COBERTURA ESPECIAL - Relatório Otálvora - Geopolítica

09 de Junho, 2022 - 23:00 ( Brasília )

Relatório Otálvora: EUA buscam preencher as cadeiras da Cúpula


Edgar Otálvora
04 de junho de 2022


No dia das eleições na Colômbia, a presença de grupos de militantes de esquerda liderados pela campanha de Petro era palpável em Bogotá.
 
As duas opções eleitorais que vão para o segundo turno presidencial na Colômbia significarão uma mudança na política daquele país em relação à Venezuela e diretamente ao "governo provisório" liderado por Juan Guaidó. A queda de um dos mais importantes aliados dos setores democráticos venezuelanos coincide com uma rota em ziguezague do governo dos EUA sobre a Venezuela.
 
O candidato Rodolfo Hernandez, político colombiano e empresário do interior que até agora teve pouca projeção nacional, conseguiu superar nas últimas semanas Fico Gutiérrez, que era o principal concorrente do esquerdista Gustavo Petro. Hernández somou 28,17% dos votos e logo se tornou a alternativa de um amplo espectro político para impedir a vitória do candidato castrista que alcançou 40,34% dos eleitores.

Se a chegada de Álvaro Uribe Vélez à presidência da Colômbia em 2002 significou o fim do esquema político baseado nas alianças e alternâncias dos dois partidos históricos, o aparecimento de Hernández significa o colapso total dos esquemas tradicionais da política colombiana, com um candidato que utilizou basicamente as ferramentas das "redes sociais" sem ter um aparato partidário nas costas e que conseguiu se sintonizar com uma população já majoritariamente urbana.

O desconhecido Hernández foi prefeito de Bucaramanga, mostra um histórico como empresário do setor de construção e atualmente tem um processo judicial contra ele acusado de corrupção durante seu governo. Segundo seu principal assessor eleitoral, Hernández “é um homem de 77 anos, da província, que tem um mundo em poucas questões, é viajado; mas ele tem uma leitura do mundo feita de maneira tradicional”. A descrição acima foi feita pelo argentino Ángel Beccassino, chefe da campanha eleitoral de Hernández, em declarações à jornalista Catalina Oquendo do jornal madrileno El País.

Beccassino, que foi assessor da campanha de Gustavo Petro em 2018 e antes da campanha de Juan Manuel Santos Calderón, disse que seu atual cliente “quando dá opiniões sobre questões, são muito tradicionais. Eles não estão na mudança que o mundo está tendo há muito tempo”, mas justificou, assegurando que na Colômbia “há 60% que é muito tradicional. Este é um país muito bom”.

No dia 30MAIO2022, um dia depois das votações que o catapultaram para o segundo turno, o candidato “gótico” emitiu uma série de tweets basicamente com o objetivo de se apresentar como não-Uribe, ambientalista, politicamente correto, pró-aborto , candidato pró-maconha, contra a exploração de petróleo via fracking, contra o uso de glifosato para exterminar plantações de coca, pela diversidade sexual e de gênero. Um peeling facial intenso com vista ao segundo turno.

 

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Em um de seus vinte tweets programáticos de 30 de maio de 22, Rodolfo Hernández afirmou: “Ao contrário do que Duque fez em seu governo, vou restabelecer as relações diplomáticas com a Venezuela”. Anteriormente, em 18MAIO2022, Hernández havia anunciado que seu segundo decreto, caso se tornasse presidente, seria fechar 27 embaixadas colombianas, incluindo as localizadas em Portugal, Paraguai, Uruguai, República Dominicana, Austrália, Suécia, entre outras. 
 
Mas simultaneamente procederia à abertura da embaixada na Venezuela, ignorando que o encerramento da missão em Caracas foi consequência da expulsão de diplomatas colombianos por Nicolás Maduro em 23FEV2019 e não por decisão de Iván Duque. Hernández ofereceu em sua campanha que iria abrir a fronteira com a Venezuela,
 
A hipotética reabertura da embaixada colombiana em Caracas, por Petro ou Hernández, teria que ser negociada com Nicolás Maduro com o reconhecimento implícito de seu governo de fato, com Guaidó perdendo um dos mais importantes apoios estrangeiros.
 

