O retorno do torpedo: o afundamento da fragata iraniana IRIS Dena

Mais do que um episódio tático, o ataque tem significado histórico: foi o primeiro afundamento de um navio inimigo por torpedo de submarino dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial, encerrando um intervalo operacional de mais de oito décadas.

por Redação DefesaNet

O afundamento da fragata iraniana IRIS Dena por um submarino da Marinha dos Estados Unidos no Oceano Índico, em março de 2026, representa um episódio raro e significativo na história da guerra naval contemporânea.

Em uma era dominada por mísseis de longo alcance, drones e sistemas de vigilância avançados, o uso de um torpedo pesado disparado por um submarino para destruir uma embarcação de superfície remete diretamente às táticas clássicas que marcaram a Segunda Guerra Mundial. O episódio não apenas revela a persistente letalidade da guerra submarina, mas também evidencia a profunda assimetria tecnológica e operacional entre as marinhas envolvidas.

A fragata iraniana integrava a classe Moudge, um projeto desenvolvido pelo Irã com base em adaptações da antiga classe britânica Alvand, adquirida antes da Revolução de 1979. Embora modernizada com sensores e armamentos de fabricação local, a embarcação mantinha limitações estruturais inerentes ao seu projeto original.

Com cerca de 94 metros de comprimento e deslocamento aproximado de 1.500 toneladas, o navio era armado com mísseis antinavio, torpedos leves, um canhão naval e sistemas de defesa aérea de curto alcance. No papel, tratava-se de uma plataforma multiuso destinada a patrulha oceânica, escolta e demonstração de presença naval em águas distantes.

A fragata participava de atividades navais internacionais na região do Índico quando foi detectada por um submarino norte-americano, cuja identidade não foi oficialmente revelada, embora especialistas apontem a possibilidade de uma unidade das classes Virginia ou Los Angeles, ambas operadas pela Marinha dos Estados Unidos e amplamente empregadas em missões de vigilância e ataque.

Torpedo pesado Mk-48 ADCAP

O submarino lançou um torpedo pesado Mk-48 ADCAP, considerado um dos armamentos submarinos mais sofisticados em operação.

O Mk-48 é uma arma concebida para destruir navios de guerra de grande porte e submarinos. Com peso aproximado de 1,7 tonelada, velocidade superior a 55 nós e alcance que pode ultrapassar 50 quilômetros, o torpedo utiliza guiagem por fio combinada com sensores sonar ativos e passivos.

Seu método de destruição é particularmente eficaz: em vez de atingir diretamente o casco, o torpedo detona sob a quilha do navio, gerando uma gigantesca bolha de gás que rompe a estrutura longitudinal da embarcação. Esse tipo de explosão provoca a quebra do casco e frequentemente leva à perda imediata da unidade atingida. A fragata iraniana não possuía meios suficientes de defesa antissubmarino capazes de detectar ou neutralizar o ataque, o que explica a rapidez com que foi destruída.

O episódio chama atenção por representar um retorno de uma forma de combate que raramente se materializou em conflitos recentes. Embora submarinos continuem sendo uma das plataformas mais estratégicas das marinhas modernas, seu emprego ofensivo direto contra navios de guerra de superfície tem sido extremamente incomum desde o final da Segunda Guerra Mundial. Durante aquele conflito, milhares de embarcações foram destruídas por submarinos, particularmente no Atlântico e no Pacífico. Contudo, após 1945, a função desses meios evoluiu para missões de dissuasão nuclear, inteligência e vigilância.

Afundamento do cruzador argentino ARA General Belgrano

O precedente histórico mais conhecido de afundamento de um grande navio de guerra por submarino na era moderna ocorreu em 1982, durante a Guerra das Falklands (Malvinas). Naquele conflito, o submarino nuclear britânico HMS Conqueror afundou o cruzador argentino ARA General Belgrano com torpedos convencionais Mk-8.

O cruzador, que deslocava mais de 12 mil toneladas e transportava mais de mil tripulantes, foi atingido por dois torpedos e afundou rapidamente, resultando na morte de 323 marinheiros argentinos. O episódio teve enorme impacto estratégico e psicológico no conflito, levando a Marinha argentina a retirar grande parte de sua frota de superfície das operações.

