Drones, navios e inteligência: EUA ampliam cerco às cadeias estratégicas da China

Tarifas de até 100% sobre sistemas não tripulados e acusações contra a COSCO revelam a integração entre política industrial, segurança tecnológica e contrainteligência — mas as alegações de espionagem ainda carecem de provas públicas.

Por Ricardo Fan – DefesaNet

(RDN) A entrada em vigor de novas tarifas norte-americanas sobre drones importados e as acusações de que navios da estatal chinesa COSCO estariam sendo empregados na coleta de comunicações militares representam movimentos distintos, mas inseridos em uma mesma lógica estratégica. Para Washington, cadeias produtivas, plataformas comerciais, sistemas de comunicação e infraestrutura logística deixaram de ser apenas componentes da economia globalizada e passaram a integrar diretamente o cálculo de segurança nacional.

As duas iniciativas também expõem os limites dessa estratégia. Enquanto as tarifas foram formalizadas por ato presidencial e possuem escopo juridicamente definido, as acusações contra a COSCO baseiam-se em informações atribuídas a autoridades norte-americanas não identificadas. Até o momento, não foram apresentados publicamente equipamentos, documentos ou resultados de inspeções que comprovem a utilização dos navios comerciais chineses como plataformas clandestinas de inteligência de sinais.

O quadro exige, portanto, uma leitura equilibrada. Existe uma ofensiva concreta dos Estados Unidos para reduzir dependências tecnológicas associadas à China, mas parte da narrativa de segurança marítima ainda permanece no campo das avaliações de inteligência e das alegações governamentais.

Tarifas transformam drones em questão de segurança nacional

As novas tarifas entraram em vigor em 3 de setembro, 21 dias depois de o presidente Donald Trump assinar uma proclamação baseada na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962. O dispositivo permite ao Executivo restringir importações consideradas prejudiciais à segurança nacional.

A alíquota de 100% não alcança indistintamente todos os drones importados. Ela incide sobre sistemas com peso máximo de decolagem superior a 25 quilogramas, modelos equipados com sensores de imagem térmica, estações automatizadas de acoplamento e determinados componentes considerados críticos. Drones menores e outros componentes ficam sujeitos, em princípio, a uma tarifa de 25%.

Produtos provenientes da União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Suíça, Liechtenstein e outros parceiros podem receber alíquota de 15%, desde que cumpram as regras de origem estabelecidas. Para o Reino Unido, a tarifa prevista é de 10%. Alguns componentes classificados como menos sensíveis terão a cobrança postergada, permitindo que fabricantes norte-americanos disponham de mais tempo para ampliar sua capacidade produtiva. A proclamação também autoriza a criação de incentivos para empresas que transfiram linhas de produção aos Estados Unidos. Casa Branca

Embora o texto não mencione exclusivamente a China, o impacto principal recai sobre fabricantes chineses e suas redes de fornecedores. A DJI continua sendo a maior produtora mundial de drones comerciais e responde por mais da metade do mercado profissional norte-americano, apesar das restrições acumuladas nos últimos anos. A empresa sustenta que seus equipamentos não representam ameaça à segurança e cita avaliações privadas que não teriam identificado transmissões não autorizadas, programas maliciosos ou mecanismos ocultos de acesso remoto. Reuters

O objetivo de Washington vai além da elevação do preço dos produtos chineses. A política procura criar uma reserva de mercado temporária para fabricantes norte-americanos, atrair investimentos, estabelecer fornecedores considerados confiáveis e reduzir a exposição a componentes estrangeiros em áreas como motores elétricos, controladores de velocidade, baterias, sensores, enlaces de dados e estações automatizadas.

A experiência da Ucrânia e a disputa pela escala industrial

A guerra na Ucrânia demonstrou que drones deixaram de constituir apenas equipamentos especializados. Eles passaram a ser consumidos em grandes quantidades em missões de reconhecimento, ataque, correção de fogo, vigilância, guerra eletrônica e proteção de infraestrutura. A capacidade de substituir rapidamente plataformas perdidas tornou-se quase tão importante quanto o desempenho individual de cada sistema.

