COBERTURA ESPECIAL - Guerras Híbridas Latinas - Geopolítica

20 de Abril, 2021 - 11:30 ( Brasília )

Internet, a pedra no sapato da ditadura cubana

"Mentiras", "manipulação", "subversão": Raúl Castro, que entregou na segunda-feira as rédeas do Partido Comunista de Cuba, não mede as palavras para falar sobre a internet, que se tornou a arma favorita da oposição.

O país de 11,2 milhões de habitantes foi por muito tempo um dos menos conectados do mundo. 

Tudo mudou com a chegada da internet móvel no final de 2018: as pessoas a adotaram de forma vertiginosa, apesar do alto preço, com 4,2 milhões de pessoas conectadas.

O ditador Miguel Díaz-Canel, sucessor de Raúl Castro à frente do partido, se gabou de incentivar "a informatização da sociedade", mas logo se desiludiu com uma agitação social sem precedentes.

Na segunda-feira, enquanto 300 delegados do partido se reuniam em um congresso em Havana, um vídeo se tornou viral nas redes sociais ao mostrar a prisão do artista dissidente Luis Manuel Otero Alcántara na capital.

Dezenas de ativistas, jornalistas independentes e artistas denunciaram, por meio do Twitter, que a polícia os impediu de sair de suas casas, técnica utilizada pelas autoridades para impedir mobilizações.

Outros disseram, por meio de contas nas redes sociais de parentes ou amigos, que foram privados da internet.

Novembro, momento-chave

Ted Henken, um sociólogo americano e autor do livro "La revolución digital de Cuba", acredita que "há uma luta em Cuba sobre quem terá o controle das tecnologias digitais e não sabemos como isso vai acabar".

"Com a chegada do 3G, as mobilizações tanto online quanto nas ruas aumentaram e se tornaram mais frequentes. A partir de novembro vimos que tinham cada vez mais impacto, o que provocou uma resposta muito forte do governo", acrescenta.

Novembro de 2020 marcou um antes e um depois. Durante dez dias, o oposicionista 'Movimiento San Isidro' (liderado por Luis Manuel Otero Alcántara) ocupou uma casa para exigir a libertação de um rapper, filmando-se pelo Facebook.

Após seu despejo, cerca de 300 artistas se manifestaram no dia 27 de novembro em frente ao Ministério da Cultura, espalhando mensagens nas redes sociais para exigir mais liberdade de expressão, algo nunca visto em Cuba.

Para Raúl Castro, por trás desses protestos se esconde o mesmo velho inimigo: Washington.

"Não podemos esquecer que o governo dos Estados Unidos criou o 'Grupo de Trabalho da Internet para Cuba', (fundado em 2018 pelo Departamento de Estado), que pretende fazer das redes sociais canais de subversão", disse.

"Mas a verdade é outra, a contra-revolução interna, que carece de base social, liderança e capacidade de mobilização, está concentrando seu ativismo nas redes sociais e na internet", acrescentou.

"Estar na ofensiva"

Presente no congresso, o poeta octogenário Miguel Barnet se lançou na mesma direção: "Que o inimigo não se engane (...) aqui a revolução não está nas redes sociais, está nas ruas".

No entanto, por precaução, o partido adotou uma resolução para fortalecer o "ativismo revolucionário nas redes sociais". É preciso "estar na ofensiva", afirmou no sábado o chefe do departamento de ideologia, Victor Gaute, que foi substituído durante o congresso. 

Dias antes, o Conselho de Estado aprovou um novo decreto para regulamentar as telecomunicações com o objetivo de "defender os sucessos do Estado socialista", mas cujos detalhes ainda não são conhecidos.

Em várias ocasiões nos últimos meses, o Twitter suspendeu contas de veículos cubanos e de organismos oficiais, bem como de ativistas comuns, por violar suas regras sobre "manipulação".

Para o ex-diplomata Carlos Alzugaray, o uso que o governo faz da internet como "instrumento de propaganda" não é dos mais judiciosos.

Segundo ele, as contas dos ministros cubanos são "uma repetição do que diz o líder ditador".

Sobretudo porque não são apenas dissidentes que navegam na internet: defensores dos animais, ativistas dos direitos dos homossexuais ou jovens cubanos cansados das filas nos mercados também se expressam nas redes sociais sem pedir uma mudança no sistema. 

Michael Bustamante, professor da Universidade Internacional da Flórida, critica essa postura "binária" do governo, porque o que está acontecendo nas redes sociais também é reflexo de uma realidade: "Fale com qualquer pessoa nas ruas de Cuba hoje, e eles lhe dirão que a frustração e o pessimismo são generalizados", tuitou.


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