COBERTURA ESPECIAL - Expansão Chinesa - Geopolítica

15 de Agosto, 2020 - 15:00 ( Brasília )

Xi Jinping acelera reformas para fortalecer mercado interno na China

Guerra comercial com os EUA fez país enfrentar dependência tecnológica

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Valor Econômico


Por décadas, Pequim abraçou investimentos estrangeiros e exportações para fortalecer a economia chinesa. Agora, com o mundo em recessão e as relações com os Estados Unidos se deteriorando, o presidente Xi Jinping está lançando uma importante iniciativa para acelerar uma mudança já em andamento e colocar o mercado doméstico no foco. As reformas ganharam sentido de urgência à medida que empresas chinesas, como a Huawei e a ByteDance, dona do TikTok, enfrentam resistência nos mercados estrangeiros, disseram autoridades chinesas.

Em uma série de discursos para integrantes do alto escalão do governo desde maio, Xi apresentou uma nova estratégia, traduzida como "circulação doméstica", para priorizar o consumo interno e as empresas chinesas como principais motores de crescimento do país. Os investimentos e tecnologias do exterior, embora ainda desejáveis, assumiriam papéis de coadjuvantes.

Ainda faltam detalhes da iniciativa, e a noção de fortalecer o mercado doméstico chinês já existe há algum tempo. Mas, como acontece com muitos slogans promovidos pela cúpula do governo, o novo modelo de desenvolvimento de Xi busca orientar legisladores e líderes locais a iniciar mudanças significativas.

O objetivo é tornar a China muito menos dependente de empresas, tecnologias e mercados estrangeiros, embora isso não seja fácil, especialmente em um momento em que empresários não estão dispostos a investir e as famílias estão cortando seus gastos. Detalhes das reformas, dizem autoridades chinesas, são reveladas em uma reunião com 370 oficiais do Partido Comunista em outubro. O encontro discutirá os planos econômicos para os próximos cinco anos, a partir de 2021.

 

Por trás dos planos está uma percepção em Pequim de que as relações tensas com grande parte do mundo desenvolvido vieram para ficar. A guerra comercial com os EUA, promovida por Donald Trump, fez a China despejar recursos em laboratórios de pesquisa, universidades e empresas, para reduzir a dependência tecnológica do país.

Embora as mudanças tenham ajudado um pouco, elas ainda não são suficientes, disseram as autoridades. A política de "circulação doméstica", portanto, expandiria esse impulso para outros setores, inclusive incentivando consumidores chineses a comprar mais produtos que o país tradicionalmente exporta.

As reformas são vistas como cada vez mais necessárias à medida que empresas chinesas são pressionadas pelos EUA e excluídas dos mercados estrangeiros. A Casa Branca ameaçou proibir os aplicativos TikTok, da ByteDance, e WeChat, da Tencent. Por causa das sanções americanas, a Huawei alertou na semana passada que está ficando sem chips para fazer processadores que equipam seus smartphones e pode ter que suspender a produção de chips mais avançados.

A pandemia de covid-19, por sua vez, fez com que muitos países reavaliassem a dependência dos fornecedores chineses. Alguns governos, como o do Japão, lançaram políticas para que empresas transferissem suas operações para outros lugares.

Uma pesquisa realizada em março pelo UBS Group com empresas japonesas, coreanas e taiwanesas que produzem na China revelou que 85% já haviam se mudado ou pretendiam transferir parte de sua produção para fora da China.

Para Zhang Ming, economista da Academia Chinesa de Ciências Sociais, um think-tank do governo, a ênfase no mercado doméstico mostra que Pequim "não está otimista em relação ao ambiente externo no médio prazo".

Mais políticas voltadas para o público interno provavelmente farão com que as empresas estrangeiras — que já enfrentam restrições no acesso ao mercado e pressão para transferir tecnologias para a China — se sintam menos bem-vindas. Mas Pequim calcula que o enorme mercado doméstico será suficiente para convencê-las a continuar apostando no país.

De acordo com uma nova pesquisa do Conselho Empresarial EUA-China, 83% das mais de 100 empresas dos setores de manufatura, serviços, energia e agricultura colocam a China como a primeira ou entre as cinco principais prioridades para suas estratégias globais.

