A escalada que desafia a OTAN pode ocorrer antes de uma guerra aberta

Avaliação da inteligência dinamarquesa aponta para sabotagem, ciberataques e possível emprego limitado da força contra países aliados. O desafio europeu será identificar a origem de cada incidente e responder com rapidez sem permitir que a ambiguidade fragilize a defesa coletiva.

Redação DefesaNet

(RDN) A ameaça de Dmitri Medvedev (foto capa) de que a Lituânia poderia “desaparecer do mapa” recoloca a defesa coletiva da OTAN no centro da pressão russa sobre a Europa. Feita em 11 de setembro, a declaração foi condicionada à possibilidade de instalação de armas nucleares em território lituano.

O vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia também afirmou que os demais aliados não defenderiam o país. Trata-se de retórica coercitiva, não de anúncio de uma operação militar nem de evidência de que tal instalação esteja decidida. Seu objetivo político, contudo, é claro: lançar dúvidas sobre a resposta da Aliança a uma agressão contra um de seus membros.

A avaliação publicada em 24 de setembro pelo Serviço de Inteligência de Defesa da Dinamarca descreve um risco imediato de natureza distinta. O órgão prevê mais sabotagens e ciberataques russos contra países ocidentais e classifica como baixo, porém crescente, o risco de um ataque militar limitado contra membros da OTAN vizinhos da Rússia.

Ao mesmo tempo, afirma não ver indícios de preparação para uma invasão ampla no horizonte imediato. A combinação entre ameaça verbal extrema e possíveis ações de alcance restrito constitui o eixo estratégico desta crise.

Lituânia: uma ameaça dirigida à credibilidade do Artigo 5.º

A referência de Medvedev à Lituânia tem importância além da disputa sobre armas nucleares. Ao afirmar que o Artigo 5.º não funcionaria, ele procura atingir a expectativa de que uma agressão contra um aliado receberá resposta dos demais. Pelo tratado, um ataque armado contra um membro é considerado um ataque contra todos; cada país deve prestar assistência, embora a natureza dessa assistência seja definida pelos aliados. A aplicação do artigo depende da avaliação do ataque e de decisão política, o que torna coesão e capacidade de reação componentes da dissuasão.

Há, porém, uma distância entre ameaçar destruir um Estado e dispor de uma opção militar capaz de produzir esse resultado sem desencadear consequências maiores para a própria Rússia. A declaração não deve ser apresentada como previsão de guerra nuclear. Seu efeito mais imediato é político: testar a confiança pública na proteção oferecida à Lituânia e aumentar o custo percebido de qualquer decisão aliada sobre sua defesa.

Sabotagem, drones e ataques limitados

A inteligência dinamarquesa avalia que operações russas contra o Ocidente podem passar de ações voltadas a criar medo e enfraquecer o apoio popular à Ucrânia para tentativas de interromper esse apoio fisicamente. Empresas de defesa e ferrovias usadas no transporte de equipamento militar aparecem entre os possíveis alvos.

O documento também considera cenários de ataques cibernéticos destrutivos, sabotagens com risco de vítimas e ataques isolados contra infraestrutura importante para a assistência a Kyiv. São cenários de inteligência, não confirmação de uma operação específica em curso.

Nesse patamar, negar responsabilidade pode fazer parte da operação. O relatório dinamarquês examina a hipótese de Moscou alegar que uma arma atingiu território da OTAN após interferência eletrônica, ou de uma ação destinada a atribuir falsamente a autoria à Ucrânia.

A vantagem procurada seria impor danos antes que os aliados concordem sobre o ocorrido e definam uma resposta. Atribuição técnica, preservação de evidências e troca rápida de informações passam, portanto, a ter valor operacional comparável ao da proteção física dos alvos.

A Polônia no centro da sustentação ucraniana

A Polônia ocupa posição sensível nesse cenário por sua fronteira com a Ucrânia e por seu papel no apoio europeu a Kyiv. Em setembro, o primeiro-ministro Donald Tusk alertou para a concentração de ataques perto da fronteira polonesa e confirmou a entrada do país em uma coalizão para desenvolver defesa contra mísseis balísticos com a Ucrânia. O anúncio representa uma decisão de cooperação industrial e tecnológica; seus resultados operacionais dependerão do desenvolvimento, da produção e da entrada em serviço dos sistemas.

