EXCLUSIVO – A maior reforma das Forças Armadas desde 1999? Os bastidores da proposta que pode mudar o poder militar no Brasil

Os bastidores da proposta que pode mudar o poder militar no Brasil. O que implicará na reforma atualmente estudada no Ministério da Defesa

Nelson Düring
Editor-Chefe DefesaNet
Julho 2026


Nota DefesaNet

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O Editor


Por décadas, Exército, Marinha e Força Aérea Brasileira foram estruturados para preparar, equipar e empregar seus próprios meios. Esse modelo, consolidado ao longo da história republicana, pode estar diante da maior transformação desde a criação do Ministério da Defesa.

Nos corredores do Ministério da Defesa, circulam informações sobre a discussão de uma proposta que poderá redefinir profundamente a estrutura de comando das Forças Armadas Brasileiras.

Ainda sem caráter oficial, a ideia em estudo busca aproximar o Brasil do modelo adotado por diversas potências militares, no qual as Forças Singulares deixam de exercer o comando operacional direto e passam a concentrar seus esforços no preparo das capacidades militares, enquanto o emprego conjunto fica sob responsabilidade de uma estrutura única e permanente.

Se implementada, a reforma alteraria não apenas organogramas, mas a própria distribuição de poder dentro da Defesa.

O fim de um modelo centenário

Hoje, cada Força mantém praticamente todas as funções sob sua responsabilidade.

A Marinha prepara seus navios e os emprega.

O Exército treina suas brigadas e conduz suas operações.

A Força Aérea forma seus pilotos, mantém suas aeronaves e executa as missões aéreas.

Esse modelo fez sentido durante boa parte do século XX, quando as guerras eram predominantemente conduzidas por cada componente de forma relativamente independente.

Entretanto, a guerra moderna mudou.

Os conflitos na Ucrânia, no Oriente Médio e as operações conduzidas pela OTAN demonstram que nenhuma força combate sozinha. O sucesso depende da integração permanente entre capacidades terrestres, navais, aéreas, espaciais, cibernéticas e de inteligência.

É justamente essa realidade que alimenta o debate sobre uma profunda reorganização institucional.

Preparar não é empregar

O conceito discutido é relativamente simples.

As Forças continuariam responsáveis por tudo aquilo que constitui sua missão institucional permanente:

  • recrutar;
  • formar militares;
  • desenvolver doutrina;
  • treinar tropas;
  • realizar manutenção;
  • administrar organizações militares;
  • garantir a prontidão operacional;
  • desenvolver capacidades futuras.

Por outro lado, quando surgisse a necessidade de emprego militar — seja em operações de defesa, garantia da soberania incluindo operações GLO, missões internacionais ou grandes operações conjuntas — o comando passaria automaticamente para um Estado-Maior Conjunto permanente.

Na prática, as Forças deixariam de “combater” de forma independente para fornecer capacidades militares a um comando operacional conjunto.

É exatamente assim que operam diversos países que alcançaram elevado grau de integração militar.

O nascimento de um verdadeiro comandante operacional

Talvez a mudança mais simbólica seja a criação de um comandante operacional permanente das Forças Armadas.

Hoje, o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas possui importantes atribuições de coordenação, mas o emprego operacional permanece fortemente vinculado às estruturas das Forças Singulares.

A proposta em discussão ampliaria significativamente esse papel.

O comandante operacional seria responsável por planejar campanhas, integrar capacidades e conduzir todas as operações militares conjuntas.

Na prática, deixaria de existir qualquer disputa sobre quem lidera determinada operação.

O comando seria naturalmente conjunto desde o primeiro momento.

Isso reduziria sobreposições, aceleraria decisões e ampliaria a interoperabilidade.

O fim das quatro estrelas nas Forças?

Talvez nenhum ponto desperte tanta atenção quanto a carreira dos oficiais-generais.

Uma das ideias discutidas prevê que o posto máximo dentro das Forças Singulares passe a ser o de oficial-general de três estrelas.

As quatro estrelas deixariam de estar associadas ao comando da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica.

Esse posto seria reservado às funções estratégicas de caráter conjunto, especialmente ao comandante operacional das Forças Armadas.

Mais do que uma alteração hierárquica, trata-se de uma mudança de cultura.

O ápice da carreira militar deixaria de ser comandar uma Força específica para liderar o conjunto do instrumento militar brasileiro.

Naturalmente, essa é uma das propostas que tende a encontrar maior resistência institucional.

