COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

24 de Junho, 2014 - 00:28 ( Brasília )

Por quê modernas armas e alta tecnologia ainda não venceram a guerra contra o terrorismo extremista


         

        André Luís Woloszyn
Analista de Assuntos Estratégicos,
consultor de agências  internacionais em
conflitos de baixa e média intensidade.

 
Quando o ex-Presidente, George W. Bush,  cunhou a famosa frase de que após os atentados do 11 de setembro, “o mundo havia mudado”, com as novas ameaças oriundas do terrorismo extremista islâmico, provavelmente buscava apoio no discurso para legitimar a implementação da nova doutrina que viria logo a seguir, da guerra ao terror e dos ataques preventivos, que atendia também, a outros interesses estratégico dos EUA.
                
Os atentados, planejados e coordenados por Osama Bin Laden, acarretaram em coligações, apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a invasão do Iraque, e a intensificação de operações militares e de inteligência contra os talibãs, no Paquistão e Afeganistão, ações que perduraram por uma década com alguns resquícios na atualidade.
                
Pela avaliação da conjuntura, podemos afirmar que Bush estava parcialmente correto, porém o sentido de sua afirmação mostrar-se-ia muito mais amplo do que poderia imaginar. E as agências de inteligência norte americanas, confiantes como sempre estiveram em seu grande poder militar e capacidade, provavelmente, tenham acreditado que poderiam esmagar os radicais com sua mais avançada tecnologia, reduzindo suas ações ou até mesmo exterminando a maior parte dos integrantes e simpatizantes do terrorismo islâmico, percepção compartilhada no ocidente.
            
Com a morte de Osama Bin Laden, em 2011, o antecessor de Bush, Barack Obama, afirmou no mesmo tom que “agora, o mundo está mais seguro”, classificando o episódio como a maior vitória militar dos EUA na guerra ao terror.  
               
Será verdade? Não é o que temos visto três anos após.
                
Hoje, podemos contestar os argumentos de ambos. Quando afirmo que Bush estava parcialmente correto, me refiro a mudança de paradigma de segurança e inviolabilidade que permeava a sociedade norte americana assim como seus reflexos psicológicos desde Pearl Harbor. O mundo mudou para os EUA, de fato, mas mudaria também para o terrorismo de natureza extremista islâmico, de uma forma pragmática.
               
O cenário que vemos no Iraque, Afeganistão e Síria, são uma demonstração clara desta mudança. Os grupos, ao contrario das estimativas mais otimistas, se multiplicaram em diversas regiões do Oriente Médio, sul da África e Ásia e, adquiriram maior experiência em ações de guerrilha e contra insurgência, aplicando em seus inimigos, as mesmas técnicas e métodos utilizados em uma década, pelos militares da coalizão. E aqueles, que se considerava desativados, se reagruparam e voltaram a praticar atentados com maior violência, armas modernas e novas técnicas de produzir terror, sem nenhuma piedade ou clemência. Atingem crianças, idosos, antigos amigos e vizinhos, da mesma forma.
              
Pode-se afirmar então, que estes combatentes não são os mesmos que as tropas de coalizão combateram. Tornaram-se especializados por seus próprios algozes. Neste sentido, a mudança pode ter sido mais vantajosa para os insurgentes do que, propriamente para os EUA, pois após a retirada das tropas do Iraque e Afeganistão, novos atores retomaram antigas práticas com maior intensidade. E com estes argumentos, derrubamos  também a famosa frase de  Barack Obama, sobre “um mundo mais seguro”.
               
A pergunta que naturalmente vem a tona após esta curta reflexão é quem venceu afinal, este conflito assimétrico sangrento? Na atualidade, nenhuma das partes. Os EUA conseguiram apenas reduzir a ação dos grupos radicais enquanto permaneciam nestes países, o que parece óbvio. Mas se formos ampliar o sentido da pergunta e a estendermos sobre a Al Qaeda e seu líder máximo, Osama Bin Laden, a resposta é bem diferente. Estes são, mostram-se os grandes vencedores da guerra contra o terrorismo.   
                
A confirmação desta afirmativa está na própria compreensão do significado semântico da palavra “Al Qaeda -.a base”. Base para a multiplicação da doutrina do radicalismo islâmico, base para o surgimento de diferentes grupos como o ISIS (Estado Islâmico no Iraque e na Síria), (Nota DefesaNet  devido à várias traduções também aparece como ISIL ou EIIL - Exército Islâmico do Iraque e do Levante), o Boko Haram na Nigéria, o Al-Shabaad na Somália, dentre outros, todos inspirados nela, base para a continuidade da  Jihad em busca de um estado islâmico e base para neutralizar a influência ocidental em sua tentativa de levar a democracia a estes países.  
              
E nesta perspectiva, os EUA falharam na guerra contra o terror deixando um rastro de destruição e mortes e uma condição muito mais degradante do que encontraram nestes países. E a atual postura de auxílio em armas, técnicos e conselheiros serve para enfatizar esta percepção e aumentar o asceticismo em relação a sua real capacidade de promover a democracia e a paz no mundo islâmico. A consequência imediata é o crescente aumento do sentimento antiamericano e novas fontes de recrutamento e financiamento.
                
Tudo indica um novo e sangrento conflito regional sectário entre sunitas e xiitas e, talvez, o surgimento do tão esperado estado islâmico. E após tantos esforços, nos vemos  diante de um paradoxo moral e ético. Mesmo com armas, tecnologia e milhares de soldados por quê esta guerra ainda não foi vencida? Será possível vencê-la num conflito em que um dos lados luta para sobreviver enquanto o outro, para morrer? E se é possível, onde falhamos?