Da estabilização interna ao confronto sistêmico com o Ocidente
Por Redação Defesanet
A década de 1990 foi, para a Rússia, um período de retração estratégica e desorganização interna. O colapso da União Soviética não significou apenas a perda de território e influência global; implicou desestruturação econômica, fragmentação institucional, declínio militar e redução drástica do prestígio internacional. A expansão da OTAN para o Leste Europeu, as crises financeiras internas e a perda de controle efetivo sobre partes do próprio território alimentaram a percepção de que Moscou havia deixado de ser protagonista para tornar-se objeto das dinâmicas impostas pelo Ocidente. A Rússia do pós-Guerra Fria encontrava-se em posição defensiva, com capacidade limitada de projeção de poder.
É nesse contexto que, a partir de 1999, emerge a liderança de Vladimir Putin. Desde então, Putin não conduziu apenas operações militares pontuais — ele estruturou uma sequência coerente de ações destinadas a reconstruir a capacidade estatal russa, restaurar sua autonomia estratégica e reposicioná-la como polo de poder no sistema internacional. As guerras travadas sob sua liderança devem ser compreendidas dentro dessa lógica de recuperação gradual de status e influência, iniciada em um momento em que a Rússia se encontrava claramente em baixa no cenário global.
Abaixo, uma análise aprofundada de cada conflito sob três dimensões:
(1) objetivo estratégico, (2) transformação militar, (3) impacto geopolítico sistêmico.
Segunda Guerra da Chechênia (1999–2009)

A refundação do Estado russo pela força
(1) Objetivo Estratégico
A Chechênia não era apenas uma insurgência separatista. Era o símbolo do colapso da autoridade estatal pós-soviética. Putin compreendeu que a sobrevivência política do Kremlin dependia da restauração da capacidade coercitiva.
A campanha foi conduzida como:
- Operação de contra-insurgência brutal.
- Demonstração de intolerância à fragmentação territorial.
- Mensagem interna às demais repúblicas federativas.
(2) Transformação Militar
A guerra revelou deficiências estruturais herdadas da URSS:
- Baixa profissionalização.
- Logística precária.
- Coordenação limitada entre forças.
Como consequência:
- Início das reformas militares dos anos 2000.
- Modernização progressiva do aparato de segurança.
- Consolidação do FSB e estruturas paralelas.
(3) Impacto Geopolítico
- Sinal claro de que Moscou priorizaria estabilidade interna acima de pressões externas.
- Redução do risco de efeito dominó separatista.
- Reforço da narrativa soberanista.
Conclusão estratégica: A Chechênia foi o laboratório do “modelo Putin”: centralização, repressão e reconstrução do poder estatal.
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Guerra da Geórgia (2008)

O teste da linha vermelha euro-atlântica
(1) Objetivo Estratégico
Impedir a expansão da OTAN no Cáucaso. A possível adesão da Geórgia à Aliança era vista como ameaça direta ao perímetro estratégico russo.
A resposta foi:
- Rápida.
- Convencional.
- Limitada territorialmente.
(2) Transformação Militar
A guerra revelou falhas operacionais:
- Comunicação deficiente.
- Coordenação aérea limitada.
- Estrutura ainda excessivamente soviética.
Consequência direta:
- Reforma militar de 2008–2012.
- Criação de brigadas mais móveis.
- Investimento em guerra eletrônica e sistemas C4ISR.
(3) Impacto Geopolítico
- Estabelecimento de zonas congeladas pró-Rússia.
- Primeira demonstração de força fora do território russo.
- Teste da reação ocidental — que foi limitada.
Conclusão estratégica: Moscou percebeu que o custo diplomático era administrável.
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Crimeia e Donbass (2014–2022)

A consolidação da guerra híbrida
(1) Objetivo Estratégico
- Garantir controle de Sebastopol (base naval do Mar Negro).
- Impedir consolidação pró-OTAN da Ucrânia.
- Manter influência estrutural sobre Kiev.
(2) Inovação Operacional
A Crimeia foi uma operação exemplar de:
- Forças especiais sem identificação.
- Guerra informacional.
- Pressão psicológica.
- Uso de referendo como instrumento político.
No Donbass:
- Guerra por procuração.
- Negabilidade plausível.
- Uso intensivo de artilharia e sistemas antiaéreos.
(3) Impacto Geopolítico
- Rompimento definitivo com o modelo de cooperação Rússia-UE.
- Início de regime robusto de sanções.
- Militarização progressiva do leste europeu.
Conclusão estratégica: A Rússia mostrou que poderia alterar fronteiras usando ambiguidade estratégica.
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Intervenção na Síria (2015–presente)

Projeção expedicionária e retorno ao Mediterrâneo
(1) Objetivo Estratégico
- Manter aliado histórico.
- Garantir acesso permanente ao Mediterrâneo.
- Demonstrar capacidade de projeção global.
(2) Teste de Armamentos
A Síria funcionou como campo de validação:
- Mísseis Kalibr.
- Aviação modernizada.
- Sistemas S-400.
- Coordenação integrada ar-terra.
(3) Impacto Geopolítico
- Reposicionamento russo no Oriente Médio.
- Aumento do prestígio junto a regimes autoritários.
- Capacidade de negociar com Turquia, Irã e Israel simultaneamente.
Conclusão estratégica: A Rússia voltou a operar como potência global expedicionária.
Nota: A Rússia se retirou da Síria?
Não houve uma retirada total da Rússia da Síria. O que ocorreu foram reduções parciais e reposicionamentos de forças, em diferentes momentos desde 2016. O conflito sírio permanece ativo, e a presença russa continua — embora com ajustes operacionais relevantes, principalmente após 2022.
Mais preciso afirmar: a intervenção evoluiu de operação de combate intensivo para presença estratégica consolidada, com redução de intensidade após 2022.
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Invasão da Ucrânia (2022–presente)¹

A ruptura estrutural da ordem europeia
(1) Objetivo Estratégico Inicial
- Forçar neutralidade ucraniana.
- Derrubar governo de Kiev.
- Reconfigurar arquitetura de segurança europeia.
(2) Realidade Operacional
Falhas iniciais:
- Subestimação da resistência.
- Logística vulnerável.
- Planejamento excessivamente otimista.
Evolução:
- Guerra de atrito.
- Mobilização parcial.
- Economia de guerra.
- Integração industrial-militar acelerada.
(3) Impacto Geopolítico Sistêmico
- Reativação estratégica da OTAN.
- Expansão para Finlândia e Suécia.
- Desacoplamento energético Rússia–Europa.
- Consolidação eixo Rússia–China.
- Militarização estrutural do continente europeu.
Conclusão estratégica: O conflito transformou-se em guerra por procuração entre Rússia e Ocidente ampliado.
Síntese Analítica – A Progressão Estratégica das Guerras sob Putin

A sucessão de conflitos envolvendo Vladimir Putin desde 1999 não pode ser compreendida como respostas isoladas a crises circunstanciais. Ao contrário, ela revela uma progressão coerente de restauração de poder estatal e reposicionamento geopolítico. Cada guerra cumpriu uma função específica dentro de um projeto mais amplo de reconstrução da Rússia como polo estratégico autônomo.
O primeiro movimento foi interno. A Segunda Guerra da Chechênia não foi apenas uma campanha contra o separatismo; foi um ato fundacional. A Rússia dos anos 1990 enfrentava fragmentação federativa, enfraquecimento militar e erosão da autoridade central.
Ao esmagar a insurgência chechena e reafirmar o controle territorial, o Kremlin restabeleceu o monopólio da força e consolidou o chamado “Estado vertical”. Essa etapa foi crucial: sem estabilidade doméstica e sem aparato coercitivo reorganizado, qualquer ambição externa seria estruturalmente inviável. A Chechênia, portanto, não foi apenas uma guerra regional — foi a refundação do poder político russo.
Uma vez consolidado o controle interno, a prioridade deslocou-se para o entorno estratégico. A guerra contra a Geórgia, em 2008, representou o primeiro emprego deliberado da força para impedir a expansão euro-atlântica no espaço pós-soviético.
O conflito estabeleceu um precedente: Moscou demonstrou que estava disposta a intervir militarmente para preservar sua zona de influência. O impacto não foi apenas regional. A resposta limitada do Ocidente foi interpretada como sinal de que o custo político de ações firmes seria administrável. A partir desse momento, a Rússia deixou de agir apenas defensivamente e passou a estabelecer linhas vermelhas por meio de força convencional.
A etapa seguinte elevou o nível da ambição estratégica. A anexação da Crimeia, em 2014, marcou a ruptura do consenso europeu pós-1945 sobre a inviolabilidade das fronteiras. Ao incorporar formalmente território ucraniano, Moscou não apenas protegeu seus interesses navais no Mar Negro, mas também introduziu uma lógica revisionista aberta.
A operação combinou elementos militares, informacionais e políticos — um modelo híbrido que minimizou resistência inicial e dificultou resposta imediata. Ao mesmo tempo, a guerra no Donbass manteve a Ucrânia em estado de instabilidade permanente. Essa fase não se limitou à contenção da OTAN; tratou-se de reconfigurar fatos consumados no mapa estratégico europeu.
A intervenção na Síria representou outra inflexão qualitativa. Pela primeira vez desde o fim da URSS, a Rússia projetava poder de maneira sustentada fora de seu espaço histórico imediato. A campanha aérea iniciada em 2015 garantiu a sobrevivência do regime sírio e consolidou presença militar permanente no Mediterrâneo Oriental.
Ainda que a intensidade operacional tenha diminuído após 2017 — e sofrido reconfiguração adicional com a guerra da Ucrânia — a presença russa jamais foi abandonada. Bases como Tartus e Khmeimim permanecem ativas, assegurando profundidade estratégica extrarregional. A Síria sinalizou que Moscou não buscava apenas estabilidade periférica, mas retorno ao estatuto de ator global.

