Rússia e Europa avançam para um confronto de longa duração

Ataques ucranianos contra refinarias e a região de Moscou transferem parte dos custos da guerra para o território russo. Em resposta, o Kremlin intensifica a pressão militar e procura redefinir o Reino Unido como participante direto do conflito, enquanto Alemanha e países bálticos ampliam sua preparação para um ambiente de hostilidade prolongada.

Por Redação DefesaNet

A guerra da Ucrânia permanece concentrada territorialmente no leste e no sul do país, mas suas consequências militares e estratégicas já ultrapassaram os limites do campo de batalha. A intensificação dos ataques ucranianos contra refinarias, depósitos de combustíveis, instalações industriais e a região de Moscou demonstra que a retaguarda russa deixou de ser um espaço protegido. Paralelamente, as forças russas mantêm uma campanha de maior poder destrutivo contra cidades, infraestrutura energética e centros logísticos ucranianos, sustentando uma assimetria que continua favorável a Moscou em volume de fogo.

Essa expansão da guerra em profundidade produz uma segunda consequência: os Estados europeus que fornecem armas, inteligência e tecnologia a Kiev passam a ser submetidos a uma pressão russa cada vez mais direta. Ao afirmar que o Reino Unido corre o risco de ser considerado parte do conflito, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, procura deslocar politicamente Londres da condição de apoiador para a de potencial cobeligerante.

Ao mesmo tempo, a Alemanha alcança seu maior contingente militar em 13 anos, enquanto Estônia, Letônia e Lituânia reforçam gastos de defesa, abrigos, sistemas de alerta, mobilização e presença aliada. Esses movimentos não significam que uma guerra direta entre Rússia e Organização do Tratado do Atlântico Norte esteja prestes a começar. Indicam, contudo, que o mecanismo de preparação para um confronto prolongado já foi acionado.

A guerra em profundidade alcança a retaguarda russa

A ofensiva ucraniana com centenas de drones contra o território russo representa uma ampliação expressiva da capacidade de Kiev de conduzir operações em profundidade. Segundo autoridades russas, mais de 600 aeronaves não tripuladas teriam sido direcionadas à região de Moscou durante uma das maiores incursões desde o início da guerra. O número deve ser tratado como uma alegação oficial de Moscou, pois inclui aparelhos interceptados, desviados ou neutralizados e não pode ser integralmente verificado de maneira independente.

A relevância militar e política da operação, entretanto, não depende apenas da quantidade exata de drones. O ataque obrigou a defesa russa a reagir em grande escala, afetou aeroportos e expôs a crescente dificuldade de proteger simultaneamente fronteiras, bases aéreas, instalações industriais, refinarias, centros urbanos e infraestrutura estratégica.

A Ucrânia procura aumentar a densidade dos ataques para saturar sistemas defensivos e forçar Moscou a dispersar radares, interceptadores, sistemas de guerra eletrônica e baterias antiaéreas. Cada equipamento deslocado para a proteção da capital ou de uma refinaria é um recurso que deixa de estar disponível para defender bases, centros logísticos ou forças posicionadas próximo à frente de combate.

Essa redistribuição não elimina a superioridade militar russa, mas altera a relação de custos. Sistemas não tripulados relativamente baratos obrigam o defensor a empregar interceptadores mais caros, ampliar patrulhas aéreas e manter uma cobertura territorial incompatível com a proteção absoluta de um país com a extensão geográfica da Rússia.

O resultado político também é significativo. Moscou construiu durante anos a percepção de que a guerra poderia ser conduzida na Ucrânia sem produzir efeitos relevantes sobre a vida cotidiana nos principais centros russos. A repetição de ataques contra a região da capital enfraquece essa separação e demonstra que decisões tomadas pelo Kremlin podem gerar consequências internas, mesmo quando os danos materiais são limitados.

A campanha contra refinarias e o problema do combustível

Os ataques contra a infraestrutura energética constituem o componente mais estratégico da campanha ucraniana. A Rússia possui grandes reservas e elevada produção de petróleo, mas a disponibilidade de petróleo bruto não garante automaticamente o abastecimento de gasolina, diesel, querosene de aviação e outros derivados.

