18 de Julho, 2014 - 20:50 ( Brasília )

Geopolítica

A ofensiva terrestre de Israel em Gaza pode beneficiar o Hamas?


A ofensiva terrestre de Israel contra a Faixa de Gaza pode ser uma oportunidade para o Hamas em vez de uma má notícia, porque o grupo militante palestino pode recuperar o protagonismo político e regional que havia perdido.

No início de 2011, o Oriente Médio passou por revoluções populares e guerras civis que levaram a mudanças no poder, novas alianças regionais, esperanças democráticas e matanças fratricidas.

O período foi chamado de "Primavera Árabe", mas, para o Hamas, a primavera durou pouco, e o inverno foi complicado.

O primeiro passo equivocado do Hamas ocorreu na Síria. Quando as reformas políticas na região causaram levantes de grupos sunitas contra o presidente alauíta (grupo do islã xiita) Bashar al-Assad, o Hamas não apoiou o governo sírio, apesar de sua liderança em exílio ter sido acolhida por Damasco.

Isso teve um custo para o grupo. Além de ter de abandonar a capital síria em 2012, os recursos de auxílio dados mensalmente pelo Irã a Gaza foram reduzidos, já que Teerã é o principal aliado internacional de Assad.

'Mal-entendido'

O correspondente da BBC em Jerusalém, Kevin Connolly, estimou que o grupo chegou a receber por mês algo em torno de US$ 20 milhões do Irã, dinheiro que pagava parte da estrutura administrativa na Faixa de Gaza.

Mas em conversas com o jornal The Guardian no início de 2014, Taher al-Nounou, assessor do primeiro-ministro de Gaza, Ismail Haniyeh, disse que as relações entre ambas as partes já não estavam mais tão distantes.

"Recentemente, o Irã se deu conta que o Hamas não estava contra o país nem o regime sírio. Entenderam que apenas queríamos ser neutros. Foi um mal-entendido", disse Al-Nounou.

Para Israel, trata-se de algo mais do que uma aproximação. No início de março deste ano, Israel informou que havia interceptado no Mar Vermelho um navio de carga com mísseis iranianos para armar o Hamas em Gaza.

Quando começaram a cair foguetes no território israelense, em julho, o embaixador israelense em Washignton disse que o "Irã continuava fazendo todo o possível para levar mísseis a Gaza".

Mas, como informa Connolly, a redução da ajuda econômica iraniana ao Hamas não foi problemática enquanto a Irmandade Muçulmana e seu íder, Mohamed Morsi, governavam o Egito, uma primavera que não durou muito para os militantes palestinos.

Isolamento crescente

Morsi foi o maior aliado do Hamas até ser deposto do cargo. Ele chegou ao poder em 2012, nas primeiras eleições democráticas egípcias depois de Hosni Mubarak ser derrubado pelos protestos populares.

Durante o ano em que ficou no poder, a Irmandade Muçulmana apoiou abertamente o Hamas: a fronteira entre a Península do Sinai e Gaza permaneceram abertas, e o fluxo de bens e armamentos pela rede de túneis de contrabando entre os dois territórios mal foi interrompido.

Por isso, não foi uma surpresa quando, em novembro de 2012, o governo egípcio liderado por Morsi teve um papel fundamental no cessar-fogo acertado entre Israel e o Hamas, durante a segunda ofensiva militar isaraelense sobre esse território.

Em contraste, no começo desta semana, quando o Egito propôs um cessar-fogo, o comando do Hamas disse que ninguém havia entrado em contato com eles diretamente.

O golpe de Estado contra o governo da Irmandade Muçulmanda levou ao fim dessa aliança, ao fechamento quase permanente da fronteira de Rafah e a um agressivo policiamento dos túneis pelos quais bens e armamentos eram transportados para Gaza.

O fechamento dos túneis não apenas provocou escassez de materiais de construção e combustível em Gaza, como também custou ao Hamas uma de suas principais fontes de financiamento: os impostos cobrados do contrabando.

O Hamas ficou tão isolado regionalmente e com tantos problemas econômicos que, em maio, aceitou um acordo de reconciliação com o Fatah sem conseguir em contrapartida colocar algum de seus líderes no novo governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP).

A únião dos fracos

uando as duas facções palestinas majoritárias voltaram a ser aproximar, após sete anos de conflito, analistas internacionais consideraram o acordo uma tábua de salvação para dois grupos debilitados.

Fatah, o partido do presidente da ANP, Mahmoud Abbas, havia sofrido um duro golpe com a paralisação das negociações de paz com Israel e por não conseguir impedir o avanço dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, o único território palestino sob seu controle depois da disputa com o Hamas.

Mas o grupo que governava a Faixa de Gaza não estava em uma situação melhor.

Quando suas fontes de renda foram cortadas, o Hamas buscou, ao se aproximar do Fatah - segundo o analista Elliott Abrams, do Conselho de Relações Internacionais da União Europeia -, que a ANP assumisse os salários dos cerca de 50 mil funcionários públicos em Gaza, "porque seus próprios recursos já não eram suficientes para fechar a conta".

Nas mãos do Egito

Agora, tanto o Fatah como o Hamas dependem do Egito para conseguir um cessar-fogo com Israel, mas, para o grupo islâmico, isso é uma boa notícia.

"Poucos duvidam que o governo do Egito queria ver o Hamas ser esmagado, como fizeram com a Irmandade Muçulmana", informou a correspondente da BBC no Cairo, Orla Guerin.

Mas, acrescenta Guerin, o Egito não pode lavar as mãos quanto ao Hamas: "Se alguém mais conseguir chegar a um acordo sem a participação do Egito, será um revés para o prestígio do seu novo presidente, Abdul Fattah al-Sisi".

Os bombardeios israelenses contra Gaza e as imagens de desolação e morte entre a população civil deste território fizeram crescer a solidariedade árabe com o Hamas.

Agora, a ofensiva terrestre cria uma oportunidade de o Hamas mostrar-se como a única facção árabe que combate de fato Israel, uma imagem que sempre teve um grande valor emocional na região, das ruas do Egito até as de Teerã.



ÚLTIMAS

Geopolítica

MAIS LIDAS