COBERTURA ESPECIAL - Doutrina Militar - Terrestre

01 de Agosto, 2016 - 09:00 ( Brasília )

A Intensificação do Combate Simulado no Cenário Mundial


A necessidade de uma melhor qualificação dos recursos humanos, aliada às evoluções e inovações tecnológicas cada vez mais sofisticadas, propiciou a utilização da simulação para o treinamento militar, o que trouxe para as Forças Armadas de diversos países, dentre outros benefícios, considerável contenção e redução de custos no adestramento de suas tropas.

O treinamento militar sempre visou um máximo realismo na imitação dos eventos e fricção do combate. Além disso, o ambiente de volátil segurança global mudou as operações. O combate moderno exige um julgamento maduro e uma tomada de decisão rápida e precisa, fruto de treinamento eficaz. Os métodos tradicionais de adestramento envolvem desafios logísticos, geográficos e de pessoal, além da escassez e da limitação de recursos, que impedem exercícios de campo frequentes.

A necessidade de possuir recursos humanos mais qualificados, aliada às evoluções e inovações tecnológicas, conduziu a um caminho sem volta, que é a utilização da simulação como ferramenta para a capacitação da tropa.

A intensificação do emprego de simulação de combate é uma tendência mundial, devido à relação custo-benefício, ou seja, os usuários da simulação alcançam um nível de desempenho satisfatório com tempo e custo menores do que os treinados pelos métodos tradicionais.

Há uma série de benefícios que tornam a simulação de combate tão necessária e eficaz nos dias de hoje. A necessidade de uma melhor qualificação dos recursos humanos, aliada às evoluções e inovações tecnológicas cada vez mais sofisticadas, propiciou a utilização da simulação para o treinamento militar, o que trouxe para as Forças Armadas de diversos países, dentre outros benefícios, considerável contenção e redução de custos no adestramento de suas tropas. São eles:

– economia de recursos financeiros (munição/combustível/ desgaste de material);
– atenuação de problemas ambientais causados pelo treinamento;
– diminuição de riscos (acidentes/incidentes) inerentes à instrução militar;
– maior eficácia no adestramento das tropas;
– busca de maior fidelidade na imitação do combate; e
– otimização do tempo investido na instrução.

Em face desses benefícios, diversos países com Forças Armadas de referência no cenário mundial possuem centros que utilizam a simulação para incrementar o treinamento da tropa, aumentando a operacionalidade com redução dos custos envolvidos no exercício. Dentre os países que utilizam essa ferramenta destacam-se: a Alemanha, os Estados Unidos, a França e Israel.

As Inovações Tecnológicas e o Treinamento das Tropas

As inovações tecnológicas fizeram com que surgisse um novo tipo de combate nos campos de batalha: o “Combate Moderno”, caracterizado pelos seguintes fatores:

- grande mobilidade dos elementos envolvidos;
- grande fluxo de informações e de segurança; - maior velocidade no desencadeamento das operações;
- sincronização das ações; - combate continuado e de frentes não lineares;
- sistemas de armamentos e de equipamentos com grande tecnologia embarcada, de alto desempenho, mais leves e eficientes;
- necessidade de um alto grau de desenvolvimento de alguns atributos pelos comandantes em todos os níveis, tais como: liderança, iniciativa, agilidade, sincronização e capacidade de gerenciamento de informações;
- uso massivo de guerra eletrônica; e
- emprego de forças-tarefas flexíveis, fator fundamental para cumprir missões específicas e assegurar a vitória no combate.

As inovações tecnológicas e as características do combate moderno, somadas às demandas atuais decorrentes de um mundo e de uma realidade caracterizados por incertezas e complexidades, exigem uma maior e mais confiável qualificação dos recursos humanos.

De forma simplista, pode-se dividir as operações em três fases: Planejar, Treinar e Executar.

A restrição do tempo não justifica a perda da qualidade no desencadeamento de cada fase, o que torna necessária a existência de recursos humanos capazes de realizar a pronta resposta e habilitados para operar os equipamentos, cada dia mais tecnológicos. Para um preparo mais eficiente, dinamização do tempo, economia de recursos, imitação mais fiel da situação real, entre outros fatores, a Simulação de Combate é a ferramenta que as Forças Armadas dos países desenvolvidos utilizam para atingir as metas de adestramento.