O ponto vulnerável encontra-se no refino e na distribuição. Refinarias são instalações industriais complexas, formadas por unidades especializadas que não podem ser substituídas rapidamente. Danos concentrados em sistemas de destilação, craqueamento, controle ou bombeamento podem reduzir a produção por períodos superiores ao tempo necessário para reparar estruturas menos sofisticadas.

As sanções ocidentais acrescentam outra dificuldade. Parte dos componentes empregados por instalações russas depende de fornecedores, tecnologias ou cadeias internacionais cuja substituição exige adaptações, importações indiretas ou produção doméstica ainda insuficiente. Mesmo quando uma refinaria não é completamente destruída, danos recorrentes podem reduzir sua eficiência e aumentar os intervalos de manutenção.

As restrições regionais de combustível reconhecidas por autoridades russas sugerem que a campanha já produz efeitos acumulativos. Não se trata de afirmar que a Rússia esteja próxima de uma paralisação energética. O impacto mais plausível está na criação de gargalos, no aumento dos custos logísticos, na redistribuição de estoques e no desequilíbrio entre áreas produtoras, centros consumidores e regiões próximas às operações militares.

Kiev procura, assim, transformar sua capacidade de longo alcance em instrumento de desgaste econômico. O objetivo não é apenas reduzir o combustível disponível para unidades russas, mas obrigar Moscou a proteger uma rede extensa de refinarias, depósitos, ferrovias, terminais e oleodutos. A defesa dessa infraestrutura consome recursos humanos e materiais e amplia a competição entre as necessidades da frente e a proteção da retaguarda.

A assimetria permanece favorável a Moscou

O avanço ucraniano no emprego de drones não deve ser confundido com uma inversão da correlação de forças. A Rússia conserva vantagens em mísseis balísticos e de cruzeiro, bombas planadoras, aeronaves de combate e produção de drones de ataque. Também dispõe de maior capacidade para provocar destruição continuada em centros urbanos e sistemas energéticos.

O ataque russo contra Pechenihy, na região de Kharkiv, que matou ao menos dez civis e deixou outros feridos, ilustra essa assimetria. Enquanto a Ucrânia procura atingir instalações econômicas e militares no interior russo, Moscou sustenta uma campanha que combina objetivos estratégicos com forte impacto sobre a população civil.

A intensificação simultânea das operações dos dois lados revela uma guerra na qual a estagnação relativa da frente terrestre aumenta a importância dos ataques de longo alcance. Quando nenhum dos contendores consegue produzir uma ruptura decisiva no campo de batalha, a retaguarda econômica, industrial e social passa a ser tratada como instrumento de pressão.

Para a Rússia, os ataques contra o sistema energético ucraniano procuram reduzir a capacidade econômica do Estado, dificultar a produção industrial e elevar o custo político da resistência. Para a Ucrânia, atacar refinarias e centros logísticos russos é uma forma de compensar a inferioridade em massa, pessoal e poder de fogo.

Essas estratégias, entretanto, não são equivalentes em escala. Moscou continua capaz de lançar ataques mais destrutivos e regulares, enquanto Kiev depende de seleção rigorosa de alvos, inovação tecnológica e produção crescente de sistemas não tripulados para obter efeitos estratégicos com recursos inferiores.

O Reino Unido no centro da pressão russa

A advertência de Lavrov ao Reino Unido acrescenta uma dimensão diplomática e jurídica à escalada. Segundo o ministro russo, Moscou reserva-se o direito de considerar a Grã-Bretanha participante do conflito diante de sua suposta atuação direta em operações ucranianas. A afirmação ocorreu após notícias de que drones produzidos por empresas britânicas teriam sido utilizados contra alvos no interior da Rússia.

O Ministério da Defesa britânico não confirmou o emprego específico desses sistemas nos ataques mencionados. Londres, porém, não esconde a dimensão de seu apoio militar. O governo britânico comprometeu aproximadamente £16 bilhões em assistência militar desde o início da invasão em larga escala e pretende manter £3 bilhões anuais até 2030–2031. Também anunciou a entrega de 150 mil drones até o final de 2026, dentro de um pacote avaliado em £752 milhões.

A resposta do primeiro-ministro Andy Burnham, reafirmando que o Reino Unido continuará integralmente ao lado da Ucrânia, estabelece um confronto explícito de vontades. Moscou tenta convencer Londres de que o fornecimento de capacidades de longo alcance produzirá consequências. O governo britânico procura demonstrar que ameaças não serão suficientes para alterar sua política.

