COBERTURA ESPECIAL - Brasil - Argentina - Geopolítica

14 de Julho, 2019 - 14:00 ( Brasília )

BR-AR - Etchegoyen: Brasil e Argentina têm mais convergências que divergências

O Gen Ex R Sergio Westphalen Etchegoyen, concedeu importante entrevista ao jornal argentino INFOBAE.


Mariano Roca
INFOBAE – Buenos Aires
13 de julho de 2019
Tradução DefesaNet


O Sergio Westphalen Etchegoyen, ex-Chefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro e ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) sob o presidente Michel Temer brasileiro, adverte que Brasil e Argentina têm diante de si uma tremenda oportunidade dada a natureza complementar dos seus desenvolvimentos tecnológicos e os seus interesses comuns o Atlântico Sul.

"Hoje podemos causar danos a uma sociedade, um estado ou uma região sem agressão armada", disse o General-de-Exército Sérgio Westphalen Etchegoyen, formado na Academia Militar das Agulhas Negras(AMAN) e com uma longa história no Exército Brasileiro, além de ter sido assessor do ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, e ministro do ex-presidente Michel Temer.

"A guerra está sendo substituída por conflitos em outras áreas", acrescentou o oficial militar aposentado, em uma conversa que executa os temas mais quentes no tabuleiro de xadrez geopolítico internacional e seu impacto sobre a nossa região.

- Em um cenário em que o multilateralismo está em declínio e os poderes estão emergindo novamente em diferentes regiões do mundo, você acredita que a ordem democrática liberal está em risco?

Estamos vivendo uma tentativa de reorganizar a distribuição de poder no mundo. A bipolaridade da Guerra Fria terminou. O colapso da União Soviética, a recuperação da Rússia, a ascensão da China, as decisões americanas e o desenvolvimento da Orla do Pacífico na Ásia Oriental geraram reações, que acredito serem naturais em um momento de redistribuição de poder no Tabuleiro de xadrez do mundo. Os altos e baixos da democracia são parte de tudo isso. Quando os Estados Unidos mudam suas atitudes políticas desde a chegada do presidente Trump ao poder, não porque os cidadãos estão cansados ??ou fartos. No Brasil temos uma expressão que diz: "Para ficar na mesma situação, é preciso mudar muito". Isto é, permanecer como a superpotência, os Estados Unidos tem que mudar e como tem uma elite que pensa, entende e sabe "jogar" o jogo estratégico de longo prazo, procura soluções que favoreçam ao país, mas não acho que o conceito de "democracia liberal" esteja em risco.
 
- Como você vê, no cenário atual, o papel da Europa e da OTAN?

A Europa vive uma grande discussão interna. Com a criação da OTAN, muitos dos países europeus delegaram parte da sua defesa e soberania à Aliança Atlântica. Hoje existe um consórcio que reúne diferentes capacidades militares para beneficiar uma associação de países. No entanto, mesmo em uma associação pacífica de países, há divergências e interesses incompatíveis. O que temos hoje na Europa é uma grande potência econômica, que é a Alemanha, e uma grande potência militar, que é a França. O que acontece, então, é que quem tem o poder militar não tem a capacidade econômica e, vice-versa, quem tem a capacidade econômica não tem o poder militar.
 
- Como impacta a enorme influência da China e seu choque com os interesses dos Estados Unidos na região?

É um momento particularmente complexo, mas abre uma fantástica oportunidade para o Brasil e a Argentina e, consequentemente, para a América do Sul. A China tem ocupado na América do Sul as lacunas deixadas pelos Estados Unidos. E em questões de geopolítica, não há vácuos de poder. Se alguém deixa um espaço vazio, é rapidamente ocupado por outro. Hoje a China tem liquidez para ocupar esse vácuo. A política externa dos Estados Unidos está muito focada com o que acontece no hemisfério norte. A janela que abre para nossos países deriva do seguinte fato da realidade: o mundo continuará a depender de três elementos básicos, que são: comida, água e energia.

A América do Sul, onde vive apenas 6% da população mundial, tem um superávit estratégico. Ela cobre 12% da superfície terrestre e concentra pelo menos 25% da terra arável, 25% de reservas de água doce e, mais importante, é autossuficiente em energia e pode exporta-la nas suas diferentes formas. Nossas elites e nossos governos precisam levar em conta que essa é a grande riqueza que vamos deixar para as futuras gerações. Apesar de estarmos longe das grandes decisões internacionais, podemos aprofundar os relacionamentos e alinhar nossos interesses para trabalharmos juntos, é possível construir um cluster que reúna o que o mundo precisará.

 

 “A América do Sul concentra 25% da terra arável do mundo, 25% das reservas de água doce conhecidas e pode exportar energia em suas diversas formas.”


- Para analisar a ligação entre o Brasil e a Argentina, você usa um conceito que é o da "ditadura da geografia". Que significa?

