19 de Setembro, 2014 - 15:30 ( Brasília )

Geopolítica

Referendo na Escócia muda politicamente o Reino Unido

Apesar da vitória do "não", escoceses balançaram as bases do Estado britânico. Cameron anuncia reformas e mais autonomia para as nações que formam o Reino Unido.

Muitos escoceses foram trabalhar ou estudar com sono nesta sexta-feira (19/09). Eles passaram a madrugada acompanhando pela televisão ou em pubs a contagem dos votos do referendo sobre a independência da Escócia. Os que não acompanharam levantaram bem cedo para saber o resultado.

Por volta das 5h30, no horário local, a maior parte dos votos já havia sido contada, e o resultado era claro: a Escócia optou por não se tornar independente, com 55% dos escoceses votando a favor de continuar no Reino Unido, e 45% optando pelo argumento nacionalista que defendia a independência depois de 307 anos.

Uma certa dama deve ter recebido o resultado com uma alegria especial. Segundo fontes do palácio real, a rainha Elisabeth passou grande parte da madrugada em frente à televisão no castelo Balmoral, localizado na Escócia. Oficialmente, a monarca não se pronunciou. A palavra ficou com o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron.

Às 7h, horário local, em frente a sua residência oficial em Downing Street, Cameron se mostrou aliviado que seu "Reino Unido amado" não havia separado nessa noite histórica. O primeiro-ministro expressou respeito aos escoceses pela votação justa e pela campanha eleitoral.

E aproveitou também o momento para anunciar uma reforma de Estado para a Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. "Agora nós temos uma grande oportunidade para mudar a forma como os britânicos são governados. Nós queremos melhorar. Políticos de todos os lados têm a responsabilidade de trabalhar construtivamente juntos para defender melhor no nosso Reino Unido os interesses da população da Escócia, mas também do País de Gales, da Irlanda do Norte e da Inglaterra", declarou.

Reforma de Estado no Reino Unido

No último minuto da corrida eleitoral, para enfraquecer os separatistas, Cameron prometeu aos escoceses mais autonomia. A promessa deu resultado, mas agora o primeiro-ministro precisa agir contra a resistência do próprio partido conservador. Camerou quer atender também as exigências de parlamentos regionais autônomos no País de Gales e na Inglaterra. A ideia é criar uma espécie de federalismo, que não existe no Reino Unido.

"Assim como a Escócia terá autonomia para decidir sobre questões internas, como impostos, assistência social e orçamento, a Inglaterra, o País de Gales e a Irlanda do Norte também devem ter autonomia para tomar essas decisões", afirmou Cameron. Em janeiro, um projeto de lei deve ser apresentado. Um grupo de trabalho para isso já foi formado, disse o primeiro-ministro.

A eleição para um novo Parlamento do Reino Unido está marcada para maio de 2015. A reforma de Estado, consequência o referendo escocês, será um dos temas centrais da campanha, avalia a cientista política Kirstein Rummery, da Universidade de Stirling, na Escócia.

Para a especialista, a pressa demonstrada pelo primeiro-ministro é problemática. "Se um grande conjunto de leis for aprovado nos próximos meses ou mesmo semanas, haverá pouca oportunidade para envolver amplamente o público. Assim, novamente, apenas políticos negociariam entre si", afirmou Rummery à emissora BBC, lembrando que a parte mais sensacional do referendo escocês foi justamente a mobilização popular. A participação chegou a 84,5%, o maior número de toda a história da Escócia.

Além de ser aprovada na câmara baixa, a reforma de Estado precisa também da aprovação da câmara alta, onde especialistas afirmam não haver garantia de que isso aconteça.

Reconciliação do país

Os partidários da independência, que durante dois anos fizeram campanha, estavam desapontados na manhã desta sexta. O líder dos nacionalistas, o então ainda primeiro-ministro Alex Salmond, pediu que seus seguidores, juntamente com os adversários políticos, se sentissem responsáveis pela Escócia. "Eu aceito a opinião do povo escocês. Eu peço que todos os escoceses façam o mesmo e aceitem o veredicto democrático", afirmou Salmond em Edimburgo.

O líder da campanha do "não", o político social-democrata Alistair Darling, também pediu a reconciliação. "A maioria silenciosa falou hoje à noite", disse Darling em Glasgow. A Escócia vai mudar e ganhar mais direitos, prometeu o político.

Salmond também vê aspectos positivos no referendo. "Nós conseguimos que uma parte da sociedade que nunca se interessou por política se entusiasmasse com ela. Mas também a sociedade comoveu e mudou os políticos. Eu acredito que, a partir de agora, nunca mais seremos capazes de voltar à rotina diária política", declarou.

O primeiro-ministro escocês ligou para Cameron para iniciar negociações sobre as concessões prometidas. Ele admitiu que seu objetivo político, a independência da Escócia, não será mais alcançado. "Isso foi decidido por uma geração ou uma vida inteira", disse aos seguidores. Com a derrota, Salmond anunciou poucas hora depois a sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro da Escócia.

Premiê escocês anuncia renúncia

Principal líder da campanha pró-independência escocesa, Alex Salmond anunciou nesta sexta-feira (19/09) que renunciará como primeiro-ministro da Escócia e como presidente do Partido Nacional.

A decisão é tomada após os escoceses rejeitarem em referendo a sua independência do Reino Unido. Salmond está há duas décadas à frente do partido e chegou ao posto de premiê em 2007.

"O tempo está quase no fim para mim como líder, mas para a Escócia a campanha continua e o sonho nunca morrerá", disse o líder independentista, que dedicou grande parte de sua carreira política a buscar a separação escocesa do território britânico.

O anúncio significa que Salmond não tentará a reeleição na próxima conferência do partido, em novembro. Ele disse que, assim que seu sucessor foi definido, ele deixaria a chefia do governo escocês.

O político afirmou que a Escócia se beneficiará de uma nova liderança na fase de negociação com Londres. Ao reconhecer a derrota no referendo, ele pediu aos unionistas que cumpram seus compromissos de dar mais autonomia ao território escocês.

"Temos que pensar em tudo o que fizemos, porque isso levará adiante a Escócia como país", afirmou Salmond, que teve o referendo como seu grande projeto de governo.

Na quinta-feira os escoceses foram às urnas para decidir sobre a independência do território depois de 307 anos. A união com o Reino Unido foi mantida com 55,30% de apoio, contra 44,70% de votos a favor da separação. A eleição teve participação recorde de 84,6%.