O Kremlin também busca construir uma narrativa segundo a qual a Ucrânia não teria capacidade autônoma para realizar determinadas operações. Ao atribuir planejamento, inteligência ou execução aos governos ocidentais, Moscou procura reduzir a agência estratégica ucraniana e justificar possíveis medidas contra interesses europeus.

Essa caracterização não torna automaticamente o Reino Unido parte juridicamente reconhecida da guerra. O fornecimento de armas, treinamento, financiamento e inteligência não estabelece, isoladamente, a condição de beligerante. O limiar seria mais claramente ultrapassado caso militares britânicos participassem diretamente da seleção de alvos, do comando das plataformas ou da execução das operações. Até o momento, não foram apresentadas evidências públicas conclusivas desse envolvimento operacional.

Da ameaça declarada à retaliação possível

Embora a linguagem russa seja severa, um ataque convencional contra o território britânico implicaria risco de confronto direto com a OTAN e de acionamento dos mecanismos de defesa coletiva. Por essa razão, as respostas mais plausíveis permanecem abaixo do limiar da guerra aberta.

O repertório disponível inclui ciberataques contra infraestrutura, sabotagem, interferência informacional, operações clandestinas, intimidação naval, perturbação de sinais e ações contra redes logísticas relacionadas ao apoio à Ucrânia. Cabos submarinos, instalações portuárias, sistemas ferroviários, indústrias de defesa e redes de energia representam alvos potencialmente vulneráveis à pressão indireta.

A vantagem dessas operações está na ambiguidade. Moscou pode produzir danos, testar respostas e elevar custos sem assumir formalmente a autoria. Essa área intermediária entre paz e guerra permite calibrar a pressão e explorar divergências entre os aliados.

O Reino Unido ocupa uma posição particularmente sensível porque combina apoio à Ucrânia, capacidade nuclear, presença naval, serviços de inteligência e responsabilidade pela liderança da força multinacional da OTAN na Estônia. A pressão russa sobre Londres, portanto, não está desvinculada da segurança do Báltico. Ela atinge simultaneamente um fornecedor de Kiev e um dos principais garantidores militares do flanco norte da Aliança.

Alemanha amplia contingente, mas enfrenta lacunas estruturais

Enquanto a Rússia procura intimidar Londres, a Alemanha avança em uma recomposição militar de maior alcance. A Bundeswehr chegou a aproximadamente 186,7 mil integrantes em julho de 2026, seu maior contingente em 13 anos. O crescimento anual foi de cerca de 3,7 mil militares, acompanhado pelo aumento das candidaturas e das incorporações.

O dado possui relevância política porque inverte uma tendência de estagnação observada durante boa parte do período posterior à Guerra Fria. Durante décadas, a Alemanha reduziu estruturas, estoques e efetivos, apoiando-se na percepção de que um conflito convencional de grande escala na Europa havia se tornado improvável.

A invasão da Ucrânia encerrou essa premissa. Berlim passou a tratar a Rússia como ameaça estrutural, aumentou investimentos e definiu metas que incluem aproximadamente 260 mil militares da ativa e 200 mil reservistas até meados da próxima década.

A distância entre o contingente atual e o objetivo anunciado, contudo, permanece considerável. A Alemanha ainda precisará incorporar mais de 70 mil militares à força ativa, formar quadros especializados e reduzir problemas relacionados à retenção de pessoal.

O efetivo, isoladamente, também não determina prontidão. Uma força capaz de combater em alta intensidade necessita de munições, veículos disponíveis, defesa antiaérea, comunicações seguras, guerra eletrônica, manutenção, transporte e reservas mobilizáveis. A recuperação quantitativa da Bundeswehr é apenas uma parte de um processo que depende de capacidade industrial e continuidade orçamentária.

O Báltico como teste da credibilidade da OTAN

A Estônia aparece com frequência como possível alvo de uma futura ação russa devido à sua fronteira, ao reduzido espaço estratégico e à presença de uma população russófona, particularmente na região de Narva. Essa hipótese exige, entretanto, diferenciação entre vulnerabilidade e iminência.

