Pontes Logísticas na Operação Taquari II: 2 anos de operação, ligando o Braço Forte à Mão Amiga

Cap Cadime

No mês de maio do ano de 2024, o estado do Rio Grande do Sul sofreu as maiores enchentes já registradas em mais de 80 anos. Diversos rios na calha do rio Taquari e Jacuí tiveram severo aumento em seus volumes de água, em um espaço de tempo extremamente curto, resultando em vítimas fatais e danos de grande monta à população gaúcha, consequências acompanhadas por todos os brasileiros pelos meios de comunicação.

A natureza causou danos severos à infraestrutura de transportes, deixando-a seriamente danificada. Dessa forma, a ação de socorro às vítimas, entrega de doações e assistência à população de toda natureza se tornou um trabalho hercúleo. Assim, o retorno à normalidade e o começo da reconstrução do Rio Grande encontravam um obstáculo contumaz: estradas e pontes destruídas.

A reconstrução de pontes permanentes obriga um minucioso trabalho para identificar falhas, visando à construção de estruturas com maior resiliência climática. Assim, estruturas permanentes não proporcionavam uma pronta resposta diante da calamidade para mitigar o sofrimento do povo gaúcho, sendo necessária uma solução temporária.

Diante deste panorama, inserido no esforço do Exército Brasileiro na Operação TAQUARI II, o 4º Grupamento de Engenharia, sediado na cidade de Porto Alegre (RS), coordenou o emprego dos meios de pontes de equipagem existente nas suas Organizações Militares de Engenharia Diretamente Subordinadas, sendo elas o 3º Batalhão de Engenharia de Combate sediado em Cachoeira do Sul (RS) e o 6º Batalhão de Engenharia de Combate sediado em São Gabriel (RS).

O 6º Batalhão de Engenharia de Combate foi acionado para realizar a montagem de Pontes Sobre Suporte Flutuantes das equipagens M4T6, veteranas em uso desde a década de 70, tendo tido êxito em restabelecer o tráfego em localidades como Travesseiro, Coqueiro Baixo e Sinimbu, comprovando que mesmo as equipagens de pontes de engenharia com maior idade são plenamente capazes de cumprir sua missão de proporcionar uma travessia segura de um curso d’água obstáculo.

Coube ao 3º Batalhão de Engenharia de Combate a missão de planejar, desdobrar os meios, montar e operar as equipagens de engenharia de pontes biapoiada mais modernas em uso no Exército Brasileiro: as Pontes Logísticas ou Logistic Support Bridge (LSB – Mabey Bridge).

Adquiridas em meados de 2010 para operação pelo Exército Brasileiro por meio de parceria com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT), as Pontes Logísticas LSB são um exemplo perfeito de equipamento, essencialmente de uso dual. É um ativo estratégico em conflitos, no restabelecimento de rotas logísticas, e igualmente tem emprego adequado no socorro a calamidades públicas ao substituir, de maneira temporária, estruturas colapsadas, oferecendo uma alta capacidade de suporte de carga.

Com tais características, as Pontes Logísticas LSB se converteram na solução ideal para restabelecer o trânsito em rodovias de grande fluxo de veículos e carga, proporcionando as melhores condições possíveis no esforço de apoio à população e retorno à normalidade nos dias seguintes à calamidade.

A rodovia RSC – 287 é a principal ligação dentro do Rio Grande do Sul entre a capital Porto Alegre e a cidade de Santa Maria, passando em seu traçado por diversas regiões, especialmente atingidas pelas chuvas e inundações, tendo sido parcialmente destruída. Tal panorama fez com que o restabelecimento desta ligação tivesse alta prioridade. Destacou-se, nesse contexto, a ponte sobre o Arroio Grande, no município de Santa Maria, que colapsou ainda no dia 30 de abril de 2024.

