COBERTURA ESPECIAL - Guerra Informação e Híbrida - Pensamento

29 de Novembro, 2020 - 20:00 ( Brasília )

Gen Ex Pinto Silva - O Brasil e o Antagonismo Internacional




O BRASIL E O ANTAGONISMO INTERNACIONAL



Carlos Alberto Pinto Silva[1]

 
1. GENERALIDADES

A luta pelo Poder continua real e verdadeira no nosso mundo globalizado. Poder geopolítico das nações pressupõe potenciais econômico e estratégico militar. Países se movimentam conforme seus interesses e obtém sucesso em função de sua capacidade e vontade de exercer Poder.

Nas relações internacionais a função do Poder é fazer prevalecer o interesse nacional de um Estado sobre o dos outros. 

Como exemplo, citamos a existênciade dois consensos fundamentais, na elite americana, seja Republicana ou Democrata.

“Os EUA trabalham para manter sua liderança econômica e militar dentro do sistema mundial, [2] e não podem deixar de financiar a expansão global permanente da infraestrutura indispensável ao exercício do poder.”

É possível divagar que a estratégia americana seja a de desconstrução dos velhos parâmetros ideológicos e de questionamento das antigas alianças e lealdades, sem considerar que o sucesso ou o fracasso de um Estado é determinado pela sua habilidade em fortalecer alianças e fazer amigos.

De acordo com Hal Brands, o “conflito na zona cinza é uma atividade coercitiva e agressiva por natureza, mas deliberadamente concebida para permanecer abaixo dos limites de um conflito militar convencional”. Ou seja, “a Zona Cinza se caracteriza por uma intensa competição política, econômica, informacional e militar, mais acirrada que a diplomacia tradicional, porém inferior à guerra convencional”.

Os EUA usam sanções econômicas e atividades militares não sinérgicas como a vanguarda dos “conflitos de coexistência”. Estes conflitos são permanentes, embora permanecendo subjacentes, notadamente em tempo de crise, mas também em tempo de paz.

É o uso inteligente da gama completa de ferramentas à disposição de uma Nação, um jogo de três padrões de Poder ou três tabuleiros de disputa política internacional, e a combinação e integração deles, para cada situação [3]:

     -  Poder Militar (Unipolar/ Hegemônico).
     -  Poder Econômico (Multipolar).
    - Poder Difuso (Atores não estatais e novos problemas transnacionais: pequenos grupos com grande poder e lealdade sega a causa, terrorismo, crime organizado com objetivos políticos, proliferação de armas de destruição em massa).

Em matéria de Relações Internacionais os atores são múltiplos, não os considerar pode conduzir a um “paradoxo”: um sucesso com sanções econômicas, com o uso de medidas militares não cinéticas ou a coerção militar direta pode acarretar uma derrota final, ele pode ser suscetível de gerar novos inimigos e então inverter o balaço de potencial.

Portanto, não é somente “O outro”, mas sobretudo “Os outros” que a grande estratégia deve levar em conta. É preciso desencorajar o opositor, e não o levar à radicalização. É preciso manter os neutros na sua neutralidade, ou mesmo tentar fazê-los aliados, mais jamais inimigos. É preciso reforçar a fidelidade dos aliados. Ações diplomáticas podem ter sobre os “outros” efeitos psicológicos tão importantes quanto das armas, ações psicológicas, ou sanções econômicas.

Com isto entende-se a grande estratégia deverá ter efeitos psicológicos convincentes sobre os dirigentes de outros Estados, que concentram a vontade e a inteligência das nações que representam, a fim de que eles não façam, ou não façam mais, obstáculos à realização do nosso projeto político.

2. BRASIL – UMA ESTRATÉGIA DE SUPERAÇÃO

O surgimento de uma potência regional emergente, como o Brasil, é sempre um fator de desestabilização, insatisfação e reação do sistema mundial, porque sua ascensão ameaça o monopólio das potências estabelecidas.

Nesse possível enfrentamento o Brasil deve adotar “A Estratégia Indireta”."Aprendamos a sobreviver na 'paz' e a salvar o que dela nos resta. Aprendamos a estratégia indireta."[4]

O método indireto usa qualquer uma das Ferramentas à disposição do Poder Nacional, à exceção do militar, para persuadir ou coagir o adversário a aceitar uma solução do conflito; a Expressão Militar contribui de forma complementar, já que o Poder Nacional é indivisível.

Basicamente emprega Conflito na Zona Cinza:

 

- Persuasão - Meios Diplomáticos e Jurídicos;

- Coerção - Meios Políticos, Econômicos e Psicossociais.
 

A Estratégia Indireta é: "A arte de saber explorar, ao máximo, a estreita margem de liberdade de ação que escapa da dissuasão pelas armas e conseguir sucessos decisivos, apesar da limitação, por vezes extrema, dos meios militares que podem ser empregados."

É preciso uma linha política ofensiva.É necessário notar que uma linha política defensiva teria um fraco valor de dissuasão, porque a chave da dissuasão é a aptidão de reagir a ameaça.

Outro elemento do prestígio dissuasório é estabelecer a credibilidade da nossa capacidade e vontade de agir, economia forte e posse de uma doutrina militar dinâmica, portanto rejuvenescida, poderá conduzir a um bom resultado.

A reação do Brasil deve ser rigorosamente calculada.Pode, como gesto de advertência, exercer uma ação progressiva quando perceber uma grande necessidade de estabelecer uma reputação de país que se mostra firme e decidido na defesa de seus interesses nacionais de segurança, mantendo, contudo, a estabilidade de crise.

Enfim, o prestígio resulta, em parte, do respeito que se pode inspirar. Sobretudo com relação às nações do NORTE, a "cara" representa um papel considerável.

3. CONCLUSÃO

A principal preocupação estratégica do Brasil é, inexoravelmente, relacionada à economia.A capacidade interna do país de conseguir realizar as mudanças estruturais necessárias, e o crescimento econômico permitirão o aumento de dois dos padrões de Poder (Militar e Econômico).

A correta execução de ações de interesse nacional e global, será, também, fator positivo na construção de uma política externa brasileira autônoma de potência regional.

A busca pelo Brasil por mais autonomia nas relações internacionais deve ter em conta seus interesses estratégicos e não pode prender se as estratégias geopolíticas de outros Estados, com o risco de comprometer seu objetivo precípuo qual seja, o aumento da autonomia na sua inserção política internacional.

 

 

[1] Carlos Alberto Pinto Silva / General de Exército da reserva / Ex-comandante do Comando Militar do Oeste, do Comando Militar do Sul, do Comando de Operações Terrestres, Ex-comandante do 2º BIS e da 17ª Bda Inf Sl, Chefe do EM do CMA, Membro da Academia de Defesa e do CEBRES.
 
[3] Joseph S. Nye, Jr.
[4] André Beaufre.
 

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