A Simulação do Combate

Conforme prescreve a Diretriz para o Funcionamento do Sistema de Simulação do Exército Brasileiro - SSEB (EB20-D-10.016), a simulação militar pode ser definida como sendo a reprodução, sob regras pré-determinadas, de aspectos específicos de uma atividade militar ou da operação de material de emprego militar, utilizando um conjunto de equipamentos, softwares e infraestruturas. A simulação militar pode ser conduzida em três modalidades:

– Simulação Viva: modalidade na qual são envolvidos agentes reais, operando sistemas reais (armamentos, equipamentos, viaturas e aeronaves de dotação), no mundo real, com o apoio de sensores, dispositivos, apontadores “laser” e outros instrumentos que permitem acompanhar o elemento e simular os efeitos dos engajamentos. Com o emprego de equipamentos adequados é possível a integração com outros sistemas de simulação.

– Simulação Virtual: modalidade na qual são envolvidos agentes reais, operando sistemas simulados, ou gerados em computador. A Simulação Virtual substitui sistemas de armas, veículos, aeronaves e outros equipamentos cuja operação exija elevado grau de adestramento, ou que envolva riscos e/ou custos elevados. Sua principal aplicação é no desenvolvimento de técnicas e habilidades individuais, que permitam explorar os limites do operador e do equipamento. Essa modalidade pode ser integrada em um ambiente virtual comum, possibilitando o adestramento tático de determinada fração e mesmo em exercício com interoperabilidade de sistemas de simulação.

– Simulação Construtiva (também conhecida pela designação de “jogos de guerra”): modalidade envolvendo tropas e elementos simulados, operando sistemas simulados, controlados por agentes reais, normalmente numa situação de comandos constituídos. A ênfase dessa modalidade é na interação entre agentes, divididos em forças oponentes que se enfrentam sob o controle de uma direção de exercício. Seu emprego principal é no adestramento de comandantes e estados-maiores, no processo de tomada de decisão, e no funcionamento de postos de comando e de sistemas de comando e controle.

A Simulação Maximizando a Prontidão e Reduzindo Custos

O grande desafio encontrado pelas nações desenvolvidas é: maximizar a prontidão das tropas e, ao mesmo tempo, reduzir os custos para seu treinamento.

Equipamentos cada vez mais tecnológicos e com grandes inovações embarcadas requerem um grande gasto, não somente em seu desenvolvimento e criação, mas também em sua operação e na qualificação eficaz de recursos humanos. Nos dias atuais, torna-se inviável executar dezenas de tiros, que custam alguns milhares de reais, para formar um Operador ou um Atirador.

Em face disso, diversos estudos são desenvolvidos no intuito de quantificar e comparar os benefícios e os óbices da substituição parcial do treinamento vivo pela simulação virtual, já que uma substituição total nunca será possível. O treinamento vivo difere-se da simulação viva. Entende-se por treinamento vivo os exercícios no terreno ou os treinamentos com a utilização de meios e equipamentos reais da forma que seriam utilizados em combate (Exemplo: tiro real).

Estudos com esse enfoque ainda são pouco encontrados e divulgados em nossa instituição, devido à fase embrionária da simulação. Em compensação, nos países onde a simulação é ferramenta já consagrada do treinamento militar, existem alguns estudos, boa parte relativos à simulação de voo, que consolidaram essa ferramenta há mais tempo.

No trabalho de Dave Majumdar, “A Simulação vista como chave para o treinamento militar de baixo custo” (Simulation seen as the key to cost-effective military training), o autor relata a diminuição dos investimentos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos nos últimos dez anos, e a inserção do treinamento em simuladores de voo, além da resistência dos militares mais conservadores.

Nesse trabalho, a economia é indiscutível. No entanto, mesmo com toda a tecnologia, não é possível simular todos os aspectos do voo, tais como os efeitos fisiológicos sentidos pelo piloto. Procedimentos e condutas, porém, são plenamente treinados, e reflexos corretos podem ser adquiridos, dependendo do nível de fidelidade do simulador.

Em Israel, segundo Barbara Opall-Rome, em seu artigo “Israel Air Force eyes cost savings through new mission trainers” (A Força Aérea Israelense e a redução de custos através de novos treinadores para missões), onde o ritmo operacional é executado de forma consistente, o exercício de pilotos para missões críticas é conduzido, principalmente, no céu.

Os simuladores de voo são valiosos para a construção de proficiência e para o aprimoramento das habilidades de emergência e de segurança. Inicialmente, eles não foram vistos como um substituto para horas de voo e para “queima de combustível”. De acordo com o pensamento convencional, as missões críticas devem ser ensaiadas ao vivo, no ar, a partir dos cockpits de caças, helicópteros e aviões de transportes. Mas os dois últimos Ministérios da Defesa de Israel vem provocando uma reavaliação das noções tradicionais de condução do treinamento operacional do piloto israelense.

