O legado do Brigadeiro Damasceno: ampliar capacidades para proteger o Brasil

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

Ao se aproximar do fim de sua gestão à frente da Força Aérea Brasileira, o Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno tem a oportunidade de deixar uma contribuição duradoura para a Força. A ampliação da frota de caças, o fortalecimento da inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), a renovação da aviação de patrulha e a modernização dos helicópteros estão entre as questões que terão impacto direto sobre o futuro da FAB.

O desafio de uma gestão que chega ao fim não é resolver todas as carências da Força, mas transformar necessidades conhecidas em programas concretos, com decisões e recursos encaminhados. A FAB precisa ir além da substituição de aeronaves antigas e preparar-se para as exigências operacionais das próximas décadas.

Aviação de caça: ampliar a frota

O programa Gripen representa um avanço tecnológico para a FAB, mas a dimensão do território brasileiro e as responsabilidades de defesa do espaço aéreo exigem uma avaliação permanente do tamanho e da disponibilidade da frota de caça.

Não basta incorporar aeronaves modernas. É necessário assegurar um número suficiente de aviões operacionais, pilotos treinados, armamentos, sensores e uma estrutura de apoio capaz de sustentar as operações.

A ampliação da frota deve ser acompanhada de planejamento financeiro e cronograma de aquisição. Damasceno poderia deixar encaminhados os estudos para novas encomendas, considerando as necessidades operacionais e as possibilidades orçamentárias.

O objetivo é garantir meios suficientes para vigiar, interceptar e, quando necessário, enfrentar ameaças em diferentes regiões do País.

Inteligência, vigilância e reconhecimento: enxergar antes de agir

Identificar uma ameaça, acompanhar seus movimentos e compartilhar informações em tempo hábil é tão importante quanto dispor de aeronaves de combate.

O Brasil precisa aprimorar o monitoramento do território, das fronteiras e das áreas marítimas de interesse. Isso exige aeronaves com sensores modernos, plataformas não tripuladas, radares e sistemas capazes de integrar informações de diferentes fontes.

O fortalecimento da estrutura ISR beneficia as operações militares e contribui para a vigilância de fronteiras, as missões de busca e salvamento e o apoio à defesa civil.

A integração de plataformas aéreas tripuladas e não tripuladas com sensores terrestres e espaciais permitiria melhorar a coleta e a distribuição de informações. Para isso, é necessário definir requisitos, estabelecer uma arquitetura de sistemas e estruturar um programa de longo prazo.

Aviação de patrulha: preparar a substituição dos meios antigos

A extensão do litoral brasileiro e a importância econômica do Atlântico Sul exigem uma aviação de patrulha capaz de acompanhar embarcações, monitorar áreas estratégicas e apoiar operações de busca e salvamento.

A idade de parte dos meios em serviço torna necessário planejar sua substituição antes que a redução da disponibilidade comprometa essas missões.

A experiência acumulada pela FAB deve servir de base para definir os requisitos da próxima geração de aeronaves. Sensores, sistemas de comunicação, autonomia, permanência em voo e integração com a Marinha precisam orientar a escolha dos futuros meios.

A estruturação de um programa de renovação, com prazos realistas e requisitos operacionais definidos, ajudaria a evitar uma substituição emergencial e custos maiores no futuro.

A aviação de patrulha é essencial para proteger os interesses brasileiros no mar e precisa manter condições de atuação compatíveis com a dimensão das áreas sob responsabilidade do País.

Aviação de asas rotativas: diversificar a frota

A modernização dos UH-60L Black Hawk e a aquisição de células adicionais dos estoques dos Estados Unidos já contam com contrato assinado. A iniciativa representa um avanço para a FAB, ampliando a disponibilidade de helicópteros para diferentes missões.

O próximo passo deveria ser avaliar a incorporação de outros modelos, adequados a necessidades que vão além das missões atendidas pelos Black Hawk. Transporte, busca e salvamento, operações especiais, apoio logístico e atuação em regiões de difícil acesso exigem características distintas, que nem sempre podem ser reunidas em uma única plataforma.

A escolha deve considerar os requisitos de cada missão, os custos de aquisição e manutenção, a disponibilidade de peças, a formação de tripulações e a logística necessária ao longo da vida útil das aeronaves.

Uma frota diversificada, dimensionada de acordo com as necessidades da FAB, permitiria distribuir melhor os meios e evitar que uma única família de helicópteros tivesse de atender a todas as demandas operacionais.

O legado para a próxima gestão

A FAB atua no controle do tráfego aéreo, em missões de busca e salvamento, no transporte de pessoas e equipamentos e no apoio a emergências. Ao mesmo tempo, precisa manter meios de combate para defender o espaço aéreo e os interesses nacionais.

Essa diversidade de missões exige aeronaves modernas, disponibilidade operacional e planejamento de longo prazo. A obsolescência e a insuficiência de meios podem comprometer o cumprimento dessas responsabilidades.

Na minha avaliação, Damasceno deveria concentrar seus esforços finais em quatro frentes: encaminhar o planejamento para ampliar a frota de caça, estruturar um programa de fortalecimento da inteligência e vigilância, preparar a renovação da aviação de patrulha e definir os próximos passos para diversificar a frota de helicópteros.

Não se espera que todos esses programas sejam concluídos nos últimos meses de uma gestão. O importante é deixar decisões tomadas, requisitos definidos e projetos estruturados para avançar.

O legado do Brigadeiro Damasceno deve ser medido pelos resultados concretos que deixar para a FAB. Uma frota de caça compatível com as necessidades do País, melhores recursos de inteligência e vigilância, uma aviação de patrulha com perspectiva de renovação e helicópteros adequados às diferentes missões são objetivos fundamentais para a defesa brasileira.

Ao deixar o comando, Damasceno tem a oportunidade de entregar ao sucessor projetos bem definidos e condições para avançar na modernização da Força Aérea Brasileira. Esse será um legado relevante para a defesa do Brasil.

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