A Estônia pertence à OTAN desde 2004. Um ataque convencional contra seu território criaria uma situação qualitativamente distinta da invasão da Ucrânia, que não integra a Aliança. Moscou teria de considerar a possibilidade de enfrentar forças britânicas, alemãs, francesas, polonesas, nórdicas e norte-americanas.

Por essa razão, as ações russas mais prováveis no curto e médio prazo estão concentradas na zona híbrida: violações controladas do espaço aéreo, sabotagem, ataques cibernéticos, manipulação informacional, instrumentalização de tensões sociais, pressão fronteiriça e operações contra infraestrutura crítica.

Os investimentos estonianos em sirenes, abrigos, sistemas de alerta e preparação da população não demonstram necessariamente que uma invasão seja esperada no curto prazo. Eles refletem uma política de resiliência destinada a impedir que um adversário obtenha vantagem por meio da surpresa, do medo e da desorganização institucional.

A lógica é semelhante à adotada por Letônia e Lituânia. Ao preparar a sociedade para permanecer funcional durante uma crise, os governos bálticos procuram retirar da Rússia a expectativa de uma rápida paralisia do Estado.

A presença avançada da OTAN complementa essa preparação. Na Estônia, o Reino Unido lidera o agrupamento multinacional. Na Lituânia, a Alemanha estabeleceu a 45ª Brigada Blindada, sua primeira grande implantação permanente no exterior desde a Segunda Guerra Mundial, com previsão de alcançar cerca de 5 mil militares até 2027.

Essas forças não foram concebidas para derrotar isoladamente uma ofensiva russa de grande escala. Sua função central é garantir que uma agressão envolva imediatamente vários países da OTAN, eliminando a possibilidade de tratar o ataque como fato consumado restrito ao Báltico.

Preparação ou caminho para a escalada?

Sob a perspectiva dos governos europeus, o fortalecimento militar é uma resposta defensiva à invasão da Ucrânia e à recorrência de operações híbridas atribuídas à Rússia. Quanto maior a capacidade de resistência dos países bálticos e mais visível a presença aliada, menor seria o incentivo para Moscou testar militarmente a coesão da OTAN.

A ampliação da Bundeswehr, a brigada alemã na Lituânia e a liderança britânica na Estônia reforçam essa lógica de dissuasão. Ao elevar antecipadamente os custos de uma agressão, os aliados procuram evitar que ela aconteça.

O contraponto é que o aumento da presença militar, a expansão dos ataques em profundidade e a transferência de sistemas de maior alcance também reduzem margens de segurança. Um erro de identificação, uma incursão não autorizada, a queda de um drone em território aliado ou uma sabotagem com vítimas pode produzir pressão política por uma resposta antes que a autoria e a intenção estejam esclarecidas.

A retórica russa sobre o Reino Unido amplia essa incerteza. Ao declarar que Londres pode ser considerado parte da guerra, Moscou cria uma justificativa política para futuras retaliações. Ao mesmo tempo, evita definir claramente quais ações considera suficientes para ultrapassar esse limiar.

Também existe discrepância entre as capacidades anunciadas pela Europa e sua prontidão real. Os 186,7 mil militares alemães representam o maior contingente em mais de uma década, mas ainda estão distantes da força necessária para as ambições estratégicas declaradas. Da mesma forma, o crescimento dos gastos não se converte imediatamente em brigadas prontas, estoques de munição ou sistemas de defesa antiaérea disponíveis.

Do lado ucraniano, os grandes ataques de drones demonstram alcance e capacidade de saturação, mas não comprovam que Kiev possa paralisar de forma duradoura a economia russa. Moscou possui profundidade territorial, capacidade de reparo e meios para adaptar rotas de abastecimento. A campanha contra refinarias pode elevar custos e provocar escassez regional sem produzir, por si só, uma ruptura estratégica.

O risco analítico está nos dois extremos: subestimar a capacidade ucraniana de transferir os custos da guerra ou superestimar os efeitos imediatos de seus ataques. O mesmo vale para a Europa: o rearmamento é real, mas sua consolidação exigirá anos de investimento, recrutamento e produção industrial.