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Por volta da data das eleições, o apoio do internacional de esquerda à candidatura de Gustavo Petro tornou-se cada vez mais público.

Em 27MAIO2022, Lula da Silva realizou ato eleitoral na Casa de Portugal, em São Paulo, ao lado de seu candidato à vice-presidência Geraldo Alckmin e representantes de “grupos sociais” incluindo organizações de choque radical como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento de trabalhadores sem-teto (MTST). Lula, no início de sua arenga, pediu aos presentes que se levantassem e repetissem as palavras que ele pronunciaria para gravar um vídeo no que ele descreveu como "um ato de ação internacionalista", usando uma expressão típica dos internacionais comunistas do passado.
 
“Pedimos à Colômbia que o povo vote no camarada Gustavo Petro para presidente. Para que a partir de outubro [data das eleições presidenciais brasileiras] Brasil e Colômbia possam se juntar a outros países de uma América do Sul forte, com integração política, econômica, para que tenhamos um bloco muito forte”. 
 
Em Bogotá, Petro acolheu a interferência do amigo brasileiro. Lula afirmou que "não gosto de interferir em outros países, mas gostaria de pedir aos colombianos que votem no Petro". Na verdade, Lula muitas vezes interfere nas eleições dos países vizinhos. Dois exemplos: em 02 de abril de 13 Lula gravou um vídeo para ser veiculado na Venezuela pedindo o voto de Nicolás Maduro que concorreu inconstitucionalmente nas eleições para substituir o recém-falecido Chávez.
 
No dia das eleições na Colômbia, era palpável em Bogotá a presença de grupos de militantes de esquerda liderados pela campanha Petro, fora das missões de observação eleitoral autorizadas pela entidade eleitoral.

Já para o segundo turno marcado para 19JUN2022, o apoio da esquerda internacional ao Petro começou a chegar logo. No dia 03JUN2022 durante seu programa matinal, o mexicano Andrés López Obrador mandou “um abraço ao Petro daqui”. “E você sabe por que eu o abraço? Porque ele está enfrentando uma guerra suja dos mais indignos e covardes.
 

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Uma das ferramentas recebidas pela campanha de Petro da esquerda continental é o apoio do chamado "Centro Estratégico Geopolítico Latino-Americano" como agência de pesquisa e propaganda. O CELAG é liderado pelo espanhol Alfredo Serrano Manc, membro do Podemos, assessor econômico do regime chavista e atualmente operando em Buenos Aires. Com base nas medições que Serrano lhe deu, Petro calculou que ganharia a presidência da Colômbia no primeiro turno, já que os números do pesquisador chavista lhe deram 48% de intenção de voto com tendência crescente no início de maio e lhe garantiu que 53,2% dos colombianos acreditavam que Petro seria o vencedor das eleições. A informação dada a Petro por seus associados políticos estrangeiros estava errada.
 

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A realização da Nona Cúpula das Américas, que este ano é sediada pelo governo dos Estados Unidos, tornou-se um atoleiro para a Casa Branca e o Departamento de Estado.
 
A Cúpula de Los Angeles deve começar em sua fase ministerial em 08JUN22 e na fase de chefes de estado na tarde de 09JUN22. Menos de uma semana antes dessas datas, a lista completa dos governos convidados pelo país anfitrião era desconhecida. Os convites oficiais só foram emitidos em 18MAIO2022 e, fora os países do continente, os EUA teriam feito um convite especial ao governo da Espanha como observador. Os EUA querem falar sobre o peso das migrações latino-americanas e esperam que a Espanha se comprometa a colocar seu ombro no assunto.
 