Comparado ao caso do General Belgrano, o afundamento da fragata iraniana possui dimensões menores em termos de tonelagem e perdas humanas, mas seu significado militar permanece relevante. Ambos os episódios demonstram uma característica fundamental da guerra naval: navios de superfície, independentemente de seu tamanho ou armamento, permanecem altamente vulneráveis a submarinos quando não dispõem de cobertura eficaz de guerra antissubmarino. A dificuldade de detectar plataformas submersas continua sendo um dos maiores desafios da estratégia marítima.

Caso iraniano

No caso iraniano, a vulnerabilidade foi agravada por fatores estruturais da própria marinha do país. A estratégia naval do Irã historicamente concentra-se na defesa do Golfo Pérsico, utilizando embarcações rápidas, minas marítimas e submarinos costeiros para negar o acesso de forças adversárias à região.

Fora desse ambiente geográfico restrito, porém, a marinha iraniana possui capacidade limitada de operar em águas profundas com escoltas antissubmarino eficazes. A fragata Dena, ao operar em mar aberto no Oceano Índico, encontrava-se em um ambiente no qual os Estados Unidos mantêm uma presença submarina constante e tecnologicamente superior.

Sob a perspectiva estratégica, o episódio reafirma o papel central da guerra submarina no equilíbrio de poder naval contemporâneo. Submarinos continuam sendo plataformas capazes de operar com elevado grau de furtividade, coletar inteligência, acompanhar frotas inimigas e, quando necessário, realizar ataques devastadores com pouca ou nenhuma advertência. Essa capacidade transforma submarinos em instrumentos ideais para operações de dissuasão e controle marítimo.

O caso também ilustra o contraste entre diferentes modelos de força naval. Enquanto potências como os Estados Unidos investem em submarinos nucleares capazes de permanecer meses submersos e operar em qualquer oceano, muitas marinhas regionais dependem de navios de superfície ou submarinos convencionais voltados para defesa costeira. Essa diferença de alcance, autonomia e capacidade de detecção cria um desequilíbrio significativo em operações de mar aberto.

A modernização da força submarina brasileira

Nesse contexto, a modernização da força submarina brasileira ganha relevância estratégica. O programa PROSUB da Marinha do Brasil prevê a construção de quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo, derivados do projeto francês Scorpène, além do desenvolvimento do primeiro submarino nuclear brasileiro, o SN-10 Álvaro Alberto. Os submarinos da classe Riachuelo deslocam cerca de duas mil toneladas, utilizam propulsão diesel-elétrica e são equipados com torpedos pesados e mísseis antinavio, sendo projetados para operações de negação marítima e defesa das extensas áreas do Atlântico Sul.

Já o futuro submarino nuclear brasileiro representará um salto qualitativo na capacidade naval do país. Diferentemente dos submarinos convencionais, que precisam emergir periodicamente para recarregar baterias, um submarino nuclear pode permanecer submerso por longos períodos, limitado essencialmente pela resistência da tripulação e pela quantidade de suprimentos a bordo. Essa característica permite maior velocidade sustentada, maior autonomia e capacidade de patrulha em vastas áreas oceânicas.

Embora o Brasil não busque projeção de poder global semelhante à das grandes potências, a incorporação de submarinos modernos reforça a estratégia de defesa do chamado “Amazônia Azul”, área marítima que abriga importantes rotas comerciais, recursos naturais e campos de exploração energética. Nesse cenário, submarinos constituem um elemento essencial de dissuasão, pois sua simples presença potencial já impõe riscos significativos a qualquer força adversária.

O afundamento da fragata iraniana no Oceano Índico, portanto, transcende o episódio isolado de um navio destruído. Ele reafirma uma realidade constante da guerra naval: sob a superfície do mar opera uma das armas mais decisivas da estratégia militar moderna. Mesmo em um ambiente dominado por satélites, sensores e sistemas de vigilância avançados, o submarino continua sendo um predador silencioso capaz de alterar o equilíbrio de poder marítimo em questão de minutos.

Nota:
A fragata iraniana IRIS Dena (75) havia visitado o Brasil em fevereiro de 2023, quando atracou no porto do Rio de Janeiro acompanhada do navio-base IRIS Makran durante uma viagem de circunavegação conduzida pela Marinha do Irã. A escala ocorreu após debates diplomáticos e pressões internacionais, especialmente por parte dos Estados Unidos. Na ocasião, a presença das embarcações iranianas foi apresentada por Teerã como demonstração de capacidade de projeção naval em águas distantes e de fortalecimento de laços diplomáticos com países da América do Sul.

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter