Guerra na Ucrânia entra no 4º ano com escalada aérea, ganhos táticos e pressão estratégica ampliada

Por Redação – Análise Estratégica

Às vésperas do quarto aniversário da invasão russa iniciada em fevereiro de 2022, o conflito na Ucrânia apresenta uma dinâmica operacional marcada por três vetores simultâneos: intensificação de ataques estratégicos russos, ações ucranianas de projeção de poder em profundidade e ganhos territoriais táticos que reconfiguram, ainda que parcialmente, o equilíbrio no campo de batalha.

A sequência recente dos acontecimentos revela não apenas movimentos militares, mas também uma disputa narrativa e diplomática que acompanha cada avanço ou revés.

Intensificação dos bombardeios russos – Pressão simbólica e operacional

No período que antecede o aniversário da invasão, Moscou ampliou o emprego de mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos táticos e drones de longo alcance contra centros urbanos e infraestrutura crítica ucraniana.

Avaliação Estratégica

  • Objetivo militar: degradar sistemas energéticos, centros logísticos e infraestrutura de comando e controle (C2).
  • Objetivo psicológico: reforçar a percepção de resiliência russa e manter pressão sobre a população civil.
  • Objetivo político: influenciar o debate no Ocidente sobre continuidade do apoio militar a Kiev.

Historicamente, datas simbólicas têm sido utilizadas pelo Kremlin para demonstrar capacidade de escalada controlada. O padrão observado indica guerra de desgaste prolongada, sem intenção imediata de ruptura decisiva, mas com foco na erosão progressiva da capacidade ucraniana.

Guerra na Ucrânia entra no 4º ano com escalada aérea, ganhos táticos e pressão estratégica ampliada

Ganhos territoriais ucranianos – Reversão tática localizada

Em paralelo à ofensiva aérea russa, autoridades europeias, incluindo declarações do chanceler alemão, reconheceram avanços territoriais ucranianos considerados “surpreendentes” no mês de fevereiro.

Esses ganhos ocorreram em setores específicos da linha de contato, possivelmente explorando vulnerabilidades russas decorrentes de:

  • Rotação de tropas;
  • Deficiências logísticas;
  • Exposição a ataques de artilharia de precisão e drones FPV;
  • Emprego mais eficiente de inteligência fornecida pelo Ocidente.

Impacto Operacional

Embora territorialmente limitados, esses avanços possuem valor estratégico relevante:

  1. Reforçam a narrativa de capacidade ofensiva ucraniana.
  2. Melhoram posições defensivas antes de possíveis negociações.
  3. Sustentam o apoio político-militar europeu.

Contudo, não alteram substancialmente o quadro estratégico macro, que permanece caracterizado por linhas defensivas fortificadas e alto custo humano em ambos os lados.

Ataque ucraniano em profundidade – Aeródromo na região de Oryol

O evento mais significativo na sequência cronológica recente foi a alegação ucraniana de destruição de helicópteros russos Mi-8 e Ka-52 em um aeródromo na região de Oryol, dentro do território da Federação Russa.

Caso confirmada, a ação representa:

  • Ampliação da capacidade ucraniana de ataque em profundidade estratégica;
  • Vulnerabilização de ativos de aviação de asas rotativas;
  • Demonstração de falhas na defesa aérea russa em áreas fora da linha direta de combate.

Relevância Militar

O helicóptero de ataque Ka-52 é um dos principais vetores de apoio aéreo aproximado (CAS) da Rússia. Sua perda impacta:

  • Operações anti-blindados;
  • Supressão de posições ucranianas;
  • Flexibilidade tática em frentes móveis.

A estratégia ucraniana de atingir aeródromos, depósitos de combustível e centros logísticos sugere uma doutrina de guerra assimétrica ampliada, buscando compensar a inferioridade numérica convencional por meio de ataques de precisão e longo alcance.

Visão Integrada do Momento Atual

A guerra entra em seu quarto ano sob três realidades operacionais coexistentes:

1. Conflito de desgaste prolongado

Linhas de frente relativamente estabilizadas, com avanços táticos limitados e alto consumo de recursos humanos e materiais.

2. Escalada aérea recíproca

Ambos os lados ampliam ataques de longo alcance — Rússia com mísseis estratégicos; Ucrânia com drones e sabotagem em profundidade.

3. Dimensão política internacional

O conflito passa a depender cada vez mais da sustentabilidade do apoio ocidental, enquanto Moscou aposta na fadiga estratégica europeia.

Perspectiva Estratégica

Não há indícios de resolução rápida. O cenário aponta para:

  • Continuidade da guerra de atrito;
  • Intensificação de ataques contra infraestrutura estratégica;
  • Eventual reconfiguração da linha de frente apenas mediante ruptura logística ou colapso operacional de um dos lados.

A Ucrânia demonstra capacidade de adaptação tecnológica e ofensiva em profundidade. A Rússia mantém superioridade quantitativa e poder de fogo estratégico.

O conflito permanece como o maior embate militar convencional na Europa desde 1945, com implicações diretas sobre arquitetura de segurança continental, dissuasão nuclear e equilíbrio geopolítico global.

Guerra na Ucrânia – Prospectiva Operacional (Próximos 6 Meses)

Variáveis Críticas de Monitoramento

Antes de projetar cenários, é necessário identificar os fatores determinantes:

  1. Sustentabilidade logística russa (munição de artilharia, drones Shahed, mísseis de cruzeiro).
  2. Continuidade do apoio ocidental à Ucrânia (munição 155 mm, sistemas de defesa aérea, ATACMS/Storm Shadow).
  3. Capacidade ucraniana de ataque em profundidade (drones de longo alcance e sabotagem).
  4. Estabilidade política interna na Rússia e na UE.
  5. Clima operacional da primavera/verão europeu (mobilidade terrestre aumenta após o período de lama).

Com base nessas variáveis, estruturam-se três cenários principais.

CENÁRIO 1 – Estagnação Prolongada (Mais Provável)

Probabilidade estimada: 45–50%

Características

  • Linha de frente permanece relativamente estável.
  • Avanços territoriais limitados a poucos quilômetros.
  • Intensificação de ataques aéreos e de drones contra infraestrutura.
  • Alto consumo de munição e desgaste humano contínuo.

Dinâmica Militar

  • Rússia mantém pressão no eixo Donetsk-Luhansk.
  • Ucrânia prioriza defesa em profundidade e ataques logísticos.
  • Guerra assume caráter cada vez mais tecnológico (drones FPV, guerra eletrônica, contra-bateria).

Indicadores de Confirmação

  • Nenhuma mobilização russa em larga escala.
  • Manutenção do atual nível de ajuda militar ocidental.
  • Ausência de ruptura operacional significativa.

Avaliação

Esse cenário consolida a guerra como conflito de atrição industrial. O fator decisivo passa a ser capacidade produtiva e reposição de perdas, não manobras decisivas.

CENÁRIO 2 – Escalada Operacional (Ofensiva Ampliada)

Probabilidade estimada: 30–35%

Pode ocorrer em duas direções:

2A – Escalada Russa

Vetores possíveis:

  • Nova mobilização parcial.
  • Ataques massivos contra infraestrutura energética.
  • Ampliação da ofensiva terrestre antes do verão.

Objetivo estratégico:

Forçar colapso logístico ucraniano antes de qualquer negociação.

Riscos:

  • Maior envolvimento indireto da OTAN.
  • Transferência de armamentos mais avançados para Kiev.

2B – Escalada Ucraniana

Vetores possíveis:

  • Intensificação de ataques em território russo.
  • Tentativa de ruptura localizada em Zaporizhzhia ou no sul.
  • Ataques mais frequentes contra aeródromos e bases logísticas.

Objetivo estratégico:

Criar fato consumado territorial antes do inverno 2026.

Riscos:

  • Retaliação russa ampliada.
  • Escalada assimétrica (cibernética, sabotagem externa).

Avaliação Geral do Cenário 2

A escalada não significa vitória decisiva imediata, mas pode gerar:

  • Mudança na percepção internacional.
  • Aumento do custo político interno para um dos lados.
  • Reconfiguração da linha de frente.

CENÁRIO 3 – Abertura para Negociação (Menos Provável no Curto Prazo)

Probabilidade estimada: 15–20%

Condições Necessárias

  • Fadiga estratégica europeia.
  • Pressão econômica interna na Rússia.
  • Mudança na política externa dos EUA.
  • Estagnação militar sem perspectiva de avanço relevante.

Possível Formato

  • Cessar-fogo temporário.
  • Congelamento da linha de contato.
  • Negociação indireta mediada por terceiros (Turquia, China ou ONU).

Obstáculos

  • Ucrânia rejeita concessão territorial formal.
  • Rússia exige reconhecimento de anexações.
  • Desconfiança mútua elevada.

Avaliação

No horizonte de seis meses, uma negociação plena é improvável. O mais factível seria um cessar-fogo tático e temporário, não um acordo de paz definitivo.

Fatores que Podem Alterar Radicalmente o Cenário

  1. Colapso logístico significativo de um dos lados.
  2. Ataque de grande impacto simbólico (ex.: destruição de infraestrutura estratégica crítica).
  3. Mudança política abrupta em Moscou, Kiev, Washington ou Berlim.
  4. Incidente envolvendo diretamente um país da OTAN.

Tendência Estrutural

O conflito caminha para:

  • Militarização prolongada da Europa Oriental.
  • Consolidação da Rússia em economia de guerra.
  • Integração cada vez maior da Ucrânia ao complexo militar-industrial ocidental.

A guerra tende a permanecer como confronto híbrido de alta intensidade, combinando:

  • Guerra convencional limitada;
  • Guerra de drones em larga escala;
  • Ataques cibernéticos;
  • Pressão econômica e informacional.

Conclusão Prospectiva

Nos próximos seis meses, o cenário mais provável é de continuidade do conflito sem ruptura decisiva, com episódios localizados de escalada.

A variável central não é apenas militar, mas industrial e política:
quem sustenta melhor o esforço de guerra no médio prazo terá vantagem estrutural.

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