Essa realidade revelou uma fragilidade ocidental: empresas norte-americanas e europeias conseguem desenvolver equipamentos sofisticados, mas frequentemente enfrentam custos elevados, baixa escala produtiva e dependência de componentes asiáticos. A China, por sua vez, construiu um ecossistema integrado que reúne eletrônica, baterias, motores, câmeras, sensores e produção em massa.

A própria proclamação presidencial admite que a indústria dos Estados Unidos ainda não produz drones e componentes em quantidade suficiente para atender a uma expansão rápida da demanda, sobretudo em uma situação de conflito prolongado. A tarifa funciona, assim, como instrumento de defesa comercial, política industrial e preparação militar.

O risco é que a proteção tarifária encareça equipamentos utilizados por policiais, bombeiros, agricultores, equipes de busca e salvamento, empresas de inspeção e operadores de infraestrutura antes que alternativas domésticas competitivas estejam disponíveis. A tarifa pode estimular investimentos, mas não cria imediatamente capacidade fabril, mão de obra especializada, fornecedores certificados ou domínio tecnológico.

COSCO no centro da disputa marítima

No domínio marítimo, a pressão norte-americana assumiu caráter mais sensível. Dois altos funcionários do governo Trump disseram à Reuters que navios da COSCO utilizariam equipamentos ocultos para interceptar comunicações militares nas proximidades das costas dos Estados Unidos e de outros países.

Segundo essas autoridades, a estatal manteria uma relação de longa duração com o aparato de inteligência chinês. Os equipamentos instalados a bordo seriam mais sofisticados do que sistemas comerciais comuns de navegação e comunicação e permitiriam coletar sinais emitidos por navios e aeronaves na América do Norte, Europa e Ásia.

As autoridades, entretanto, não identificaram os navios supostamente envolvidos, os portos visitados, os modelos dos equipamentos, as frequências monitoradas ou os resultados operacionais atribuídos à coleta. Também não foram divulgadas imagens, inspeções técnicas ou informações documentais que permitam confirmar independentemente a acusação. Reuters

Em 4 de setembro, a COSCO rejeitou formalmente as alegações. A companhia afirmou que todos os sistemas instalados em seus navios são destinados à navegação, à segurança, às comunicações entre embarcações e terminais e à resposta a emergências. A empresa negou empregar qualquer equipamento para interceptar comunicações militares ou coletar inteligência para Pequim. A Embaixada da China em Washington também classificou as acusações como infundadas. Reuters

Plausibilidade estratégica não equivale a comprovação

A utilização de embarcações civis para missões de inteligência não seria uma inovação. Navios mercantes, pesqueiros, embarcações de pesquisa e plataformas auxiliares podem aproximar-se regularmente de instalações militares, portos, áreas de exercício e rotas estratégicas sem produzir a mesma reação provocada por um navio militar especializado.

Uma embarcação comercial equipada para inteligência de sinais poderia, em tese, identificar emissões eletromagnéticas, registrar padrões de comunicação, localizar transmissores, acompanhar exercícios e contribuir para a caracterização eletrônica de unidades militares. A regularidade das rotas comerciais ainda permitiria realizar coletas repetidas e observar alterações de comportamento ao longo do tempo.

Pesquisadores do China Maritime Studies Institute, vinculado ao U.S. Naval War College, já avaliaram que o Exército de Libertação Popular possui incentivos para explorar a capacidade potencial de inteligência das frotas pesqueira e mercante chinesas. O estudo considera provável que pessoal especializado seja embarcado em algumas dessas plataformas. A análise oferece plausibilidade estratégica à preocupação norte-americana, mas não constitui prova de que navios específicos da COSCO tenham conduzido as operações agora denunciadas. U.S. Naval War College

A COSCO também integra a relação de empresas militares chinesas elaborada pelo Departamento de Defesa sob a Seção 1260H. Na versão publicada em junho de 2026, o Pentágono afirmou que o grupo é controlado pelo Estado chinês, atua em apoio ao Exército de Libertação Popular e participa da estrutura de fusão militar-civil. Essa classificação amplia o nível de escrutínio, mas também não demonstra, isoladamente, a existência de equipamentos clandestinos em seus navios. Departamento de Defesa dos Estados Unidos

Segurança ou protecionismo estratégico?

