UJTS: a nova guerra começa na formação do piloto naval

O Leonardo M-346 Master Foto – Leonardo

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

A abertura da concorrência para o Undergraduate Jet Training System (UJTS) pela Marinha dos Estados Unidos não representa apenas a substituição de aeronaves de treinamento — trata-se de uma inflexão estrutural na forma como o poder aéreo é concebido, gerado e sustentado.

O pedido de propostas, emitido pelo U.S. Department of Defense, estabelece um prazo até 29 de junho de 2026 e inaugura uma disputa que transcende a plataforma aérea: o foco desloca-se para a arquitetura cognitiva e digital do treinamento.

Da aeronave ao ecossistema

A premissa central do UJTS é inequívoca: não é mais possível formar pilotos de quinta geração com métodos de quarta geração.

O programa prevê um sistema integrado que articula:
• Aeronaves de treinamento avançado
• Simulação de alta fidelidade (live, virtual, constructive – LVC)
• Ambientes digitais imersivos
• Integração com redes operacionais reais

Essa abordagem reflete uma mudança epistemológica no treinamento: o piloto deixa de ser apenas um operador de plataforma e passa a ser um gestor de sistemas em rede, inserido em um ambiente de combate distribuído.

O desafio do F-35 e da guerra em rede

O vetor mais evidente dessa transformação é o F-35 Lightning II, cuja lógica operacional redefine a própria natureza da pilotagem.

No F-35, o piloto não “voa” no sentido clássico — ele:
• Interpreta fusão de sensores em tempo real
• Atua como nó em uma rede de dados táticos
• Coordena efeitos em múltiplos domínios
• Gerencia automação avançada sob alta carga cognitiva

Esse paradigma torna obsoleta a formação baseada exclusivamente em horas de voo. O treinamento passa a ser, sobretudo, um processo de adaptação cognitiva e sistêmica.

Os principais concorrentes

A disputa pelo UJTS tende a se estruturar em torno de três eixos industriais principais, cada um representando uma filosofia distinta de treinamento:

Boeing T-7A Red Hawk

Desenvolvido pela Boeing em parceria com a Saab AB, o T-7A representa a aposta mais avançada em termos de engenharia digital.

Pontos-chave:
• Projeto concebido integralmente em ambiente digital (model-based engineering)
• Arquitetura aberta, facilitando atualizações
• Forte integração com sistemas de treinamento virtual
• Já selecionado pela Força Aérea dos EUA

Limitação potencial:
Adaptação ao ambiente naval (operações embarcadas e requisitos específicos da Marinha) ainda é um ponto de atenção. Não possui versão de combate desenvolvida, sendo “treinamento puro”. Além disso o projeto enfrenta uma série de dificuldades técnicas e de engenharia que estão atrasando sua produção em série e entrada em serviço. Tem o maior custo de aquisição e operação entre os concorrentes e não possui nenhum cliente de exportação.

Leonardo M-346 Master

Produzido pela Leonardo S.p.A. Na Itália e promovido nos EUA pela Beechcraft o M-346 é atualmente uma das plataformas de treinamento mais consolidadas no mercado internacional, sendo a principal plataforma de treinamento Fase 4 da OTAN na Europa. A plataforma já possui uma versão de combate desenvolvida e operacional, o M-346FA.

Pontos-chave:
• Sistema de treinamento já operacional e exportado
• Forte capacidade de simulação embarcada (embedded tactical training)
• Ecossistema maduro e comprovado com menor custo de aquisição e operação.

Limitação potencial:
Velocidade máxima de apenas 1,2 Mach (1.482 km/h)

KAI T-50 / FA-50 Golden Eagle

Desenvolvido pela Korea Aerospace Industries em cooperação com a Lockheed Martin, o T-50 combina treinamento com capacidade de combate leve.

Pontos-chave:
• Forte proximidade conceitual com caças operacionais
• Ampla base de usuários internacionais

Limitação potencial:
Menor ênfase em ambientes de treinamento puramente digitais e integrados em rede. A aeronave possui menor autonomia entres os concorrentes.

Mais que desempenho: a guerra das arquiteturas

O fator decisivo do UJTS não será necessariamente a performance aerodinâmica ou velocidade máxima, mas sim a capacidade de cada concorrente de oferecer uma arquitetura integrada de formação, onde:
• Simulação substitui parcialmente o voo real e o pouso a bordo.
• Dados operacionais alimentam o treinamento
• O piloto é inserido em redes táticas desde as fases iniciais

Nesse sentido, a competição desloca-se do domínio industrial clássico para o campo da engenharia de sistemas e da ciência cognitiva aplicada.

Implicações para o Brasil

Embora o programa seja americano, seus efeitos tendem a irradiar globalmente — inclusive para o Brasil.

A Embraer, que já participa de programas de treinamento e possui experiência com aeronaves como o A-29 Super Tucano, pode encontrar oportunidades indiretas:
• Parcerias em sistemas de treinamento
• Inserção em cadeias logísticas e de suporte
• Transferência de conceitos para programas nacionais

Além disso, a evolução do treinamento nos EUA tende a influenciar futuras decisões da Força Aérea Brasileira, especialmente no contexto da operação do Saab JAS 39 Gripen.

O piloto como sistema

O UJTS cristaliza uma mudança fundamental: o piloto deixa de ser o elemento central isolado e passa a ser parte de um sistema distribuído de combate.

Treinar, nesse contexto, já não significa ensinar a voar — significa ensinar a operar dentro de uma rede de guerra.

E, como demonstra essa concorrência, a vitória futura começa muito antes do primeiro disparo: ela se constrói na arquitetura invisível da formação.

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