09 de Fevereiro, 2015 - 12:15 ( Brasília )

Geopolítica

Retaliação da Jordânia é o despertar que os EUA tanto esperavam

Esse é o momento que o Pentágono esperava. Todos esses anos de construção de “um poder parceiro”, treinar, equipar, financiar, fortalecer e profissionalizar as Forças Armadas dos ditadores e reinos do oriente Médio estão prestes a dar um retorno

Por Kevin Baron – Texto do Defense One
Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel


A inimagiável imolação do piloto militar jordaniano, Primeiro-Tenente Moaz al-Kasasbeh, preso pelo Estado Islâmico (EI, ISISou ISIL) desde dezembro de 2014, chocou a comunidade árabe. Quase que imediatamente após o EI ter lançado o video macabro mostrando a morte do aviador, o porta-voz do Exército jordaniano prometeu uma retaliação “avassaladora e decisiva”.

E do dia para a noite a atenção mundial se voltou para o seguinte: foram necessárias menos de 12 horas para que a Jordânia realizasse execuções – movidas por vingança – de dois terroristas, Sajida al-Rishawi, cujo atentado a bomba falhou no ataque a um hotel na capital Amã em 2005, e Ziad al-Karbouli, da célula iraquiana da al-Qaeda.

Mas a verdadeira retaliação ainda estava por vir. Segundo levantamentos recentes, as Forças Armadas jordanianas, com um orçamento de 1,5 bilhões de dólares, contam com mais de 1.300 blindados e quase 250 aeronaves.

As máquinas estão prontas para combater. Autoridades do governo jordaniano anunciara na última quarta-feira que aumentariam os ataques aéreos contra posições do EI.

Mais notáveis ainda que as capacidades aéreas e terrestres são as das Forças Especiais jordanianas, projetadas especificamente para esse tipo de cenário.

A Jordânia conta com uma das elites de orepações especiais do mundo, e que durante anos vieram lutando ao lado de combatentes americanos, tendo sido treinados, equipados e financiados em boa parte pelos Estados Unidos.

Na verdade, a Jordânia abriga um dos mais avançados campos de teste para operações de contraterrorismo, o King Abdullah Special Operations Training Center. Após sua inauguração em 2009, uma onda de oficiais americanos graduados passou pelas instalações impressionantes construídas exclusivamente para fornecer e testar táticas. Lá é posível encontrar cenários de simulação completos com edifícios, pistas de voo e ruas onde grupos de elite de todo o globo treinam para missões de contraterrorismo, desde sequestro de veículos até resgate de reféns.

O pedido do presidente Barack Obama para o orçamento do ano fiscal de 2016, enviado na última segunda-feira (26), inclui 350 milhões de dólares em financiamento militar para a Jordânia. São 300 milhões no orçamento de base e os outros 50 na conta das Operações de Contingência no Exterior (Overseas Contingency Operations), além de 3,8 milhões para treinamento militar no país.

Os recursos, em parte, pagam para que a Jordânia lide com “contraterrorismo e ameaças assimétricas”, segurança de fronteiras e para estabelecer “melhor capacidade interoperacional para que os Estados Unidos participem em operações de coalizão contra o ISIS”.

O legado das campanhas no Afeganistão e no Iraque é que o Pentágono quer fortalecer Forças Armadas no exterior para que elas combatam em seus próprios conflitos. Na Jordânia, oficiais militares e de inteligência americanos há tempos encontraram parceiros-chave.

Mas algumas das questões que incomodam aqueles em Washington  de olho no Oriente Médio no momento são: como o rei Abdullah II lançará suas forças sobre o EI? Qual será o tipo de retaliação? Será velada, explícita, unilateral, por coalizão? Será com ou sem as bênçãos do Pentágono, da CIA, Mossad e outras agências ocidentais que vinam combatendo o terrorismo nas sombras até o momento?

A morte do tenente  Al-Kasasbeh vem exatamente em um momento em que a paciência de Washington com o presidente Obama está acabando. Apesar dos apelos do líder para não apressar o envio de tropas americanas a um conflito bagunçado, seus críticos já estão fartos da estratégia de “banho-maria” do atual governo para destruir o ISIS, mas sem derrotar o presidente sírio Bashar al-Assad através de uma mistura cautelosa de atauqes aéreos explícitos e operações secretas sobre as quais nem o público americano nem os inimigos dos EUA podem se manifestar.

 “Que não haja dúvidas: ainda não temos uma estratégia viável para combater o Estado Islâmico, e se você não está ganhando a guerra, está perdendo”, disse o chefe do Armed Service Committee do Senado americano, John McCain, durante a posse do novo Secretário de Defesa, Ash Carter, na última quarta-feira (28).

A senadora republican Lindsey Graham declarou três dias antes que eram necessários 10 mil soldados americanos para combater o ISIS em terra. Mas vozes de todos os lados continuam esperando que outras nações assumam o fardo. A comentarista Greta Van Susteren, da FOX News, se dirigiu a Obama para que organizasse um “encontro de guerra” entre Estados, para exigir mais participação militar de outras nações.

Talvez a resposta que Washington espera venha de Amã.

“O sangue do mártir [Moaz al-Kasasbeh] não será derramado em vão, e a resposta da Jordânia e seu exército após o que aconteceu ao nosso filho querido será severa, disse o rei Abdullah em comunicado oficial.

“Nossa guerra guerra contra eles será implacável e os atingiremos em seu próprio território”, o rei teria dito em reuniçãoanterior, segundo meios de comunicação estatais.

 “Estamos falando da colaboração entre membros de uma coalizão para intensificar os esforços e deter o extremismo e o terrorismo, minando, degradando e, por fim, eliminando o Daesh (como o EI é chamado no mundo árabe)”, declarou o porta-voz Mohammad al-Momani segundo o Jerusalem Post.

As declarações acaloradas dos líderes jordanianos vieram acompanhadas de apoio forte de autoridades religiosas do Islã em toda a região. Por quê? Os sacerdotes muçulmanos se incomodaram particularmente com o ISIS ter queimado uma de suas vítimas.

Porém, o que esses líderes religiosos pedem como punição é, digamos, gráfico. O líder do centro sunita Al Azhar, no Egito, sheik Ahmed al-Tayeb, clamou que os assassinos de al-Kasasbeh fossem “crucificados ou tivessem suas mãos e pés decepados”.

Demandas semelhantes vieram de autoridades muçulmanas no Iêmen e na Arábia Saudita, mas a crítica geral ao último ato  cruel do EI foi a mesma. “esse método de execução voltou a sociedade contra eles”, diz o jordaniano Abu Sayaf, sacerdote da verdente salafista do Islã no páis.

O senador McCain declarou apoio total do Senado americano ao rei Abdullah na última quarta-feira, prometendo pedir ao presidente Obama que fizesse o mesmo “Os Estados Unidos não têm maior aliado na luta contra o terrorismo do que a Jordânia.

E, como deixamos claro ao rei Abdullah em nosso encontro ontem, o interesse imediato deste comitê é garantir que nosso parceiro tenha todo o equipamento e recursos necessários para continuar a combater o ISIS diretamente”.

Ash Carter disse ao Senado que o plano do president é derrotar o Estado Islâmico nos dois lados da fronteira, tanto na Síria quanto no Iraque. Como? Através do fortalecimento das tropas iraquianas de um lado, e apoiando os rebeldes sírios e outras forças regionais do outro.

Tudo muito bem, tudo muito bom. Mas cuidado. Lá vem o rei Abdullah. Lá vem a Jordânia.