02 de Abril, 2015 - 16:40 ( Brasília )

Geopolítica

Quem vencerá a nova Guerra Fria?

Dessa vez não se trata do choque entre dois modos de vida e visões de mundo, mas de encontrar os meios institucionais e econômicos para corroer o oponente

Texto do The Moscow Times
 
Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

 

Parece que uma nova Guerra Fria entre a Rússia e o Ocidente é inevitável, mesmo que o conflito na Ucrânia permaneça “congelado” em seu estado atual pelo menos até o fim deste ano. Tornou-se claro há um ano, com a anexação da Crimeia e o início da guerra no leste ucraniano, que as relações de Moscou com a Europa – e especialmente com os Estados Unidos – não seriam mais como antes.
 
Agora é o momento de perguntarmos como esse novo confront será, tanto ideologicamente quanto no aspecto institucional.
 
As formas de interação da Rússia com o Ocidente que se desenvolveram após a primeira Guerra Fria – como a Parceria pela Paz entre a OTAN e a parceria de trabalho com a União Europeia – caíram no esquecimento.
 
E mesmo que, por exemplo, Moscou retorne à Assembleia Parlamentar do Conselho Europeu no fim deste ano, ainda irá enfrentar lá nada além de críticas infinitas e sermões sobre bom comportamento.
 
E por essas organizações se basearem em certos princípios, participar delas só faria sentido para a Rússia enquanto o país mantivesse diálogo com os “valores comuns europeus”.
 
Mas agora que Moscou deixou mais do que evidente que não partilha desses valores, por que se dar o trabalho de preservar mais uma via de briga com o Ocidente? Ser membro do Conselho de Segurança da ONU já dá oportunidade mais que suficiente para isso.
 
Uma vez que cooperação é coisa do passado, a questão mais urgente é como esse conflito tomará forma em nível institucional. Além disso, como a comunidade internacional pode institucionalizar a “arbitragem” para resolver problemas como esse que, por mais desagradáveis que sejam, ambas as partes terão que encarar?
 
Energia é uma questão desse tipo. Por enquanto, a União Europeia continua a comprar gás russo, apesar de ter progredido significativamente em sua estratégia para diminuir a dependência energética.
 
A decisão da UE de criar uma aliança energética já está a um passo do “confronto institucional”. Para começar, essa aliança consolidará as relações contratuais dos Estados membros do bloco com a Gazprom, o que reduzirá consideravelmente a receita da empresa arrecadada na Europa em um momento em que a companhia já enfrenta grandes perdas por conta da queda dos preços para o setor de energia.
 
Enquanto aumentam as intrigas acerca da tentative da Rússia desviar da Ucrânia via Turquia, o Ocidente responderá com suprimentos alternativos vindos do Azerbaijão, Turcomenistão e Irã. Também é provável que Moscou experimente duras restrições de acesso ao gasoduto Opal, na Alemanha. O Ocidente depositará mais fé no gás liquefeito e assim por dianre, com o objetivo de reduzir ao máximo, ou mesmo acabar com, a dependência do gás russo dentro de dois ou três anos.
 
A UE também está se preparando para um embate informacional e de propaganda contra a Rússia. O bloco já cogita criar uma rede de notícias como contraponto “ rede Russia Today, mas, em geral, o confronto nos campos humanitário e de informação serão bem diferentes de como foram na Guerra Fria tradicional.
 
A Europa não mostrará a situação como a concorrência entre dois modos de vida ou duas visões diferentes do futuro – especialmente porque a Rússia ainda precisa formular sua própria visão do futuro para cosumo interno, e explicar como ela é diferente da perspectiva ocidental – mas provavelmente o esquema se resumirá a uma tentativa banal de manipulação da opinião pública.
 
A competição entre dois sistemas sociais acabou. Moscou abandonou o mantra soviético de construir uma sociedade mais justa de felicidade universal, igualdade e fraternidade.
 
Os aliados politicos da Rússia no exterior não fazem mais parte do “movimento comunista mundial”, são Estados individuais ou partidos como o de extrema-direita da Frente Nacional francesa de Marine Le Pen. Essas alianças não são sistêmicas como era o Pacto de Varsóvia, mas isoladas e fortemente baseadas em sentimentos anti globalização ou anti americanos, ou então no euroceticismo.
 
Se o primeiro ministro da Hungria, Viktor Orban, ou o partido Syriza na Grécia perdessem o poder que têm hoje, não se sabe como esses países definiriam suas relações com Moscou.
 
Na Guerra Fria atual, o Ociedente se concentrará em aplicar pressão econômica sobre a Rússia – entenda-se estrangular o regime de Vldimir Putin. É importante considerar que o cenário econômico atual é essencialmente diferente do que era nos idos do mundo bipolarizado.
 
Apesar de a União Soviética ter sido fortemente abalada pela Segunda Guerra, o bloco tinha uma economia autosuficiente que se baseava o mínimo possível em mercados estrangeiros. Com a desmobilização dos anos 1950, o “degelo” promovido pelo então líder soviético, Nikita Khrushchev, e a tentativa de iniciar uma “revolução científica e tecnológica” nos anos 1970, a URSS demonstrou até mesmo a capacidade de reforçar seu potencial técnico e industrial.
 
Porém, nos primeiros estágios da Guerra Fria de hoje, Moscou está basicamente no ponto oposto – sua base industrial está em ruínas, e pior, sua excelência científica e tecnológica se perdeu.
 
Enquanto a União Soviética podia dar conta sozinha da corrida especial contra os EUA nos anos 1960, a Rússia de hoje adquire boa parte de seus equipamentos – incluíndo componentes essenciais para seu complexo industrial-militar – do Ocidente. E é exatamente nesse ponto fraco que o Ocidente vai atacar.
 
A duração e conclusão dessa Guerra Fria atual depende de como – e se – Moscou responderá a todos esses desafios.
 
Caso a Rússia não resolca seus problemas tecnológicos e econômicos, o país pode presenciar não apenas o colapso de sua infraestrutura industrial e social, e sua degradação rumo a um Estado faido dentro de 15 anos, mas também corre o risco de perder seu potencial militar para enfrentar o Ocidente.
 
Claro que a solução desse conflito depende também de quanto tempo mais Putin permanecerá no poder e se o Ociedente acredita ou não que Moscou é forte o bastante para manter um acordo sólido baseado e termos mutuamente aceitáveis. Não sendo esse o caso, as pressões aumentarão, colocando a Rùssia em condições ainda mais desesperadoras caso o país não responda adequadamente a esses desafios externos
 
E quando chegar a este ponto, Moscou terá duas opções: rendição completa sob os termos do vencedor, ou guerra como uma tentativa final e desesperada de afirmar a dignidade nacional russa.