O vice-premiê, Liu He, lidera o desenvolvimento do novo modelo de Xi, segundo as autoridades. Ele é o homem de referência do presidente chinês para políticas econômicas e principal negociador comercial com Washington.

Um leal integrante do Partido Comunista que também tem uma reputação pró-mercado entre seus colegas ocidentais, Liu defendeu, nos últimos anos, políticas que pressionaram algumas empresas privadas a controlarem a produção excessiva de aço e outros materiais. Como resultado, estatais menos inovadoras e competitivas foram beneficiadas.

Agora, porém, Liu parece estar tentando usar a nova agenda de desenvolvimento endossada por seu chefe para realizar mudanças que não seriam possíveis antes, dizem as autoridades. Uma das medidas, por exemplo, seria aumentar o crédito para empresas privadas. Mas ele precisa equilibrar esse desejo com a necessidade de aderir ao controle do Estado defendida por Xi.

O vice-premiê instruiu o órgão chinês equivalente a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a acelerar os planos para tornar os mercados de ações do continente uma fonte mais viável de financiamento para as empresas do país, especialmente as de tecnologia.

Mais IPOs, como a da Semiconductor Manufacturing Internacional, estão sendo planejadas. A fabricante de chips, com sede em Xangai, que teve sua oferta pública inicial aprovada pelos reguladores em dias, não em meses, e viu suas ações subirem mais de 200% no mês passado na STAR, a resposta chinesa à Nasdaq.

Liu também se envolveu em um plano para conseguir que vários níveis do governo identificassem o que as autoridades chamam de pontos de estrangulamento: empresas e setores que correm risco de colapsar caso sejam alvo de sanções dos EUA. Aqueles considerados especialmente vulneráveis poderiam obter mais financiamento público para pesquisa e desenvolvimento, uma ajuda que também seria repassada a empresas privadas.

Dan Wang, analista da Gavekal Dragonomics, disse que empresas chinesas como SMIC, HiSilicon, uma subsidiária da Huawei, e Yangtze Memory Technologies, obtiveram "ganhos confiáveis" no projeto e fabricação de chips no ano passado. A SMIC, disse ele, está a cerca de cinco anos de conseguir o processo de fundição mais avançado do mundo.

No último dia 4 de agosto, o Conselho de Estado da China publicou uma nova diretriz prometendo cortes de impostos e novos apoios financeiros para fabricantes de chips e desenvolvedoras nacionais de softwares.

A China também reduziu sua dependência de países estrangeiros de outras maneiras. As exportações foram responsáveis por 18% do PIB no ano passado, um percentual muito menor do que o registrado no passado, embora isso tenha ocorrido, em grande parte, devido ao aumento no padrão de vida dos chineses, o que aumentou os gastos internos.

Para se manter por conta própria, dizem economistas, a China precisa elevar a renda da população, incentivar as empresas privadas e promover outras mudanças estruturais. No entanto, os esforços para reforçar o setor privado são contrários à meta de Pequim de expandir as estatais, a base do governo.

"Xi tornou imperativo deixar o setor estatal maior, mais forte e melhor", disse um funcionário chinês envolvido na formulação de novas políticas. "Isso nunca vai mudar". A maior prioridade, por enquanto, é reviver o crescimento depois de quase paralisação econômica causada pela pandemia. Os políticos chineses têm se voltado para o velho manual de aumentar os gastos em projetos de infraestrutura, especialmente as redes 5G.

Há mais, não menos, ênfase no fortalecimento do setor estatal, à medida que o governo busca criar mais campeãs nacionais para competir com os EUA.

Na mais recente dança das cadeiras no governo, Xiao Yaqing, ex-regulador-chefe de grandes empresas estatais, foi nomeado para o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, o órgão chinês que compete com os EUA na corrida pela inovação.

Em uma reunião realizada em julho com líderes empresariais, Xi disse que o crescimento das empresas chinesas deve motivar novos confrontos com os EUA.

"Devemos formar gradualmente um novo padrão de desenvolvimento com a 'circulação doméstica' como o corpo principal", disse o presidente chinês.


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