Entre a erosão da profundidade estratégica paquistanesa e a afirmação soberana do regime talibã, a escalada na Linha Durand expõe a fragilidade estrutural da segurança sul-asiática e reabre a disputa pelo equilíbrio de poder na Ásia Central.
Por Redação Defesanet
A escalada militar entre o Paquistão e o Afeganistão, governado pelo Taliban, não constitui um episódio isolado de violência fronteiriça, mas sim a manifestação mais recente de uma tensão estrutural que remonta à própria formação dos dois Estados.
O que se observa atualmente é a convergência entre três vetores estratégicos: a erosão da doutrina paquistanesa de “profundidade estratégica”, a consolidação ambígua do poder talibã em Cabul e o fortalecimento e a reconsolidação operacional de atores armados não-estatais como vetores indiretos de pressão geopolítica.
Desde 2021, quando o Talibã reassumiu o controle do Afeganistão, Islamabad acreditou que poderia restaurar um arranjo funcional baseado em afinidades históricas e interdependência de segurança. O cálculo era pragmático: um governo ideologicamente próximo, dependente de canais comerciais e logísticos paquistaneses, tenderia a cooperar no controle de grupos insurgentes hostis ao Paquistão, particularmente o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP).
No entanto, a realidade revelou-se mais complexa. O TTP, compartilhando vínculos tribais e ideológicos com facções do Talibã afegão, encontrou no território afegão um espaço permissivo para reorganização. A partir daí, a fronteira definida pela Linha Durand — nunca plenamente reconhecida por Cabul — voltou a ser palco de confrontos e acusações mútuas.
O recurso de Islamabad a ataques aéreos diretos contra alvos no interior do Afeganistão representa uma mudança qualitativa. Historicamente, o Paquistão operava por meio de instrumentos indiretos, privilegiando influência política, apoio seletivo e operações encobertas.
Guerra aberta
A formalização de uma retórica de “guerra aberta” sinaliza que o establishment militar paquistanês passou a interpretar o ambiente afegão não mais como extensão de sua estratégia defensiva, mas como ameaça autônoma. Trata-se de um ponto de inflexão doutrinário: a lógica da profundidade estratégica cede lugar à lógica da contenção ativa.
Para o regime talibã, a situação também é paradoxal. Embora detenha controle territorial e aparato coercitivo, sua legitimidade internacional permanece restrita, e sua economia depende de fluxos externos e de alguma estabilidade regional. Um conflito prolongado com o Paquistão comprometeria rotas comerciais essenciais e agravaria a fragilidade interna.
Ao mesmo tempo, o Talibã não pode se permitir parecer submisso diante de um vizinho historicamente intervencionista. Assim, a resposta afegã às ofensivas paquistanesas combina retaliação simbólica e mobilização retórica, buscando preservar credibilidade interna sem precipitar um confronto convencional de larga escala.
O elemento mais sensível da equação permanece o papel dos atores não-estatais. A atuação do TTP e de células do Islamic State – Khorasan Province cria um ciclo de retroalimentação estratégica: quanto maior a pressão paquistanesa sobre Cabul, maior o incentivo para que facções radicais explorem a instabilidade; quanto mais ataques insurgentes ocorrem em solo paquistanês, maior a propensão de Islamabad a ampliar operações transfronteiriças. O resultado é um ambiente de “instabilidade circular”, no qual nenhuma das partes controla plenamente a escalada, ainda que ambas a alimentem.
Plano regional
No plano regional, o conflito transcende a lógica bilateral. A China observa com cautela, dado que a estabilidade do Paquistão é pilar central do Corredor Econômico China–Paquistão. Uma deterioração prolongada na fronteira noroeste pode comprometer infraestrutura crítica e elevar riscos de infiltração extremista em Xinjiang¹. Pequim tende, portanto, a pressionar por contenção diplomática, ao mesmo tempo em que reforça discretamente a cooperação de segurança com Islamabad.
Para a Índia, a situação apresenta ambiguidade estratégica. O desgaste paquistanês em sua fronteira ocidental pode aliviar pressão no eixo oriental, mas uma desestabilização profunda do Afeganistão também cria incertezas. Nova Delhi tem buscado ampliar canais diplomáticos com Cabul desde 2021, explorando brechas na tradicional influência paquistanesa. Ainda assim, qualquer escalada significativa poderia alterar o equilíbrio regional de maneira imprevisível.

Irã e Rússia
O Irã e a Rússia, por sua vez, veem na crise um risco de transbordamento para a Ásia Central. Ambos defendem estabilidade mínima que impeça o fortalecimento de grupos jihadistas transnacionais. Um Afeganistão novamente imerso em conflito aberto poderia reativar dinâmicas de insurgência que afetariam fronteiras mais amplas.
A projeção prospectiva sugere três trajetórias possíveis. A primeira é a consolidação de um conflito intermitente de baixa intensidade, caracterizado por ataques pontuais, retaliações limitadas e ciclos diplomáticos de curto alcance — um modelo de “conflito administrado”.
A segunda é a cristalização de uma fronteira altamente militarizada, com ruptura quase completa de cooperação política, gerando um estado de hostilidade permanente que comprometeria desenvolvimento e integração regional. A terceira, menos provável, mas estrategicamente relevante, é a construção gradual de um mecanismo de segurança bilateral mediado por atores externos, no qual Cabul assumiria compromissos verificáveis de contenção de grupos insurgentes em troca de reconhecimento e incentivos econômicos.
A probabilidade maior, no horizonte imediato, inclina-se à primeira hipótese. Nem o Paquistão dispõe de margem econômica para sustentar guerra convencional prolongada, nem o Talibã pode suportar isolamento regional adicional. Contudo, a ausência de confiança estrutural e a persistência de atores armados autônomos tornam a estabilização duradoura difícil.

A fronteira afegão-paquistanesa
A fronteira afegão-paquistanesa sempre foi mais que uma linha geográfica; ela constitui um espaço político híbrido, onde tribos, insurgências e interesses estatais se sobrepõem. O que está em curso não é apenas um confronto militar, mas a redefinição do papel do Afeganistão no sistema regional pós-2021.
Se o Paquistão falhar em conter a insurgência sem aprofundar a instabilidade, poderá enfrentar erosão interna de segurança. Se o Talibã não conseguir equilibrar soberania e pragmatismo, corre o risco de transformar-se novamente em epicentro de competição regional.
A história da região demonstra que crises na Linha Durand raramente permanecem locais. O desfecho desta escalada dependerá menos da retórica oficial e mais da capacidade de ambos os regimes em controlar os atores armados que orbitam sua autoridade.
Em última instância, o conflito atual representa um teste para a viabilidade de um Afeganistão governado pelo Talibã como ator estatal responsável e para a capacidade do Paquistão de adaptar sua estratégia de segurança a um ambiente que já não responde às fórmulas do passado.
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Nota da redação:
¹Xinjiang é uma região autônoma no oeste da China, estratégica tanto por sua posição fronteiriça com a Ásia Central quanto por seu papel central na Iniciativa Cinturão e Rota. A região abriga significativa população uigur e é tratada por Pequim como área sensível do ponto de vista de segurança interna. Qualquer expansão de grupos jihadistas na fronteira Afeganistão–Paquistão é percebida pela China como potencial risco de transbordamento para Xinjiang, elevando sua preocupação com a estabilidade regional.




















