EUA, Israel e o Eixo de Resistência: limites do poder militar e resiliência estratégica do Irã

Fabio Benvenutti Castro
General de Divisão da Reserva do Exército Brasileiro
e ex-adido militar na Embaixada do Brasil em Washington, D.C.

A Primeira Guerra Mundial encerrou-se com a vitória militar das potências aliadas, ao custo de perdas humanas sem precedentes. O conflito acelerou transformações tecnológicas, sobretudo no campo militar, e contribuiu para a desestruturação do sistema colonial, além de promover uma redistribuição territorial marcada por fortes assimetrias.

Sob a ótica do Realismo em Relações Internacionais, esse período pode ser interpretado como expressão da competição permanente por poder em um sistema internacional anárquico. Como sustenta John Mearsheimer, os Estados buscam maximizar seu poder relativo como forma de garantir sua sobrevivência. Assim, mesmo derrotados, os Estados preservaram ambições estratégicas e ressentimentos históricos que contribuíram para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Diferentemente do conflito anterior, a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial produziu transformações estruturais profundas nos países derrotados. A rendição incondicional implicou mudanças políticas, econômicas e psicossociais duradouras. À luz de Carl von Clausewitz, esse processo confirma que a guerra é a continuação da política por outros meios: a vitória estratégica só se consolida quando é capaz de impor uma nova ordem política ao adversário.

O pós-guerra inaugurou um sistema internacional bipolar, marcado pela disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Esse arranjo refletiu a lógica do equilíbrio de poder, conceito central do realismo estrutural de Kenneth Waltz. Paralelamente, houve intensa expansão industrial, tecnológica e institucional, com a consolidação de mecanismos multilaterais de governança.

Ainda assim, os conflitos persistiram em escala regional. Em muitos casos, funcionaram como laboratórios para novas doutrinas, tecnologias e formas de emprego da força. Essas experiências anteciparam elementos do que hoje se denomina guerra híbrida: a combinação de meios convencionais e não convencionais, com participação de atores estatais e não estatais, operações informacionais e táticas assimétricas.

No cenário contemporâneo, o Oriente Médio permanece como um dos sistemas regionais mais instáveis do mundo. A interação entre potências regionais, grandes potências externas e atores não estatais amplia a complexidade estratégica. Nesse contexto, a atuação coordenada de Estados Unidos e Israel contra o Irã pode ser interpretada, à luz do realismo ofensivo de John Mearsheimer, como uma tentativa de conter um ator que busca ampliar sua influência regional.

Entretanto, a resposta iraniana evidencia a eficácia de estratégias assimétricas e híbridas diante de uma coalizão tecnologicamente superior. Ao evitar o confronto direto, Teerã adotou uma estratégia de desgaste progressivo, combinando capacidades convencionais limitadas com o emprego indireto de redes de aliados e atores não estatais.

Essa lógica encontra respaldo em Sun Tzu, especialmente no princípio de que a forma suprema de vencer consiste em neutralizar o inimigo sem recorrer ao confronto frontal, explorando vulnerabilidades e impondo custos crescentes ao longo do tempo.

A superioridade tecnológica da coalizão ocidental não se converteu, até o momento, em vitória decisiva. Isso revela os limites do poder militar convencional quando dissociado de objetivos políticos claramente alcançáveis. Clausewitz já advertia que o êxito na guerra depende da coerência entre meios, fins e vontade política — condição que não se mostra plenamente presente no caso em análise.

Além disso, o elevado custo operacional e o desgaste político interno, especialmente em democracias, reforçam as limitações estruturais de campanhas prolongadas. O apoio doméstico, a percepção de custos humanos e a pressão da opinião pública afetam diretamente a capacidade de sustentação estratégica e de projeção de poder.

A estratégia baseada predominantemente no emprego de poder aéreo, sem a correspondente capacidade ou disposição para projeção terrestre em larga escala, mostra-se insuficiente para produzir mudança de regime — objetivo que, em muitos casos, é condição necessária para uma vitória estratégica plena.

No caso iraniano, a resiliência do regime decorre não apenas de sua capacidade militar, mas também de sua base ideológica, institucional e de sua arquitetura regional de influência. Isso reforça a centralidade da dimensão política da guerra e demonstra que a destruição de capacidades militares, por si só, raramente é suficiente para alterar a lógica de poder de um adversário resiliente.

O conflito caminha, portanto, para um cenário de impasse estratégico. Nesse quadro, os custos tendem a crescer de forma assimétrica para todos os atores envolvidos, com impactos que transcendem o plano militar. O risco de perturbação em pontos críticos, como o Estreito de Ormuz, amplia os efeitos sistêmicos do conflito, sobretudo nos campos energético e econômico.

A experiência histórica dos grandes conflitos do século XX sugere que vitórias militares incompletas tendem a preservar tensões estruturais e a adiar novos ciclos de instabilidade. Transformações profundas exigem elevado grau de comprometimento político, econômico e militar — algo cada vez mais difícil de sustentar em sociedades abertas, sensíveis a custos humanos, econômicos e reputacionais.

Diante desse quadro, a possibilidade de uma derrota decisiva do Irã acompanhada de mudança de regime parece limitada. Por outro lado, a capacidade de resistência demonstrada por Teerã tende a reforçar sua posição relativa no sistema regional, em consonância com a lógica do realismo ofensivo.

O cenário mais provável, neste momento, aponta para tentativas de recomposição de um novo equilíbrio regional, ainda que instável. A principal incógnita reside em saber se o Irã buscará apenas preservar sua posição ou se tentará transformar sua resiliência em capital estratégico para ampliar sua projeção regional e internacional.

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