A crecente tendência de emprego de aeronaves militares para a formação de pilotos.
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
Desde o anúncio de que o Gripen F deverá assumir papel central na conversão operacional dos futuros pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB), uma questão passou a merecer reflexão. Será esse o melhor emprego para uma aeronave desenvolvida justamente para ampliar as capacidades operacionais da aviação de caça em um ambiente de combate cada vez mais complexo?
A discussão não é sobre a necessidade de formar pilotos. Toda força aérea do mundo utiliza aeronaves biplace na conversão operacional, e o Gripen F obviamente também foi projetado para cumprir essa missão. A dúvida é outra: quando uma força aérea dispõe de apenas oito aeronaves dessa versão, faz sentido consumi-las predominantemente em treinamento ou seria mais inteligente preservá-las para missões operacionais nas quais suas características realmente fazem diferença?
Essa pergunta ganha relevância porque a guerra aérea mudou profundamente.
Até poucas décadas atrás, a cabine traseira de um caça biplace tinha como principal finalidade a instrução. Hoje, essa realidade está desaparecendo. A evolução dos radares AESA, dos sensores eletro-ópticos, dos sistemas de guerra eletrônica, dos enlaces de dados e da inteligência artificial transformou o segundo tripulante em um elemento essencial para o gerenciamento da missão.
É justamente por isso que aeronaves como o F-15E Strike Eagle, o F-15EX Eagle II, o F/A-18F Super Hornet e o Rafale B continuam sendo produzidas e empregadas operacionalmente. Embora cada programa tenha suas particularidades, todas seguem a mesma tendência: utilizar a cabine traseira para dividir a carga de trabalho, coordenar sensores, administrar sistemas de armas, integrar informações provenientes de diferentes plataformas e assumir funções de comando tático durante missões complexas.

O F-15EX Eagle II, do 85º Test and Evaluation Squadron testa na função de Loyal Wingman o BMQ-28 Ghost Bat (Morcego Fantasma), da Boeing Defense Australia durante manobras Valiant Shield 2026 sobre o mar das Filipinas, Foto USAF, 27 Junho 2026