Nas últimas semanas tem havido uma luta pública entre os Estados Unidos e os governos da região, não sobre as questões e possíveis acordos da Cúpula, mas sobre a participação ou não no evento. O distanciamento de Washington de governos relevantes no continente, o confronto de aliados das ditaduras cubana e venezuelana, a falta de atenção de Washington em geral para a região, forçou a Casa Branca e o Departamento de Estado a implantar uma operação de emergência para garantir um número relevante de chefes do Estado.
 
A decisão de não convidar Miguel Díaz-Canel, Nicolás Maduro e Daniel Ortega foi o motivo de um grupo de governos anunciar que não atenderia à convocação. O eventual convite a Juan Guaidó como representante da Venezuela também foi uma questão pela qual alguns governos tentaram chantagear a Casa Branca ao não viajar para Los Angeles.
 

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Devido ao não convite a Cuba, o mexicano López Obrador não comparecerá à Cúpula, embora tenha garantido que enviará seu chanceler Marcelo Ebrard. O boliviano Luis Arce também não comparecerá e não se sabe se seu ministro Rogelio Mayta o substituirá como chefe de delegação.
 
A ameaça de não comparecimento em massa na cúpula por parte dos quinze membros da organização caribenha Caricom não prosperou. O ex-senador Christopher Dodd, Assessor Sênior da Casa Branca para a Cúpula das Américas, viajou a Barbados de 19 a 20 de abril de 22 para se reunir com líderes das Bahamas, Barbados, Belize, Dominica, Guiana, Haiti, Jamaica, Suriname e Trinidad e Tobago para boicote à Cimeira. 
 
A tentativa de boicote caribenho foi promovida por Cuba e operada pelo primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves. Após intensa pressão de Havana e Caracas sobre os governos caribenhos, incluindo novas ofertas de ajuda petrolífera da ditadura venezuelana, a manobra cubana fracassou por não conseguir o consenso dos países da Caricom. Em 18MAIO2022, foi feita a última tentativa de chegar a uma posição comum do Caribe por meio de uma reunião por teleconferência dos chanceleres dos governos membros da CARICOM. 
 
Concordaram em solicitar que a Cúpula das Américas “seja inclusiva, garantindo a participação de todos os países do hemisfério”, mas o plano coletivo de boicote não teve a maioria necessária. Quatro membros da Caricom não devem comparecer à reunião em Los Angeles, basicamente os membros da aliança ALBA.
 
Xiomara Castro, a presidente de Honduras que também se queixa de não ter sido convidada a Cuba, estaria considerando viajar para a reunião, após conversas com a vice-presidente norte-americana, Kamala Harris, responsável pelas relações diretas com o presidente. Castro havia avisado em 28 e 22 de maio que não participaria da cúpula se “todos os países sem exceção” não forem convidados.
 
O presidente guatemalteco Alejandro Giammattei anunciou em 17MAIO202 que seu governo não participará da Cúpula, incomodado com as críticas de Washington à renovação do mandato da procuradora-geral, Consuelo Porras, que desde 20SET2021 figura na lista dos sancionados pelo Estados Unidos por conduta “corrupta e antidemocrática”. Em 03JUN2022, os governos dos EUA e da Guatemala anunciaram um acordo de cinco anos através do qual a agência americana USAID prestará ajuda à Guatemala. O acordo certamente vai abastecer o humor do presidente Giammattei para uma viagem a Los Angeles.
 
O presidente salvadorenho Nayib Bukele, que muitas vezes se queixou de maus-tratos por parte de Washington desde os dias de Donald Trump, poderia ficar em casa e não viajar para Los Angeles.
 

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Para garantir a presença da Argentina e do Brasil na Cúpula, a Casa Branca e o Departamento de Estado tiveram que aumentar as apostas.

O principal assessor da Casa Branca para a Cúpula das Américas, o ex-senador Christopher Dodd, foi recebido em 26 de maio pelo argentino Alberto Fernández, que tinha dúvidas sobre sua participação na Cúpula em solidariedade à ditadura cubana. Dodd esteve em turnê pela Argentina, Uruguai e Brasil para garantir a presença desses países na Cúpula e, embora o encontro com o argentino tenha sido anunciado oficialmente, a imprensa do governo não divulgou imagens do encontro.
 