A invasão em larga escala da Ucrânia em 2022 encerra essa progressão ao elevar o confronto ao plano sistêmico. Diferentemente de 2014, o objetivo inicial indicava tentativa de redefinir integralmente a posição estratégica da Ucrânia e, por extensão, a arquitetura de segurança europeia¹.
O resultado foi a reativação estratégica da OTAN, a ampliação da aliança e a consolidação de uma polarização mais ampla entre Rússia e Ocidente. O conflito deixou de ser regional para tornar-se estruturante do equilíbrio internacional contemporâneo.
Ao observar essa sequência, percebe-se uma transição clara: da consolidação interna à contenção regional; da revisão territorial à contestação da ordem internacional. Não há descontinuidade doutrinária entre esses episódios. Cada conflito ampliou o escopo do anterior, expandindo o raio de ambição estratégica russa.
A Rússia dos anos 1990 era predominantemente reativa, absorvendo os efeitos do colapso soviético e da expansão ocidental. Sob Putin, transforma-se gradualmente em potência revisionista, disposta a alterar equilíbrios estabelecidos mesmo sob custos econômicos e diplomáticos elevados. O uso da força deixa de ser instrumento defensivo episódico e passa a compor estratégia cumulativa de reposicionamento.
A trajetória das guerras sob Putin, portanto, revela mais do que expansionismo pontual. Ela indica um projeto de restauração de autonomia estratégica e de reconstrução de status no sistema internacional — um processo que culmina, até o momento, no confronto prolongado na Ucrânia.
A questão central não é apenas o desfecho desse conflito específico, mas se a dinâmica revisionista inaugurada ao longo dessas etapas redefinirá de maneira duradoura as regras de segurança no século XXI.
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¹Nota da redação: O que deu errado na invasão da Ucrânia e como Moscou pretende reverter o impasse

A invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022 por decisão de Vladimir Putin, apresentou falhas estruturais significativas em sua fase inicial. A campanha parece ter sido planejada como operação rápida de decapitação política, com expectativa de colapso do governo em Kiev em poucos dias. Essa premissa revelou-se equivocada por quatro fatores centrais: subestimação da resistência ucraniana, superestimação da prontidão operacional russa, falhas logísticas graves nas primeiras semanas e rápida mobilização de apoio militar ocidental à Ucrânia.
A tentativa de avanço simultâneo em múltiplos eixos — norte (Kiev), leste (Donbass) e sul (Kherson–Mariupol) — diluiu capacidade de sustentação. A ausência de superioridade aérea plena e as dificuldades de coordenação entre unidades expuseram fragilidades que contrastavam com a imagem de modernização militar construída na década anterior. A guerra transformou-se rapidamente de operação manobrista para conflito de atrito prolongado.
Diante do impasse no front, a estratégia russa evoluiu para uma lógica distinta da vitória relâmpago. Moscou passou a apostar em três vetores principais:
- Guerra de desgaste – Ampliação da mobilização humana, integração da indústria à economia de guerra e aposta na superioridade quantitativa em artilharia e produção de munição.
- Resiliência econômica – Reorientação comercial para Ásia e Sul Global, amortecendo parcialmente o impacto das sanções.
- Fadiga política ocidental – Estratégia temporal baseada na premissa de que a coesão entre aliados da OTAN pode enfraquecer com o prolongamento do conflito.
Nesse contexto, o fator político norte-americano tornou-se variável estratégica relevante. Mudanças de orientação em Washington — especialmente sob eventual liderança de figuras como Donald Trump — são frequentemente debatidas no campo analítico como possíveis elementos de alteração no nível de apoio dos EUA à Ucrânia. Importante ressaltar que alegações de vínculos diretos ou coordenação entre Trump e Moscou permanecem objeto de controvérsia política e não constituem consenso factual comprovado. O que se pode afirmar com segurança é que a percepção, em Moscou, de possível redução do engajamento norte-americano influencia o cálculo estratégico russo de prolongamento do conflito.
Assim, a estratégia atual do Kremlin não se baseia necessariamente em vitória decisiva imediata, mas em erosão gradual da capacidade ucraniana e da coesão ocidental, apostando que o tempo opere a seu favor. O conflito, nesse sentido, transformou-se menos em batalha territorial pontual e mais em disputa de sustentabilidade política, industrial e estratégica de longo prazo.
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