A empresa russa UAC anunciou o voo inaugural da versão biplace do SU-57D, em 19 Maio 2026, a versão incorpora a parte dianteira da fuselagem com um novo desenho em estilo similar ao dos SU-30 Foto UAC
Esse conceito tende a ganhar ainda mais importância com a chegada dos drones colaboradores, os chamados Loyal Wingman. Em pouco tempo, o segundo tripulante deixará de gerenciar apenas os sistemas da própria aeronave para coordenar também plataformas não tripuladas, ampliando significativamente o alcance e a capacidade de combate da formação.
Foi exatamente essa visão que orientou o desenvolvimento do Gripen F.
A versão brasileira não surgiu apenas para substituir um treinador avançado. Ela nasceu para oferecer à FAB uma plataforma capaz de operar em um ambiente altamente conectado, explorando conceitos que deverão dominar o combate aéreo nas próximas décadas.
É nesse ponto que surge uma aparente contradição.
Grande parte da justificativa para o emprego intensivo do Gripen F está associada à chamada Fase IV da formação operacional, etapa em que o piloto aprende a empregar taticamente o caça, realizando interceptações, combate além do alcance visual (BVR), ataques ao solo, guerra eletrônica, emprego de armamentos inteligentes e operações em rede.
Historicamente, fazia sentido que essa fase fosse conduzida em aeronaves biplace de primeira linha. Entretanto, os custos de operação dos caças modernos e a evolução dos simuladores mudaram completamente esse cenário.
Hoje, simuladores de alta fidelidade reproduzem com enorme realismo praticamente todas as situações encontradas em combate. Ao mesmo tempo, diversas forças aéreas passaram a concentrar boa parte da formação avançada em aeronaves de combate leves ou jatos de treinamento armado, reservando os caças de primeira linha para a conversão final e para o emprego operacional.
Não se trata apenas de economia.
A hora de voo de um caça leve custa muito menos do que a de um caça supersônico de última geração. Isso permite formar mais pilotos, aumentar a atividade aérea e preservar a vida útil da frota principal, reduzindo o desgaste estrutural e os custos logísticos.
Nesse modelo, o Gripen F continuaria participando da formação, mas em uma etapa muito mais específica: a adaptação aos seus sistemas, à sua filosofia de emprego e às missões de maior complexidade. Depois disso, a aeronave retornaria à atividade operacional, desempenhando exatamente o papel para o qual foi concebida.
Essa discussão torna-se ainda mais importante quando se observa a dimensão da futura frota.
O contrato original prevê apenas oito Gripen F. Considerando inspeções, manutenções programadas, atualizações, indisponibilidades e eventuais acidentes, o número de aeronaves prontas para emprego simultâneo será naturalmente inferior.
Isso significa que cada hora de voo dedicada ao treinamento é uma hora a menos disponível para missões operacionais.
Mais do que isso, significa consumir a vida útil de uma plataforma cuja principal contribuição talvez não seja formar pilotos, mas ampliar a capacidade de combate da própria FAB.
O combate aéreo do Século XXI caminha para operações cada vez mais integradas, nas quais inteligência artificial, guerra eletrônica, sensores distribuídos, enlaces de dados e aeronaves não tripuladas atuarão como um único sistema.
Nesse ambiente, o Gripen F pode tornar-se um verdadeiro multiplicador de forças, permitindo que um único caça coordene outras aeronaves, gerencie sensores e controle drones colaboradores durante a missão.
É exatamente essa capacidade que diferencia a versão biplace da monoplace.
Naturalmente, o Gripen F continuará sendo utilizado na formação operacional. Isso faz parte de sua função e dificilmente será diferente.
A questão é de prioridade.
Vale a pena utilizar uma frota de apenas oito aeronaves principalmente como plataforma de instrução quando a tendência observada nas principais forças aéreas do mundo é justamente a oposta?
Enquanto outros países procuram preservar seus biplaces para missões operacionais de alta complexidade, o Brasil corre o risco de consumir uma parcela significativa dessa capacidade em uma atividade que pode ser desempenhada, em grande medida, por simuladores de última geração e aeronaves de combate leves.
A resposta não depende apenas de orçamento ou de disponibilidade de aeronaves.
Ela depende, sobretudo, da doutrina que a FAB pretende adotar para a próxima geração da aviação de caça brasileira.
O verdadeiro legado do Gripen F talvez não esteja na cabine de instrução, mas na capacidade de transformar a forma como a Força Aérea Brasileira combaterá nas próximas décadas.
As opiniões e conclusões aqui apresnetadas tem este brilahnte fechamento na apresentação dos pilotos Tenente-Coronel Abdon Vasconcelos (FAB) e o piloto de testes da SAAB Jakob Högberg, na apresentação do Gripen F em Linkoping, Suécia, Junho 2026
TC Abdon – Por que ainda precisamos de uma segunda tripulação? O futuro não é composto por sistemas não tripulados?
Piloto Högberg – Excelente pergunta, Abdon. Não queremos eliminar totalmente os humanos — mas a verdadeira questão é: como podemos utilizar melhor os humanos? O futuro do combate aéreo trata de conectar — plataformas tripuladas, não tripuladas e operadas por IA. O foco não está na plataforma individual, — mas em como elas operam juntas como um sistema. É aí que o Gripen F se destaca.
Poderíamos, por exemplo, coordenar ataques precisos em múltiplos eixos — com uma margem de erro extremamente reduzida.
Poderíamos também enviar ativos não tripulados — para espaços aéreos negados a fim de coletar inteligência, — ou simplesmente direcionar enxames de UAS para sobrecarregar o inimigo.
Ao levar o gestor de batalha para a linha de frente, — o Gripen F garante que a tomada de decisão humana —
permaneça no centro do ciclo, potencializada pela IA. Isso é a colaboração homem-máquina em seu nível máximo.
TC Abdon – Então, o que isso significa?
Significa treinamento mais rápido, —prontidão mais ágil e maior flexibilidade.
Piloto Högberg – Significa uma aeronave projetada não apenas para o presente, mas para o que está por vir.
TC Abdon – Uma aeronave que evolui junto com a sua Força Aérea e as suas missões.
Piloto Högberg – Porque o futuro do poder aéreo não se resume à tecnologia.
TC Abdon -Trata-se de pessoas trabalhando juntas, apoiadas por essa tecnologia.
Piloto Högberg – E é exatamente isso que o Gripen F possibilita.
TC Abdon – Para o Brasil e para todas as Forças Aéreas que se preparam para o futuro, obrigado. Obrigado.
Nota – Para o vídeo na íntegra acesse Video – This is Gripen F

Tenente-Coronel Abdon Vasconcelos (FAB) e o piloto de testes da SAAB Jakob Högberg, na apresentação do Gripen F em Linkoping, Suécia, Junho 2026




