Uma arquitetura europeia orientada para a guerra prolongada

O conjunto dessas transformações indica uma mudança estrutural na segurança europeia. A Ucrânia está desenvolvendo capacidade própria de ataque em profundidade; a Rússia adapta sua defesa territorial e amplia a pressão sobre os fornecedores de Kiev; o Reino Unido mantém o apoio apesar das ameaças; a Alemanha recompõe seu poder militar; e os países bálticos integram defesa civil, mobilização e presença multinacional.

Quem ganha no curto prazo é a indústria de defesa europeia, beneficiada por encomendas de munições, drones, veículos, radares e sistemas antiaéreos. Os países do flanco oriental também obtêm maior atenção política e presença militar aliada.

A Ucrânia ganha liberdade operacional e capacidade de atingir ativos antes considerados relativamente seguros. Ao mesmo tempo, permanece dependente do apoio financeiro, tecnológico e militar externo, especialmente em defesa antiaérea, inteligência e munições.

A Rússia perde parte da segurança de sua retaguarda e precisa distribuir recursos por uma área muito maior. Contudo, mantém superioridade em massa e capacidade de sustentar ataques de maior intensidade contra a Ucrânia.

A Europa enfrenta o custo mais amplo. O rearmamento exige recursos públicos, expansão industrial, mudanças nas políticas de pessoal e aceitação social de um ambiente de insegurança prolongada. A vantagem é a recuperação da capacidade de dissuasão. O risco está em construir uma arquitetura militar mais robusta sem mecanismos igualmente eficazes de comunicação, controle de incidentes e prevenção de escaladas.

Implicações para o médio e o longo prazo

Militarmente, a tendência é de crescimento das operações de longo alcance e dos sistemas não tripulados. Refinarias, instalações militares, depósitos e redes logísticas permanecerão expostos, enquanto ambos os lados investirão em defesa antiaérea, guerra eletrônica, dispersão e estruturas redundantes.

Economicamente, a pressão sobre o setor energético russo pode aumentar custos internos e reduzir a eficiência das exportações, mas dificilmente produzirá colapso isoladamente. Para obter efeito estratégico, a Ucrânia precisará sustentar os ataques, repetir danos e impedir que reparos e adaptações restabeleçam a produção.

Industrialmente, o confronto exige uma escala de fabricação que a Europa ainda está reconstruindo. A produção de drones pode crescer rapidamente, mas mísseis, sistemas antiaéreos, blindados e munições de artilharia dependem de cadeias mais longas, investimentos permanentes e contratos previsíveis.

Diplomaticamente, a tentativa russa de caracterizar o Reino Unido como participante da guerra pode ser estendida a outros apoiadores de Kiev. Quanto maior o alcance das armas fornecidas e mais estreita a cooperação operacional, mais Moscou buscará explorar a ambiguidade entre apoio militar e participação direta.

No Báltico, a ameaça mais provável continuará sendo híbrida, não uma invasão convencional imediata. Entretanto, sabotagens, incidentes aéreos e ataques contra infraestrutura podem ser utilizados para testar a disposição da OTAN de responder de forma coordenada.

A preparação já começou

A guerra da Ucrânia não se transformou formalmente em uma guerra entre Rússia e OTAN, mas já reorganiza forças, orçamentos, doutrinas e percepções de ameaça em toda a Europa. Os ataques contra refinarias e a região de Moscou demonstram que a Rússia não controla mais integralmente a profundidade do conflito. As advertências de Lavrov revelam a tentativa do Kremlin de recuperar essa vantagem pela intimidação dos fornecedores de Kiev.

A expansão da Bundeswehr e a preparação dos Bálticos não constituem prova de uma guerra europeia iminente. Representam, porém, o abandono da expectativa de retorno rápido à estabilidade anterior a 2022. Europa e Rússia passam a estruturar suas decisões para um período no qual dissuasão, operações híbridas, ataques de longo alcance e mobilização industrial coexistirão mesmo sem confronto aberto.

O limiar mais perigoso não será necessariamente uma invasão deliberada da Estônia ou um ataque russo convencional contra o Reino Unido. Poderá surgir de uma sucessão de ações calibradas, retaliações ambíguas e incidentes cuja interpretação política supere a capacidade diplomática de contenção. A guerra ainda está territorialmente concentrada na Ucrânia, mas o sistema europeu de segurança já opera sob a lógica de um confronto de longa duração.

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