COBERTURA ESPECIAL - ESGE - Geopolítica

11 de Maio, 2004 - 12:00 ( Brasília )

Nota 4 - O aspecto religioso da guerra


Notas de Geopolítica e Estratégia
pelo Prof. Fernando G. Sampaio©

Conferencista e Professor de Pensamento Geopolítico e Estratégico,Escola Superior de Geopolítica e Estratégia ( ESGE)

Terror Global . A 4ª Guerra Mundial©
Textos publicados originalmente em Outubro de 2001

Nota 1 - Terror Global . A 4ª Guerra Mundial
Nota 2 - O Cenário da Guerra
Nota 3 - Os Antecedentes da Guerra
Nota 4 - O aspecto Religioso da Guerra

X) Conferencista e Professor de Pensamento Geopolítico e Estratégico, Escola Superior de Geopolítica e Estratégia, Porto Alegre/RS - Brasil

Terror Global - A 4ª Guerra Mundial - ( IV )

Prof. Fernando G. Sampaio (x)
esge@defesanet.com.br

Nota 4 - O aspecto religioso da guerra


Já sabemos que esta Quarta Guerra Mundial é completamente distinta de tudo o que se esperava, classicamente, em matéria de guerra. Não é de admirar, assim, que outra dimensão seja introduzida na contenda: o fator religioso. Entretanto, devemos considerar cuidadosamente este ponto, pois ele deve ser visto por duas óticas.

Uma é a ótica do Ocidente, outra a visão do Islã.

Na ótica do Ocidente, o que está sendo atacado são os seus valores civilizacionais. Mas - e muita atenção aqui - isto não inclui o Cristianismo ou, quem sabe, apenas lateralmente. Expliquemos: o grande portador da militância cristã no mundo e da utilização política-ideológica da doutrina cristã é o Vaticano (a chamada Igreja Católica ou, por outros, Romana).

O Vaticano possui uma linha da ação político-estratégica totalmente independente, entretanto, daquilo que convencionamos chamar de Ocidente e é desligado e até mesmo abertamente hostil aos valores deste mesmo Ocidente.

Para o Vaticano, o capitalismo, amparado na famosa ética do Protestantismo (objeto do estudo de Max Weber, mas também do trabalho de Tawney, que lhe é posterior e mais profundo em muitos aspectos - A religião e o surgimento do capitalismo, edição Perspectiva, S.P., 1971), que acha que gerar riquezas e ter lucros é algo agradável à divindade é tão condenável quanto o Comunismo e agora que este não existe mais, o grande inimigo no mundo, para o Papado é o Capital. Por isto, inclusive, a aliança que se estabelece entre o Catolicismo e os restos desagregados da antiga esquerda e seus pretensos "comunistas".

Mas, voltando ao curso principal de nosso pensamento, o que existe é um ataque aos valores do Ocidente, que são representados na democracia parlamentar, com suas liberdades básicas, tudo regido por códigos legais e arbitrado em tribunais regulares.

Estes valores incluem um papel importante para as mulheres, respeito à infância, ausência de punições identificadas com estágios mais atrasados (barbárie), etc.

São tais valores que o Islã procura atacar, pois além de não serem os valores civilizacionais do Islã, sua penetração acaba por desestruturar e enfraquecer a sociedade e os governos islamitas.

Aqui devemos abrir duas questões:

a) Não importa que a guerra seja desferida pelos setores mais radicais do Islã; o restante pactua com esta mesma visão e, direta ou indiretamente, aberta ou encobertamente, apóia a ação dos radicais, pois ser contrário é ser, objetivamente também, contra a própria ordem islamita (existirão, são claro, setores pequenos, ocidentalizados e modernizadores, que estarão contra o Islã e à favor do Ocidente, mas que serão repudiados, na medida em que uma guerra tende a provocar o fenômeno da amalgamação, da união, da coesão interna.)

b) O Islã é um todo, isto é, ele funciona como uma Teocracia, em que a religião não está desligada da civilização nem do Estado e as tentativas para implantar um Estado Leigo ou um denominado "socialismo árabe", só se tornaram possível pelo recurso a ditaduras muito fortes e repressivas, contra as quais acaba-se voltando o radicalismo do fundo religioso, que assassina governantes ou derruba regimes.