Quanto ao dinheiro que a Polônia enviaria à Ucrânia, é preciso distinguir o apoio polonês do financiamento europeu. A Comissão Europeia anunciou em 18 de setembro o desembolso de € 3,3 bilhões à Ucrânia para a aquisição de drones e mísseis, dentro de um mecanismo da União Europeia do qual a Polônia participa. Esse valor é um repasse da UE, não um anúncio de transferência bilateral polonesa. Nas informações oficiais examinadas, não há valor confirmado de um novo pagamento direto de Varsóvia a Kyiv que permita fazer essa afirmação no artigo.

A distinção financeira não reduz a relevância estratégica da Polônia. Recursos europeus, cooperação em defesa aérea e rotas de suprimento ajudam a manter a capacidade ucraniana de resistir. Ao mesmo tempo, aumentam a importância de proteger centros logísticos e passagens próximas da fronteira. Para Moscou, atingir essas conexões sem provocar uma resposta militar unificada seria uma forma de reduzir a eficácia do apoio ocidental.

Prontidão declarada e capacidade efetiva

Na reunião do Comitê Militar da OTAN em Copenhague, em 19 de setembro, o almirante Giuseppe Cavo Dragone afirmou que a Aliança estava pronta para defender seu território. No mesmo pronunciamento, destacou prioridades ainda em execução: defesa aérea e antimísseis, drones, operações em múltiplos domínios, deslocamento e sustentação de forças, produção industrial e proteção de infraestrutura crítica.

A mensagem pública de prontidão cumpre uma função de dissuasão; a lista de prioridades mostra onde os compromissos políticos precisam continuar a se converter em capacidades disponíveis.

Há uma diferença entre responder a uma incursão aérea isolada e sustentar, por semanas, a proteção de aeroportos, redes elétricas, cabos submarinos e corredores logísticos. Sensores, interceptadores, equipes de investigação e estoques de reposição não são intercambiáveis.

O desempenho da OTAN será medido pela integração desses meios entre países e pela capacidade de mantê-los em operação, sobretudo se ocorrerem incidentes simultâneos.

Intimidação ou preparação para uma guerra maior?

A interpretação mais preocupante é que ameaças como a de Medvedev possam preparar o ambiente político para um teste limitado da OTAN. Se Moscou acreditar que um incidente ambíguo produzirá hesitação entre os aliados, poderá julgar aceitável um risco que não assumiria diante de uma resposta previsível. A inteligência dinamarquesa identifica justamente a possibilidade de ataques limitados destinados a desviar recursos europeus da Ucrânia e criar divisão na Aliança.

O contraponto é que ataque limitado e invasão ampla exigem capacidades diferentes. Segundo Copenhague, uma ofensiva convencional contra um país aliado demandaria concentração de forças por meses e seria difícil de ocultar. O serviço considera uma invasão altamente improvável agora, embora não a descarte em definitivo. Tratar toda declaração de Medvedev como prenúncio de ataque iminente confundiria intimidação política com preparação militar observável. Ignorar a possibilidade de sabotagem ou incursões restritas cometeria o erro inverso.

Diplomacia energética e capacidade de defesa

A proposta de uma moratória recíproca de ataques a instalações energéticas oferece uma possibilidade limitada de contenção. Zelensky afirmou estar disposto a suspender ataques ucranianos à infraestrutura energética russa se Moscou interromper os ataques a instalações ucranianas de energia, aquecimento e abastecimento de água. Marco Rubio declarou que Washington tentaria obter um entendimento, mas não confirmou que a proposta tivesse sido discutida em sua reunião com o chanceler russo Sergey Lavrov. Não há, portanto, acordo concluído.

Uma eventual trégua energética reduziria danos civis e um vetor de pressão antes do inverno, mas não eliminaria o risco de ações híbridas contra países aliados. A prioridade europeia de médio prazo é converter financiamento e declarações de prontidão em defesa aérea, proteção logística, capacidade industrial e procedimentos comuns de investigação e resposta.

A questão decisiva para a OTAN talvez não seja se seus membros reconheceriam uma invasão em grande escala. Será se conseguirão reagir de maneira coesa a um ataque pequeno, danoso e deliberadamente ambíguo. A retórica contra a Lituânia busca enfraquecer essa confiança; a sustentação da Ucrânia e a proteção das rotas europeias mostram onde ela terá de ser demonstrada.

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