O Carro de Combate Médio 120 mm: A Solução Racional para Substituir o Leopard 1A5

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

A substituição dos Carros de Combate Leopard 1A5 do Exército Brasileiro deixou de ser um debate conceitual para tornar-se uma necessidade objetiva e imediata. Incorporados no final da década de 2000, esses carros de combate preservaram a capacidade blindada pesada nacional, mas continuam sendo uma plataforma concebida nos anos 1960, com limitações estruturais inerentes ao projeto original e um horizonte logístico progressivamente mais restrito.

O mercado internacional de peças sobressalentes tornou-se extremamente limitado, sobretudo após a transferência de grande parte das unidades remanescentes para a Ucrânia, que passou a ter prioridade logística. Mesmo naquele teatro, observa-se escassez de componentes para um veículo produzido há mais de seis décadas.

O debate, portanto, não se resume à substituição de um blindado antigo, mas à definição do modelo de força blindada que o Brasil pretende sustentar nas próximas três décadas. Entre a aquisição de um MBT pesado de 60 a 70 toneladas e a adoção de um carro de combate médio moderno equipado com canhão 120 mm, a segunda alternativa apresenta-se como a solução mais coerente com a realidade econômica, operacional e estrutural do país.

Do ponto de vista econômico, a escolha de um MBT pesado implica custos elevados não apenas de aquisição, mas principalmente de ciclo de vida. O consumo de combustível é maior, a manutenção mais complexa, há necessidade de transporte especializado e de infraestrutura reforçada, elevando significativamente o custo operacional e logístico. Um carro de combate médio na faixa de 45 toneladas, armado com canhão 120 mm, alma lisa, padrão OTAN, oferece poder de fogo equivalente com menor impacto orçamentário e maior sustentabilidade ao longo do tempo.

Sob a ótica operacional, o Brasil não enfrenta cenário de guerra convencional de alta intensidade com grandes formações blindadas adversárias. O desafio estratégico nacional está na mobilidade em território continental, com malha rodoviária heterogênea, pontes com limitações de carga e extensas áreas de difícil acesso. Um blindado médio proporciona maior mobilidade estratégica e tática, reduz o desgaste da infraestrutura civil e amplia a flexibilidade de emprego em diferentes regiões do país.

A dimensão logística é igualmente decisiva. A introdução de um MBT pesado exigiria investimentos adicionais em viaturas-prancha especializadas, reforço de pontes militares, adequação de parques de manutenção e ampla revisão doutrinária. Já uma solução média exige menor adaptação estrutural e permite uma transição mais racional, com impacto orçamentário controlado.

Entretanto, o debate não deve se limitar ao carro de combate isoladamente. O Exército precisa pensar em uma plataforma comum para sua futura família de blindados médios. A substituição do CC Leopard 1A5 — que, pelo seu peso, já se enquadra na categoria de blindado médio — deve estar integrada à evolução do futuro Veículo Blindado de Combate de Fuzileiros. A adoção de uma base veicular comum, com compartilhamento de motorização, sistemas eletrônicos e eletro-ópticos, arquitetura digital e componentes logísticos, reduz custos, simplifica o treinamento e aumenta a disponibilidade operacional.

Nesse contexto, uma solução economicamente inteligente e tecnologicamente moderna seria equipar o carro de combate médio com a mesma torre Hitfact II que já equipa o Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Centauro II BR. A padronização traz vantagens claras: comunalidade logística de munições e sistemas de controle de tiro, sensores compartilhados, procedimentos de manutenção comuns e simplificação doutrinária. Operadores e mecânicos passam a trabalhar com arquitetura semelhante, facilitando formação e intercâmbio de pessoal. Além disso, a produção da Hitfact II no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro (AGRJ) amplia a escala, facilita a nacionalização de componentes e fortalece a Base Industrial de Defesa.

Fato relevante é que os avanços na eficiência dos freios de boca e sistemas de recuperação do recuo da massa do canhão permitem que viaturas na categoria de 40 toneladas sejam equipadas com armas como o canhão OTO Melara 120/45 LRF, alma lisa.

Abaixo fotos dos dois principais competidores para o Xarro de Combate Médio O turco Tulpár da empresa Otokar e o Sueco-Britânico CV90120 da BAS Systems apresentado na LAAD 2025.

Carro de Combate Médio TULPAR equipado com a torre HITFACT II

O CY90120 apresentado na LAAD 2025 pela BAE Systems

A Hitfact II oferece arquitetura digital aberta, sensores estabilizados de última geração, integração com sistemas de comando e controle e capacidade de empregar munições modernas 120 mm. O canhão da família OTO Melara 120/45 LRF, alma lisa, derivado do 120/44 que equipa o CC C1 Ariete, confere poder de fogo equivalente ao de carros de combate principais contemporâneos, sendo compatível com munições padrão OTAN de última geração, como APFSDS-T, HEAT-MP-T, MPAT, HE-OR-T, canister antipessoal e alto explosivo programável.

A capacidade da IMBEL de fabricar munições 120 mm reforça a autonomia logística e tecnológica nacional. Ao utilizar a mesma torre tanto no Centauro II quanto em um futuro carro de combate médio sobre lagartas, o Exército criaria um núcleo blindado moderno, interoperável e economicamente sustentável. Em vez de dispersar recursos em múltiplas soluções com cadeias logísticas distintas, concentraria investimentos em um ecossistema comum, aumentando eficiência, disponibilidade e previsibilidade orçamentária.

A substituição do CC Leopard 1A5 não deve buscar apenas maior tonelagem ou blindagem superior. Deve buscar equilíbrio entre poder de fogo, mobilidade, custo e integração de sistemas. A guerra contemporânea valoriza conectividade, consciência situacional, precisão e sustentabilidade tanto quanto massa bruta. Para o Brasil, a solução mais eficiente não é o MBT mais pesado disponível no mercado, mas o sistema que melhor combine capacidade operacional com viabilidade econômica dentro da estrutura de uma única Força Blindada.

A escolha é estratégica. Um carro de combate médio 120 mm, com torre Hitfact II, integrado a uma plataforma comum com a futura Viatura Blindada de Combate de Fuzileiros (VBC Fuz), não representa uma solução intermediária. Representa uma solução madura, moderna e alinhada à realidade geográfica, operacional e econômica brasileira.

Nota

Recomendamos a leitura de Editorial publicado em 2022, que traz detalhes sobre as capacidades específicas e detalhes da metalurgia do canhão OTO Melara 120/45 LRF, alma lisa,

Editorial Centauro II 120mm a Realidade do Futuro Hoje

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