Rio de Janeiro: uma potência naval que precisa assumir seu protagonismo

Rio de Janeiro: uma potência naval que precisa assumir seu protagonismo

Por Carlos Erane de Aguiar
Presidente do Conselho de Administração do
Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro
Revista Economia do Mar
Outubro 2026

O Rio de Janeiro não pode mais tratar sua vocação naval como promessa. Ela é uma realidade construída ao longo de décadas, sustentada por estaleiros, portos, empresas de engenharia, universidades, centros de pesquisa, trabalhadores qualificados e pela presença estratégica da indústria de óleo e gás. O que falta não é potencial, mas decisão política, coordenação e continuidade para transformar essa vantagem em política de Estado.

O Estado reúne condições que poucos territórios no Brasil e no mundo oferecem: extensa costa, infraestrutura portuária, tradição industrial, capacidade tecnológica, mão de obra especializada e proximidade com os principais centros econômicos do país. O Porto do Rio, o Porto de Itaguaí, as baías de Guanabara e Sepetiba, os estaleiros, as bases de apoio offshore e instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia e o Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro formam uma plataforma estratégica para projetos de alta complexidade.

Essa estrutura é uma base concreta para gerar desenvolvimento econômico, inovação tecnológica, empregos qualificados e soberania industrial.

A indústria naval movimenta muito mais do que a construção de navios e plataformas. Cada projeto mobiliza metalurgia, caldeiraria, soldagem, engenharia, eletrônica, automação, logística, transporte, serviços ambientais, tecnologia da informação, manutenção e formação profissional. Uma encomenda para um estaleiro beneficia centenas de empresas fornecedoras, movimenta a economia local e cria oportunidades para pequenas e médias empresas.

Por isso, a ausência de uma política consistente tem custo elevado. Cada contrato perdido para outro estado ou país significa empregos não criados, impostos não arrecadados, conhecimento não desenvolvido e empresas com menor capacidade produtiva. Não podemos continuar exportando oportunidades por falta de planejamento, articulação, financiamento ou competitividade.

O Estado precisa agir agora — e com método.

A retomada e a modernização da indústria naval devem ocupar o centro de uma agenda econômica permanente. Isso exige um plano estadual com metas objetivas, prazos, indicadores de desempenho e participação efetiva do poder público, das empresas, dos trabalhadores, das universidades e das entidades representativas.

Não basta reconhecer a importância do setor. É preciso criar condições para que ele produza, invista e cresça: melhorar o ambiente de negócios, tornar o licenciamento mais eficiente, garantir segurança jurídica, ampliar o acesso a crédito, modernizar a infraestrutura, oferecer incentivos vinculados a resultados e estabelecer políticas de compras que valorizem a produção nacional.

O Rio de Janeiro precisa recuperar e ampliar sua capacidade de construir, reparar e modernizar embarcações. A demanda existe e tende a crescer. A frota de apoio marítimo precisa ser renovada, a navegação de cabotagem pode avançar e a indústria de óleo e gás continuará exigindo embarcações, plataformas, manutenção e soluções offshore. A transição energética também abrirá mercados para navios de apoio a parques eólicos marítimos, sistemas de armazenamento, combustíveis de baixo carbono e tecnologias de redução de emissões.

Essas oportunidades, porém, não serão automaticamente capturadas pelo Estado. A competição é concreta e será vencida por quem oferecer produtividade, inovação, qualificação profissional, infraestrutura e capacidade de execução.

A formação de mão de obra deve ser prioridade estratégica. É necessário ampliar cursos técnicos e de engenharia, fortalecer a educação profissional, aproximar escolas e empresas e criar programas permanentes de qualificação em soldagem, montagem, projeto, automação, robótica, manutenção, segurança, gestão e tecnologia digital.

A indústria naval do futuro será mais tecnológica, automatizada e sustentável. O Rio de Janeiro precisa estar na fronteira dessa transformação, investindo em pesquisa aplicada, digitalização, fabricação avançada, inteligência artificial, novos materiais, eficiência energética e combustíveis de menor impacto ambiental.

Universidades e centros de pesquisa devem estar conectados às necessidades das empresas, transformando conhecimento em produtos, serviços e soluções comercializáveis. A inovação precisa chegar aos estaleiros, às oficinas, aos fornecedores e às operações marítimas.

A transição energética deve ser encarada como oportunidade histórica. O Estado pode liderar o desenvolvimento de embarcações híbridas e elétricas, sistemas de propulsão eficientes, equipamentos para energia eólica offshore, soluções de redução de emissões e tecnologias voltadas à economia azul. Para isso, é indispensável antecipar tendências, estimular investimentos e criar um ambiente favorável à inovação.

Os governos estaduais e municipais têm responsabilidade decisiva: coordenar ações, priorizar investimentos, reduzir entraves burocráticos e defender, em Brasília, políticas nacionais que assegurem demanda e financiamento para o setor. É necessário transformar discursos em projetos, projetos em contratos e contratos em empregos.

As empresas devem investir em produtividade, qualificação, inovação e cooperação. A competitividade não pode depender apenas de incentivos. É preciso modernizar processos, formar consórcios, integrar fornecedores e buscar padrões internacionais de qualidade, segurança e sustentabilidade.

As instituições de ensino e pesquisa devem formar profissionais e desenvolver tecnologias alinhadas às necessidades do mercado. Os trabalhadores precisam ser reconhecidos como parte central dessa estratégia, pois não existe indústria naval forte sem conhecimento acumulado, experiência prática e valorização profissional.

O Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro pode exercer papel decisivo nessa articulação, aproximando os diferentes atores, identificando oportunidades, estimulando parcerias, defendendo políticas públicas e acompanhando a execução de uma agenda objetiva. O diálogo é indispensável, mas o momento exige também cobrança, compromisso, coordenação e resultados mensuráveis.

A chamada à ação é direta: o poder público deve estabelecer uma política permanente para a indústria naval; as empresas devem investir, inovar e cooperar; universidades e centros de pesquisa devem transformar conhecimento em soluções; instituições financeiras devem ampliar o crédito para projetos produtivos; os trabalhadores devem ser valorizados e qualificados; e a sociedade precisa reconhecer o setor como estratégico para o desenvolvimento econômico, tecnológico e social do Estado.

O Rio de Janeiro não precisa construir do zero uma vocação naval. Ela já foi comprovada por sua história, infraestrutura e profissionais. O desafio é convertê-la em crescimento contínuo, empregos de qualidade, inovação e soberania produtiva.

Não podemos esperar que as oportunidades desapareçam para lamentar a perda de investimentos. Tampouco aceitar que projetos sejam executados longe de uma estrutura que já existe e pode ser ampliada. A falta de coordenação não pode condenar o Estado à condição de espectador enquanto outros territórios avançam.

É hora de definir prioridades, unir esforços e agir.

O futuro da indústria naval brasileira passa pelo Rio de Janeiro. Mas não será garantido pela tradição. Será conquistado por decisões concretas, investimentos consistentes e compromisso permanente com a produção, a inovação e o emprego.

A hora de assumir o protagonismo é agora. O Rio de Janeiro tem os ativos, a competência e a oportunidade. Falta transformar tudo isso em ação coordenada. Governos, empresas, trabalhadores, universidades, instituições financeiras e sociedade precisam assumir sua responsabilidade e construir uma nova agenda naval para o Estado.

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