Assembleia Geral da ONU começa sob a sombra da ofensiva contra o EI

A Assembleia Geral da ONU começa nesta quarta-feira (24/09), em Nova York, com a presença de líderes de 193 países e sob a sombra da ofensiva internacional contra o "Estado Islâmico", que possivelmente será tema de vários discursos.

Como é tradição, a presidente Dilma Rousseff fará o primeiro discurso. Ela deve usar o espaço para ressaltar os avanços sociais do Brasil nos últimos anos e o êxito obtido no combate à pobreza e à fome – progressos que constituem a base de sua campanha à reeleição.

Ela será seguida no palanque pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, segundo a discursar na condição de anfitrião. Sua fala será possivelmente centrada na busca por maior apoio internacional à ofensiva contra os extremistas na Síria e no Iraque.

Na terça-feira, o secretário de Estado americano, John Kerry, assegurou que mais de 50 países já declararam apoio à ofensiva comandada pelos EUA, incluindo a Turquia. Em reuniões paralelas durante a assembleia, Washington já sugeriu que vai tentar consolidar a coalizão internacional que combate o EI.

Os países latino-americanos reforçarão seu pedido por uma reforma da ONU, e muitos devem apoiar a proposta argentina de estabelecer um marco regulatório internacional para operações de fundos de investimento especulativos.

Os líderes mundiais tentarão igualmente unir esforços para combater o ebola, que o Conselho de Segurança já classificou como uma ameaça à paz mundial; para reconstruir Gaza após uma devastadora guerra de 50 dias; e para encorajar o fim dos combates na Ucrânia entre tropas de Kiev e separatistas pró-Rússia.

"Há muitas razões para estarmos incomodados por causa do estado do mundo. Mas também há muitas razões para termos esperança", disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

O plenário da Assembleia Geral da ONU termina em 30 de setembro.

EUA buscam parceiros na Síria e no Iraque para combater EI

É questionável se a organização terrorista "Estado Islâmico" (EI) pode ser combatida por aviões e drones. Bases, campos e também comboios podem ser eliminados a partir do ar. Mas quando se trata de expulsar o EI de regiões densamente povoadas ou de grandes cidades, ataques aéreos talvez não sejam mais suficientes. Especialmente quando os extremistas – como já foi o caso – usam reféns como escudo humanas.

Por isso, a aliança comandada pelos Estados Unidos precisa de parceiros. E, no Iraque, o mais indicado já foi identificado: os curdos peshmerga. Graças a eles, dezenas de milhares de yazidis ainda estão vivos. Durante a fuga dos membros da minoria religiosa perseguida pelo EI, os curdos lhes deram proteção nas regiões controladas por radicais.

Na Síria, a situação é consideravelmente mais difícil. Depois de três anos e meio de guerra, a oposição anti-Assad está dividida em inúmeras facções – estimativas apontam para mais de mil grupos. Os EUA tentam, no momento, obter uma visão geral. Mesmo alianças temporárias de conveniência estão na ordem do dia. Ainda mais incertos que os grupos são os próprios combatentes: eles desertam frequentemente para se aliar a outras milícias.

O principal parceiro ocidental continua sendo o Exército Livre da Síria (ELS), o mais antigo grupo armado de oposição. Ele deve se aliar à Frente Islâmica, um movimento islamista que se opõe ao EI. Algumas centenas de combatentes do ELS já passaram para a frente Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda. Por esse motivo, um apoio logístico a esse grupo pode ser arriscado.

Curdos sírios

Neste campo de difícil compreensão, um grupo curdo se oferece atualmente como parceiro à aliança: as Unidades de Proteção Popular (YPG), da Síria. Elas são o braço armado do Partido de União Democrática (PYD), o equivalente sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) na Turquia. Como seu irmão turco, o PYD tem uma orientação secular-marxista.

Enquanto os curdos sírios se mostraram reticentes, inicialmente, na luta contra o regime de Assad, eles se mostram agora decididos em proteger as regiões sobre o seu domínio no norte da Síria. No entanto, o envolvimento de curdos sírios contra os jihadistas vai muito além da proteção de seu próprio território, diz Salih Muslim, presidente do PYD: "Eles são um perigo para o mundo todo."

Dentro da coalizão internacional, ainda existem algumas reservas sobre uma aliança com o YPG sírio, advindas de diferentes atores: os participantes árabes da aliança se mostram reticentes sobretudo devido à orientação ideológica.

Embora principalmente a Arábia Saudita se veja ameaçada, a longo prazo, pela presença do EI, o país não quer abrir mão de sua interpretação estrita do islã. Especula-se, regularmente, sobre o financiamento do EI por cidadãos sauditas ou instituições privadas.

Vários países ocidentais, por outro lado, têm reservas devido à proximidade do PYD com o PKK, o que atrapalha agora uma possível aliança ocidental com o PYD sírio. O PKK foi banido na Turquia como organização terrorista – o que aconteceu também nos EUA e na União Europeia.

Negociações na Turquia

No entanto, uma possível solução poderia surgir a partir da evolução das relações curdo-turcas. Ancara e o PKK dialogam há anos – inicialmente em segredo, mas já há meses publicamente. Desde o início de 2013, o PKK decidiu desistir da violência como instrumento de luta política. O PKK também desistiu da exigência de um Estado próprio, para passar a pedir uma "autonomia democrática". Ao mesmo tempo, os curdos recebem cada vez mais direitos, sobretudo culturalmente.

Com o avanço do EI no norte da Síria, o PKK convocou os seus membros a socorrer os "irmãos e irmãs" curdos. Militarmente, o partido parece estar bem preparado. Em Ancara, especula-se no momento sobre a criação de uma zona de proteção na Síria, para conter o EI. Nesse contexto, os curdos da Turquia poderiam exercer um importante papel.

"Os militares turcos avaliam agora se essa zona é necessária, por onde ela deve passar e até onde ela deve ir", declarou o presidente Recep Tayyip Erdogan na semana passada.

A condição para tal zona seria, no entanto, a anuência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Nesta semana, Erdogan deve tentar promover a aprovação da zona de proteção nas em Nova York. Isso poderia, a longo prazo, elevar a reputação do PKK e, assim, também do PYD.

 

 

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