Assim, pela visão dos islamitas, a luta é religiosa, pois a sua Civilização não é leiga e rejeita a laicidade. O Islã, autêntico, não pode ver o mundo por outra ótica senão a de sua religião, que é, por outro lado, militante e como toda a fé desta natureza, se acha dona de uma verdade, que deve ser imposta aos "infiéis".

Já, pelo lado do Ocidente, temos uma estrutura que, há séculos, conseguiu realizar uma completa libertação do poder religioso e se constitui em Estado Laico, com seus valores próprios (dentro da ordem democrática), sendo a religião uma questão de foro íntimo, existindo, desta forma, liberdade para todos os cultos e, inclusive para os não-crentes e mesmo para os ateus.

Já o Islã não admite uma separação entre o Estado e a Religião, pelo contrário, todo o Universo é subordinado a sua crença.

Assim, para o Ocidente a guerra é Civilizacional e para o Islã, embora também civilizacional, esta civilização só vai se manifestar pelo ponto de vista religioso, que para ela é um "absoluto", que subordina todo o mais.

Não estamos diante, assim, de uma guerra religiosa, em que duas igrejas, duas fés, duas crenças de digladiam. Estamos diante de maneiras radicalmente diversas de ver, entender e vivenciar o fenômeno da Civilização: de forma leiga ou de forma religiosa.

Consideramos, pelo lado do Ocidente, que é o fato de o Estado ter lutado e vencido a Igreja (Católica, especialmente), que tornou possível as liberdades públicas, o ensino e a pesquisa científica. São, precisamente, estes ensinos, estas instituições republicanas laicas, esta pesquisa científica e tecnológica, desconectada de valores religiosos, que permitiu ao Ocidente o surto de invenções, em primeiro lugar nas artes mecânicas e hoje nas tecnológicas de ponta e "inteligências competitivas", que lhe proporcionou o avanço na produção de riquezas e conseqüentemente, na obtenção do Poder, que lhe deu primazia na Ordem Geopolítica Mundial. E é isto que está sendo contestado: a civilização do Islã, para continuar a ser islamita autêntica, não pode modificar sua estrutura, sua natureza e, assim, está condenada à pobreza, ao atraso, a uma posição secundária. Ela brada contra a riqueza que não sabe produzir, contra o Poder que não tem condições de possuir. Nesta qualidade, ela toma o lugar da profecia marxista-leninista, em sua luta contra o Capital. Por isso, a simpatia, o aplauso, as comemorações e os brindes, que foram feitos, aqui e ali, para marcar o sangrento evento de 11 e setembro de 2001: a 4ª Guerra Mundial é uma vingança, para os "comunistas", derrotados, pela perda na Terceira Guerra Mundial (a Guerra Fria) e que viram desmoronar o seu Império do "socialismo real".

Sob a bandeira verde do Profeta, os pobres, os marginalizados e miseráveis de todo o mundo encontram, novamente, uma causa, um motivo de união, uma esperança de destruir o Poder e a Riqueza do Ocidente, numa nova aliança de ódio, nihilismo e anarquismo, sob um manto ou em aliança com uma idéia religiosa.

É profético que um dos "gurus", o Stanilistas francês, escritos e político Roger Garaudy, autor, entre outros, de "O Ocidente é um Acidente", tenha saído do Partido Comunista, onde era expoente e terminado por aderir justamente ao Islã, em 1983, depois de fazer uma peregrinação até Meca, onde adotou o cognome de "Ragáa" (que significa "esperança"). Já no seu livro citado, Garaudy, grande admirador, também, de Mao Tse-tung e de sua "revolução cultural", uma barbárie chinesa, já acusava o Ocidente (e o cristianismo", de graves crimes contra à humanidade.

O que está ocorrendo, neste momento, hoje, agora, tem, assim, profundas raízes, por toda parte: dai estarmos enfrentando uma nova guerra mundial, que será muito prolongada e travada de forma totalmente diferente de tudo o que se previa, em termos militares.

(X) Conferencista e Professor de Pensamento Geopolítico e Estratégico, Escola Superior de Geopolítica e Estratégia, Porto Alegre/RS - Brasil



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