Em 2011, foi inaugurado o Mission Training Center (MTC), no qual, embora com resistência às tentadoras alternativas de redução dos custos de treinamento, existe a possibilidade de se gastar “eletricidade em vez do combustível de avião”. Os simuladores de voo eram utilizados para completar e melhorar a proficiência pessoal de voo, praticando cenários de risco de vida. Hoje, estuda-se a utilização do simulador para substituir até 30% das horas de voo na formação de um piloto, tendo em vista a grande fidelidade dos novos simuladores, operados pela Elbit Systems.

A economia acima citada para as aeronaves é plenamente aplicada à Força Terrestre. Nos Estados Unidos, os Combat Training Center (CTC), até mesmo os “Fortes”, possuem estruturas de simulação, nas quais encontramos alguns produtos que oferecem um treinamento eficiente sem gasto (Simulação Virtual e Construtiva), ou com gasto reduzido (Simulação Viva), de combustível e de munição, possibilitando o treinamento de indivíduos, guarnições e frações. Podemos citar, dentre as estruturas, o Closed Combat Tactical Trainer (CCTT), o Warrior Skills Trainer (WST) e o Engagement Skills Trainer (EST).

O CCTT possui cabines de simulação das Plataformas Abrams e Bradley, com grande grau de fidelidade, operando sistemas idênticos aos dos carros. Este tipo de simulador possibilita o treino das guarnições dos carros, podendo treinar frações constituídas, sendo o valor dependente da quantidade de simuladores disponíveis. O treinamento neste simulador possibilita a economia de combustível, de munição e evita o desgaste do material.

O WST consiste em um ambiente virtual de 360°, onde há uma integração da viatura e de sua guarnição com um cenário virtual que interage com os controles da viatura e com os disparos dos armamentos. Possibilita o treinamento do chefe da viatura, do motorista e dos demais integrantes da guarnição, com economia de combustível, de munição, e do desgaste de componentes da viatura, além de não expor os integrantes a riscos peculiares ao treinamento vivo.

O EST é a imitação de um estande de tiro, no qual pode ser realizado desde o tiro individual até o tiro coletivo de pequenas frações constituídas. Utiliza, desde cenários de treinamento didático, até cenários táticos com incidentes virtuais, com armamentos adaptados para reproduzir os efeitos do tiro real, através de um sistema de ar comprimido. No EST é possível economizar grande quantidade de munição.

O Centro de Instrução de Blindados (CIBld), com base em Exercício de Aplicação Tática de Simulação Virtual (EATSV), confeccionou um estudo no qual foi estimado o gasto com munição para uma Força Tarefa, valor subunidade, realizado durante o exercício simulado. Tal custo, que seria de aproximadamente 6 milhões de reais, reduziu-se somente ao consumo de energia elétrica.

Conclusão

A partir do que foi apresentado, observa-se que a simulação, seja ela Viva, Virtual ou Construtiva, é uma forma viável de se reduzir custos, sem prejuízo do treinamento e da prontidão para o combate. Com as crescentes inovações e melhorias dos diversos tipos de simuladores, a fidelidade ficará cada vez maior e os benefícios decorrentes do treinamento com essas ferramentas serão diretamente proporcionais aos avanços tecnológicos. Cabe ressaltar que, por maior que seja a evolução das simulações, o treinamento vivo nunca poderá ser totalmente substituído.

O Exército Brasileiro vem aumentando seus investimentos nessa área, que ainda é pontual, encontrada em poucos lugares e atendendo um limitado número de naturezas de tropas. Podemos citar o Centro de Instrução de Blindados (CIBld), o Centro de Instrução de Aviação do Exército (CIAvEx) e o Centro de Avaliação de Adestramento do Exército (CAAdEx).

A materialização do reconhecimento dos benefícios da simulação em prol do adestramento das tropas e da otimização de custos foi a criação do Centro de Adestramento e Avaliação Sul (CAA-Sul), em Santa Maria (RS), onde o Centro de Aplicação de Simulação de Postos de Comando (CAS-PC) e o Simulador de Apoio de Fogo já se encontram em operação.

 

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Operação Centauro 2015 – Cel Dos Anjos CAAdEx [Link]

ForOp a Força Openente de Elite do CAAdEx [Link]

Entrevista com General Mourão - O Gerente do Projeto SIMAF [Link]

EB - Simulador de Apoio de Fogo é ativado em Santa Maria (RS) [Link]

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Operação Centauro 2015

 

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Projeto Visão de Futuro do CAADEX - Centro de Avaliação de Adestramento General Álvaro Braga