Compras centralizadas: eficiência ou concentração de poder?

Outro tema em análise envolve a centralização das aquisições estratégicas.

Hoje, cada Força conduz seus próprios programas de obtenção.

Isso gera processos paralelos, diferentes metodologias e, muitas vezes, pouca coordenação entre projetos semelhantes.

A ideia discutida prevê que Exército, Marinha e Aeronáutica continuem definindo os requisitos operacionais dos equipamentos.

Entretanto, a negociação, contratação, gestão dos programas e aquisição passariam a ser conduzidas diretamente pelo Ministério da Defesa.

Os defensores argumentam que isso aumentaria o poder de negociação do Estado brasileiro, reduziria duplicidades, fortaleceria a Base Industrial de Defesa e permitiria uma visão integrada do planejamento estratégico.

Já os críticos alertam para o risco de burocratização, concentração excessiva de decisões e perda da agilidade proporcionada pelo conhecimento técnico acumulado pelas Forças.

Quem ganha?

Caso a reforma avance, o grande vencedor institucional seria o Ministério da Defesa.

Criado em 1999, o órgão ainda convive com limitações estruturais e depende fortemente das capacidades das próprias Forças para exercer diversas funções.

Ao assumir o comando operacional permanente e coordenar os grandes programas de aquisição, o Ministério deixaria de ser predominantemente um órgão de articulação política para se consolidar como o verdadeiro centro estratégico da Defesa Nacional.

A atual organização do Ministério da Defesa contém o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA), criado em 2010, que é o órgão encarregado de centralizar a coordenação e o planejamento estratégico das Forças Armadas Brasileiras: Marinha, Exército e Aeronáutica

O Estado-Maior Conjunto também seria profundamente fortalecido saindo das funções atuais essencialmente de planejamento para a operação.

Quem perde?

As Forças Singulares tenderiam a perder parte de sua autonomia institucional.

Não deixariam de ser protagonistas da defesa nacional, mas veriam reduzido seu poder decisório sobre operações militares e, eventualmente, sobre grandes programas de aquisição.

Isso não significa perda de importância operacional.

Ao contrário.

Sua missão passaria a ser produzir capacidades militares de excelência, enquanto outro nível de comando decidiria como empregá-las.

É uma lógica semelhante à existente em diversas organizações militares modernas.

O desafio brasileiro

Importar modelos estrangeiros nunca é tarefa simples.

O sucesso dependerá menos do desenho institucional e mais da capacidade do Ministério da Defesa de desenvolver quadros altamente especializados em planejamento estratégico, logística, gestão de programas complexos e operações conjuntas.

Sem essa estrutura, existe o risco de apenas deslocar competências, criando novos níveis burocráticos sem ganhos reais de eficiência.

Por outro lado, se acompanhada de investimentos em pessoal qualificado, sistemas de comando e controle e planejamento integrado, a reforma poderá representar um salto qualitativo na governança da defesa brasileira.

Mais do que uma reforma administrativa

No fundo, a discussão não trata apenas de organogramas.

Trata-se de definir como o Brasil pretende organizar seu instrumento militar nas próximas décadas.

O mundo caminha para operações multidomínio, integração digital, inteligência artificial, guerra cibernética e tomada de decisão em tempo real. Nenhuma dessas capacidades respeita as fronteiras tradicionais entre Marinha, Exército e Força Aérea.

Se o Brasil deseja possuir Forças Armadas preparadas para esse ambiente estratégico, fortalecer a integração talvez deixe de ser uma opção e passe a ser uma necessidade.

O debate apenas começou. Mas, se prosperar, poderá representar a mudança mais profunda na estrutura militar brasileira desde a criação do Ministério da Defesa, redefinindo competências, redistribuindo poder institucional e moldando a forma como o País prepara e emprega sua capacidade militar nas próximas décadas.

A busca da correção das disfunções atuais ou aprofundá-las

Há uma profunda disfunção no atual protocolo das Forças Armadas. Em 1999 os Comandantes perderam o status de Ministros. O que leva a situações protocolares e organizacionais incoerentes. Ministérios cujos integrantes cabem em uma “kombi” (para efeito de linguagem), protocolarmente tem mais ascendência do que os comandates das Forças Singulares, como o do Exército que tem cerca de 200.000 integrantes e um patrimônio sobre sua guarda de bilhões de reais. O mesmo é válido para os comandantes da Marinha e da Força Aérea.

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