Assim sendo, neste local foi definido o lançamento de uma Ponte Logística LSB, com vão de 60,96 metros (ou 200 pés), maior vão possível para equipagem em operação do Exército Brasileiro na configuração biapoiada, com capacidade de suporte para veículos de até 80 toneladas. Apesar de Cachoeira do Sul, sede do 3º Batalhão de Engenharia de Combate, distar pouco mais de 100 km do local de construção, o comboio com mais de 15 viaturas, sendo destas 8 carretas bitrem com material de ponte, não poderia trafegar pelas estradas severamente danificadas da região, obrigando um itinerário que aumentou o deslocamento, em aproximadamente 3 vezes, a distância mais curta.

É impossível dissociar o fato de que, os militares envolvidos na montagem, eram em sua maioria cidadãos gaúchos, prestando seu serviço militar, ou seja, muitos tinham parentes atingidos pela calamidade. A despeito de terem recebido liberação para apoiar seus entes neste momento de necessidade, se apresentaram de maneira voluntária para permanecer na missão, em um ato de civismo e sentimento de cumprimento do dever, demonstrando os valores mais caros para o Exército de Caxias, em dedicação total ao serviço da Pátria.

Durante a montagem, enfrentaram condições de frio extremo com temperaturas próximas a 0º centígrados e chuva, porém perseveraram, realizando a montagem da ponte em 10 dias de trabalho, no dia 30 de maio de 2024, contribuindo de maneira destacada para restabelecer a ligação entre a Capital e o Coração do Rio Grande, como é conhecida Santa Maria.

Essa mesma tropa realizou ainda a montagem de outra Ponte Logística LSB de igual dimensão sobre o Rio Forqueta, entre os municípios de Arroio do Meio e Lajeado, restabelecendo a ligação dessas duas importantes cidades, trabalho realizado em 7 dias, confirmando o alto nível do adestramento dos militares envolvidos nesta operação.

Hoje, a Ponte Logística LSB sobre o Arroio Grande continua operando, de maneira contínua e ininterrupta há quase 2 anos, demonstrando o alto grau de confiabilidade dos meios de travessia operados pelo Exército Brasileiro, totalizando neste período o número de quase 3 milhões veículos transpostos. Visando melhorar o fluxo de veículos no local, o 5º Batalhão de Engenharia de Combate Blindado, sediado em Porto União (SC), montou uma ponte adicional sobre o Arroio Grande, de igual capacidade e extensão, já totalizando o fluxo de mais de 2 milhões de veículos.

Como forma de honrar os heróis nunca esquecidos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), todas as pontes foram batizadas com nomes de ex-pracinhas: 1ª Ponte sobre o Arroio Grande – Ponte Sargento PIRES; Ponte sobre o Rio Forqueta, entre Lajeado e Arroio do Meio – Ponte Capitão ELMO DINIZ, 2ª Ponte sobre o Arroio Grande – Ponte Cabo TALTÍBIO.

As pontes Sargento PIRES e Cabo TALTÍBIO permanecem materializando no terreno o trabalho da Arma Azul Turquesa, que “lança pontes e estradas, NUNCA falha”, colaborando com a sociedade brasileira e gaúcha, deixando a certeza em cada soldado que ali labutou de que: NÃO VIVEMOS EM VÃO!

*Devido à conclusão da ponte definitiva na RSC-287, as pontes Logísticas LSB lançadas sobre o Arroio Grande em Santa Maria, serão desmontadas em 14 de abril de 2026.

Sobre o autor: O Capitão Thadeu Cadime do Nascimento foi declarado Aspirante a Oficial da Arma de Engenharia pela AMAN em 2014. Realizou o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais da ESAO em 2023. É pós-graduado em Relações Internacionais, Geopolítica e Defesa pela UFRGS. Foi instrutor no Instituto Militar de Engenharia. Possui curso de desminagem e desativação de artefatos explosivos nível 2 pelo Centro de Instrução de Engenharia. Comandou a Companhia de Engenharia de Pontes do 3º BECMB na Op Taquari II. Atualmente, comanda a 2ª Companhia de Engenharia de Combate Mecanizada.

Fonte: EBlogExército Brasileiro

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