O que chamo de "ditadura da geografia", é o Brasil e a Argentina estão condenados a serem vizinhos e o que eles têm que decidir é se querem ser bons ou maus vizinhos. Se nos unimos e concordamos, temos uma superfície que nos permite controlar todo o Atlântico Sul. Isso não significa que negamos o acesso a qualquer pessoa, mas que se trata de proteger nossa herança. Acredito que uma estratégia está faltando em nossos políticos porque eles ainda não perceberam a importância de nossa posição. O Brasil e a Argentina têm muito mais convergências do que divergências. Precisamos alinhar os interesses comuns e a proteção de nossas soberanias e induzir os países da América do Sul a fazer o mesmo. Temos que deixar claro para o mundo que uma agressão contra um país sul-americano é uma agressão à América do Sul.



  A cooperação militar é um capítulo central nas relações bilateriais argentino-brasileira

- Por que o Senhor acha que a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e o Conselho Sul-Americano de Defesa, do qual o Brasil foi um grande promotor, não prosperou?


Acho que foram iniciativas ideológicas. Temos vivido no Brasil uma tentativa de governar com dogmas ideológicos, que são semelhantes às crenças religiosas, e provavelmente não serão discutidos. Os líderes pensaram que, se não conseguissem explicar a realidade a partir desses dogmas, era porque a realidade estava errada. Tentar governar países tão complexos do ponto de vista econômico e social a partir de posições dogmáticas não funciona. Isso gerou muita  perda de tempo.
 
- Qual é a sua visão do sistema multilateral de tomada de decisões que está sendo discutido atualmente pelas principais potências?

Eu tenho uma posição muito crítica sobre o sistema internacional e seus instrumentos. A ONU vive, em algum momento, sustentada por sua burocracia e pelos interesses dos países que a mantêm. Tornou-se uma criatura tão poderosa que não desaparecerá, mas é possível que perca relevância se não enfrentar uma reforma integral e não se atualizar.
 
- Na época, o Brasil elevou sua ambição para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Essa afirmação ainda está em vigor?

É uma questão difícil de resolver, mas permanece válida. A posição atual do Itamaraty - e eu concordo com isso - é fazer um esforço para manter a questão em discussão. Basta lembrar quantas vezes o Conselho de Segurança foi ignorado em assuntos de sua competência e poderes contra as regras, como aconteceu nos Balcãs e Síria, por exemplo. Se alguém insiste na questão da reforma das instituições da ONU, é possível que algum tipo de mudança na governança internacional seja alcançada.
 

 “Precisamos nos alinhar e defender os interesses comuns da Argentina e do Brasil para proteger nossa soberania e induzir os outros países sul-americanos a fazer o mesmo.”


- Que tipo de complementaridade pode ser dada entre Argentina e Brasil em questões tecnológicas?

Os brasileiros não conhecem a capacidade tecnológica da Argentina. Temos um bloco econômico que precisa ser fortalecido e há questões estratégicas. Por exemplo, temos que decidir como proteger nosso universo cibernético e nos perguntar se vamos contratar proteção estrangeira ou se vamos ter nosso próprio modelo. No desenvolvimento da indústria aeroespacial, as capacidades que têm a INVAP são fantásticas na produção de satélites, mas faltam outras habilidades e infraestrutura que tem o Brasil como o privilegiado Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, ou o desenvolvimento de vetores e o combustível. No setor nuclear, o Brasil estava preocupado com sua capacidade de enriquecer urânio, enquanto a Argentina estava preocupada em agregar valor ao desenvolvimento de reatores. Temos que estabelecer reuniões entre autoridades políticas, que são seguidas de visitas a empresas e centros tecnológicos para que possamos iniciar essa troca de experiências. Isso não vai acontecer no curto prazo, mas você tem que começar assim.


 

INVAP é uma empresa argentina chave para aprofundar os vínculos com o Brasil.


- Em um nível continental, como o Senhor vê o papel das Forças Armadas na luta contra o narcotráfico e o crime organizado?

O crime organizado é a principal ameaça à integridade social de um país. Quando sofremos uma ameaça dessa magnitude, o Estado tem o dever de usar todos os instrumentos à sua disposição e à sua disposição. Cada instituição possui capacidades e talentos que podem ser complementados, e os militares têm capacidade de planejamento, inteligência e logística que a polícia não possui. No Brasil, estamos fazendo um grande esforço para integrar a estrutura do Estado em um nível vertical (municípios, estados, governo federal) e horizontal (com seus vizinhos). Cada país tem sua peculiar estrutura de segurança pública para combater o crime. O importante é que os países sejam capazes de formar plataformas para que essas estruturas se conectem com as estruturas dos países vizinhos. Temos de encontrar soluções que, respeitando as nossas soberanias, sejam eficazes no combate ao crime. Talvez a iniciativa mais forte que pode ser alcançada nesse sentido, considerando as capacidades tecnológicas argentinas e a complementaridade com a Argentina, é construir juntos um sistema de controle de fronteiras. Se pudermos dar um passo como este, estaríamos dando uma grande demonstração para o mundo e para a região.
 

Nota DefesaNet

Não foi mencionado na entrevista as atividades da empresa argentina FAdeA (Ex FMA) no fornecimento de peças em materiais compostos para a aeronave de transporte multimissão KC-390.

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