe reconhecimento institucional, mas conserva uma cadeia de comando paralela.

Por isso, o êxito de Bagdá deverá ser medido pela obediência efetiva às decisões nacionais, inclusive quando essas decisões contrariem interesses de facções ou de seus apoiadores externos.

O Curdistão e a distribuição desigual dos riscos

A retirada não é percebida da mesma maneira em todo o Iraque. Autoridades curdas e lideranças sunitas manifestaram preocupação com a persistência de células do Estado Islâmico e com possíveis lacunas de apoio aéreo, inteligência e defesa. Representantes do governo regional curdo também destacaram a necessidade de proteção contra drones e mísseis. The National

Essas preocupações mostram que uma decisão nacional pode distribuir seus custos de maneira desigual. Para uma autoridade responsável por uma área particularmente exposta, a existência de acordos diplomáticos oferece menos segurança do que meios disponíveis para identificar e enfrentar uma ameaça.

A resposta exige coordenação entre Bagdá e Erbil. Em termos operacionais, divergências sobre responsabilidades podem produzir atrasos, informações fragmentadas e incerteza sobre quem deve agir.

O desafio será transformar a cooperação em procedimentos: compartilhar alertas, definir setores de responsabilidade, coordenar operações e estabelecer prioridades de proteção. Aeroportos, instalações energéticas e áreas civis precisam integrar esse planejamento.

Estado Islâmico: evitar a recomposição sem presumir um novo califado

A permanência de células jihadistas constitui um problema de segurança, mas não autoriza equiparar o cenário atual à expansão territorial do Estado Islâmico em 2014. A derrota de uma organização como força territorial e sua eliminação como rede clandestina são resultados distintos.

A prioridade deve ser impedir que pequenos núcleos recuperem liberdade de movimento, financiamento e capacidade de recrutamento. Para isso, operações militares precisam ser acompanhadas por investigação, presença administrativa e cooperação com comunidades locais.

A análise também deve separar duas ameaças: o terrorismo jihadista e a autonomia de facções armadas alinhadas ao Irã. Uma organização insurgente pode explorar falhas de vigilância; uma milícia politicamente conectada pode limitar a resposta governamental. Os mecanismos diferem, mas ambos podem reduzir a autoridade do Estado.

A retirada será sustentável se o sistema iraquiano conseguir enfrentar essas ameaças sem depender de uma crise para reconstruir capacidades.

Autonomia nacional e exposição estratégica

O argumento favorável à retirada possui fundamento. Uma missão estrangeira prolongada pode gerar dependência, alimentar disputas políticas e dificultar a responsabilização das autoridades nacionais pela segurança. Assumir a defesa do território é uma atribuição legítima do Estado iraquiano.

A saída também testa a justificativa das facções que vinculavam a manutenção de suas armas à presença americana. Se a causa alegada desaparece, torna-se mais difícil sustentar indefinidamente a necessidade de estruturas militares autônomas.

O contraponto está na conduta observada. O The National registrou que uma facção rejeitou a entrega das armas e ameaçou responder militarmente a qualquer presença estrangeira remanescente. www.thenationalnews.com Isso indica que o encerramento da missão não resolve, por si, a disputa pelo poder armado.

A retirada tampouco demonstra automaticamente uma derrota americana. O cumprimento de uma transição negociada pode atender a objetivos de Washington. Seu resultado estratégico, porém, dependerá de preservar relações úteis e evitar que a redução da presença militar elimine a capacidade de acompanhar e influenciar acontecimentos relevantes.

Da mesma forma, o Irã pode celebrar uma oportunidade sem garantir que conseguirá convertê-la em ganhos duradouros. A consolidação de instituições iraquianas capazes de resistir a pressões limitaria esse aproveitamento.

Projeções: três caminhos para a transição

A partir desses fatores, três cenários podem orientar o acompanhamento da situação. São possibilidades analíticas, não previsões fechadas.

No primeiro, Bagdá consolida o comando sobre os atores armados, mantém cooperação internacional e coordena suas forças com o governo regional curdo. A retirada favorece uma autonomia sustentada por capacidades nacionais.

No segundo, o país preserva estabilidade relativa, mas convive com autoridade fragmentada. O governo administra compromissos com facções que conservam meios próprios de coerção. A influência iraniana cresce pela capacidade desses grupos de condicionar decisões.

No terceiro, falhas de segurança e disputas políticas se reforçam. Ataques provocam respostas externas, organizações jihadistas exploram descoordenação e o Estado perde margem para conduzir a própria política.

A evolução deverá ser observada por indicadores concretos: cumprimento das decisões sobre armamento, continuidade das operações antiterrorismo, coordenação entre Bagdá e Erbil e capacidade de impedir ataques não autorizados a partir do território nacional.

Soberania exige capacidade, continuidade e coerência

O encerramento da missão americana inaugura uma oportunidade e um teste. A oportunidade é construir uma segurança nacional menos dependente de forças estrangeiras. O teste é demonstrar que essa segurança pode ser sustentada por instituições capazes de comandar, proteger e responder.

O risco para o Iraque está em trocar uma dependência visível por limitações internas menos transparentes. A ausência de tropas estrangeiras terá alcance reduzido se atores armados continuarem decidindo quais ordens cumprir e quais compromissos internacionais aceitar.

Para Teerã, a retirada amplia possibilidades. Para Bagdá, aumenta a responsabilidade de impedir que essas possibilidades se convertam em poder de veto sobre o Estado.

A medida da soberania iraquiana será a capacidade de suas autoridades de exercer a decisão nacional em todo o território. Soberania exige capacidade, continuidade e coerência.

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