18 de Julho, 2014 - 10:20 ( Brasília )

Geopolítica

Crescem suspeitas de envolvimento rebelde na queda do MH17 na Ucrânia

Boeing que caiu no leste do país pode ter sido atingido por míssil, apontam os EUA. Informações de Kiev indicam que separatistas pró-Rússia confundiram avião com alvo militar.

Aumentam as suspeitas de que o Boeing 777 da Malaysian Airlines que caiu no leste da Ucrânia nesta quinta-feira (17/07) tenha sido derrubado por um míssil. Entretanto, ainda permanece o mistério sobre o autor do disparo. Informações do governo ucraniano indicam que os separatistas pró-Rússia confundiram o avião, com 298 passageiros a bordo, com uma aeronave militar ucraniana. Ao mesmo tempo, um funcionário do governo dos EUA disse que Washington acredita que o avião foi derrubado por um míssil.

O voo MH17, que havia decolado em Amsterdã, encontrava´se a cerca de dez quilômetros de altura, sobrevoando a região de Donetsk, quando desapareceu dos radares. Apenas 17 minutos depois, Igor Strelkov, o ministro da Defesa da República de Donetsk, proclamada pelos separatistas, escreveu na plataforma russa na internet VKontakte: "Acabamos de abater um AN-26". Ele se referia a uma aeronave militar de transporte de produção soviética, que também está a serviço da Força Aérea da Ucrânia.

Junto à postagem na rede social, havia um vídeo cujas imagens se assemelham bastante a fotos do local da queda do avião malaio. Além disso, Strelkov escreveu que a aeronave derrubada pelos rebeldes teria caído perto da mina de Petropavlovskaya − não muito longe do local da queda do MH17.

Indícios de envolvimento rebelde

A postagem de Strelkov no site VKontakte foi apagada pouco tempo depois. O Exército ucraniano, entretanto, já havia salvado o comentário e encaminhado o texto à imprensa, com tradução em inglês. Além disso, o serviço secreto ucraniano SBU divulgou conversas telefônicas entre dois líderes rebeldes que haviam sido grampeados. Nas gravações, eles afirmam ter derrubado um avião de passageiros.

Especialistas de inteligência dos EUA acreditam "fortemente" que a aeronave foi atingida por um míssil terra-ar. Ao mesmo tempo, Washington vê a Rússia como uma das responsáveis pela tragédia. "O incidente ocorreu no contexto de uma crise na Ucrânia, que é alimentada pelo apoio russo aos separatistas, com armas, equipamentos e treinamento", declarou a Casa Branca.

A princípio, os separatistas negam que tenham equipamento capaz de abater uma aeronave a dez quilômetros de altura. Mas algumas horas antes do acidente, ainda era possível ver na conta de Twitter da autoproclamada República de Donetsk que os rebeldes haviam roubado do Exército ucraniano mísseis terra-ar do tipo Buk. Este comentário também foi apagado posteriormente.

O Exército ucraniano havia confirmado bem antes do acidente com o Boeing 777 que os separatistas possuíam mísseis do tipo Buk, que, segundo seu fabricante, podem alcançar alvos a até 25 quilômetros de altura.

Segundo a mídia local, as autoridades de Kiev afirmaram nesta sexta-feira que os mísseis desse tipo que os separatistas tomaram do Exército da Ucrânia em junho não estavam aptos a ser usados. Para o governo ucraniano, um sistema Buk, com mísseis e pessoal capaz de operá-lo, teria sido trazido da Rússia.

Condições difíceis de resgate

As condições para as forças de resgate são extremamente difíceis. Um funcionário das equipes de resgate, disse, que os destroços se espalharam ao longo uma área de 15 quilômetros. Mais de 180 corpos já foram encontrados.

Os rebeldes pró-russos asseguraram o acesso à área a investigadores, tanto peritos nacionais como internacionais, afirmou nesta sexta-feira a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

A OSCE convocou uma reunião de emergência para esta sexta-feira em Viena. O Conselho de Segurança da ONU também deve tratar da tragédia em uma sessão especial.

De acordo com a companhia aérea Malaysian Airlines, entre as 298 pessoas a bordo do voo MH17 estavam 154 holandeses, 43 malaios e 27 australianos. O Ministério do Exterior da Alemanha confirmou que quatro alemães estavam entre as vítimas.

De acordo com a companhia aérea Malaysian Airlines, entre as 298 pessoas a bordo do voo MH17 estavam 154 holandeses, 43 malaios e 27 australianos. O Ministério do Exterior da Alemanha confirmou que quatro alemães estavam entre as vítimas. Um terço das vítimas eram pesquisadores e ativistas que se dirigiam a uma conferência internacional sobre aids, na Austrália, segundo o jornal Sydney Morning Herald.

Líderes pedem investigação independente

O primeiro-ministro ucraniano, Arseniy Yatsenyuk, exigiu que os responsáveis sejam levados ao Tribunal Penal Internacional, em Haia. "Esta terrível tragédia mudou nossas vidas, os russos foram longe demais", acusou Yatsenyuk, de acordo com a agência de notícias Interfax-Ucrânia.

Do outro lado, o presidente russo, Vladimir Putin, atribuiu a responsabilidade à Ucrânia e pediu uma "investigação abrangente e objetiva". O Kremlin afirmou em comunicado que a tragédia expõe "a necessidade urgente de superar de forma pacífica" a crise da Ucrânia.

A chanceler federal alemã, Angela Merkel, disse que as circunstâncias do acidente devem ser apuradas "o mais rápido possível" por uma investigação independente. "Para isso, é necessário um cessar-fogo", frisou. Ela também afirmou que há "uma grande quantia de evidências" que corroboram a hipótese de uma derrubada do avião por míssil.

O presidente dos EUA, Barack Obama, comunicou seu pesar ao primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, pela "morte trágica" dos passageiros holandeses. A Casa Branca declarou que os EUA estão preparados para apoiar uma investigação "imediata, completa, credenciada e independente".

Também a presidente brasileira, Dilma Rousseff, manifestou-se sobre o desastre nesta quinta-feira, dizendo que o governo brasileiro não se posicionará sobre a queda do voo MH17 até que haja informações mais claras sobre o incidente. Após a reunião da Cúpula China-Brasil e líderes da América Latina e do Caribe, Dilma disse que é preciso ser prudente.

"Tem um segmento da imprensa dizendo que o avião que foi derrubado estava na rota da volta do presidente Putin, que coincidia o horário e o percurso. Eu acho que é importante ter claro que não é um míssil de fácil manejo. Então, nós temos que olhar de fato o que realmente aconteceu. O governo brasileiro não se posicionará quanto a isso até que fique mais claro, por uma questão não só de seriedade, como também de prudência”, disse a presidente.

Em resposta ao desastre, o espaço aéreo foi interditado para aviões comerciais no leste da Ucrânia. Até a noite de quinta-feira, a Lufthansa, entre outras, ainda voava sobre a área. Outras companhias aéreas haviam mudado suas rotas há meses, como as coreanas Korean Air e Asiana e a australiana Qantas, que alteraram seus voos logo depois da anexação da Crimeia pela Rússia, em março.