A agência de notícias do governo argentino, Télam, distribuiu um telegrama em 27MAIO2022 informando que Argentina e México estavam se preparando para realizar um evento anti-Cúpula na cidade de Los Angeles, em nome da CELAC e para o qual convidariam representantes do ditaduras de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Segundo a agência de propaganda argentina, o evento teria sido planejado pelos chanceleres da Argentina e do México, Santiago Cafiero e Marcelo Ebrard, que se reuniram na Cidade do México no dia 26MAIO2022. O governo mexicano rapidamente negou que pretendia participar de uma anti-cúpula contra a reunião convocada por Biden.
 
Alberto Fernández, que jogou a cartada de fazer amizade com Washington enquanto fazia parte do grupo esquerdista Puebla, apostou muito pedindo um encontro com Biden em troca de sua participação na Cúpula. Em 01JUN2022, o Ministério das Relações Exteriores da Argentina notificou oficialmente aos EUA que Fernández participaria da Cúpula e logo depois, naquele mesmo dia, o argentino recebeu um telefonema da Casa Branca em que Joe Biden o convidou para visitá-lo em Washington no mês de julho . Para o público de esquerda, Fernández fez saber que iria à Cúpula a pedido do México e da Bolívia como presidente da CELAC para protestar contra o não convite de Cuba.

 

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Outra parada crítica para o enviado de Washington, Christopher Dodd, foi o Brasil. Jair Bolsonaro, que teve acesso privilegiado à Casa Branca de Donald Trump, foi afastado das prioridades dos EUA devido às acusações que a ala esquerda do Partido Democrata faz sobre a política ambiental do Brasil na Amazônia. “Macron, Biden, Trudeau, Boris, entre outros, estão nos açoitando o tempo todo”, reclamou Bolsonaro  em 21MAIO2022, pouco antes da chegada de Dodd a Brasília.

Bolsonaro recebeu Dodd no dia 24MAIO2022 no Palácio do Planalto no que foi descrito como um encontro cordial. Até o momento, Bolsonaro havia sido visitado apenas por um alto funcionário do governo Biden: o embaixador William Burns na qualidade de diretor da CIA em 01JUL2021. Dodd ofereceu a Bolsonaro que se ele atendesse ao convite para Los Angeles, a Casa Branca organizaria uma reunião bilateral com Biden paralelamente à Cúpula.
 

Bolsonaro já confirmou presença na Cúpula e o Planalto analisa a solução para um problema prático: quem vai assumir a Presidência desde que assumiu o cargo pode significar a desqualificação para participar das eleições gerais de 02OUT2022.

 
Para 27MAIO2022, foi convocada em Havana uma reunião de chefes de governo dos dez países membros da chamada aliança ALBA, liderada pelas ditaduras de Cuba e Venezuela. Foi uma suposta “anti-cúpula” em resposta à Cúpula das Américas. Nicolás Maduro viajou para Havana em 26MAIO2022 a bordo da aeronave Airbus A319CJ adquirida durante o governo Chávez como FAV0001 e que agora voa com camuflagem e registro de aeronave comercial. O governo chavista colocou à disposição dos convidados uma frota de aviões para o traslado a Havana, que percorria o Caribe em busca de viajantes.
 
A convocação acabou sendo um fracasso, pois apenas o presidente boliviano Luis Arce e o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas Ralph Gonsalves se juntaram à “cúpula” da ALBA. Os outros membros enviaram ministros, credenciaram seu embaixador em Havana ou simplesmente não viajaram. Daniel Ortega recusou-se a sair de Manágua e enviou uma mensagem gravada a seus companheiros da ALBA.
 

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No momento de fechamento deste informe, fontes do aparato diplomático de Juan Guaidó fuera de Venezuela, assím como observadores políticos baseados em Washington consultados no fim do día 03JUN2022, coincidíam  que a Casa Branca não havia convidado quem não o reconhece como presidente interino da Venezuela.


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