Sob a perspectiva norte-americana, as medidas respondem a vulnerabilidades concretas. A dependência de drones chineses pode comprometer o abastecimento em uma crise, expor dados operacionais e limitar a capacidade de reposição durante uma guerra. No ambiente marítimo, permitir que plataformas potencialmente ligadas ao aparato estatal chinês operem próximas de bases, terminais e rotas militares representaria um risco de contrainteligência.

A política também procura corrigir uma assimetria estrutural. Os Estados Unidos permanecem tecnologicamente avançados, mas perderam capacidade de produção em diversos segmentos essenciais. Tarifas, restrições regulatórias, compras governamentais e incentivos ao investimento estão sendo combinados para reconstruir uma base industrial capaz de produzir em escala.

O contraponto é que preocupações de segurança podem ser empregadas para justificar protecionismo econômico e afastar concorrentes mais eficientes. A ausência de provas públicas contra a COSCO fortalece a interpretação chinesa de que Washington transforma alegações de inteligência em instrumentos de pressão comercial.

Além disso, a substituição rápida de fornecedores pode gerar custos operacionais elevados. A COSCO está profundamente integrada ao transporte marítimo mundial e mantém conexões com terminais, operadores logísticos e cadeias de suprimentos em diversos continentes. Uma tentativa de exclusão ampla teria efeitos sobre fretes, disponibilidade de navios, congestionamento portuário e comércio exterior — inclusive para empresas norte-americanas.

Um cerco seletivo, não um bloqueio econômico

O termo “cerco” deve ser entendido como uma sucessão de restrições seletivas, e não como a interrupção completa do comércio entre as duas maiores economias do mundo. Washington procura identificar setores nos quais a dependência pode ser convertida em vulnerabilidade militar, tecnológica ou logística.

Semicondutores avançados, inteligência artificial, telecomunicações, minerais críticos, baterias, infraestrutura portuária e sistemas não tripulados passaram a ser tratados como partes de uma mesma arquitetura de segurança econômica. O fornecedor, a origem dos componentes, o controle do software e o destino dos dados tornam-se tão relevantes quanto o preço ou o desempenho do produto.

Essa abordagem tende a produzir cadeias paralelas: uma vinculada à China e outra organizada pelos Estados Unidos e seus aliados. A separação completa permanece improvável, mas a duplicação de fornecedores, a rastreabilidade de componentes e o controle sobre tecnologias sensíveis deverão ganhar importância.

Projeções e implicações práticas

No setor de drones, o efeito imediato deverá ser o aumento dos preços e a busca por alternativas fabricadas nos Estados Unidos ou em países com tratamento tarifário preferencial. Em médio prazo, Washington pretende estimular a transferência de produção, mas o sucesso dependerá de escala, custos e disponibilidade de componentes não chineses.

Na dimensão marítima, as acusações contra a COSCO podem levar a inspeções mais rigorosas, monitoramento eletrônico de navios, restrições de acesso a instalações sensíveis e revisão de contratos portuários. Caso os Estados Unidos apresentem provas técnicas, a pressão para que aliados adotem medidas semelhantes aumentará. Sem essas provas, Washington poderá encontrar resistência de governos preocupados com os impactos comerciais e com a politização das cadeias logísticas.

Para o Brasil, o episódio oferece uma advertência. A resposta adequada não está na reprodução automática das restrições norte-americanas nem na aceitação passiva das garantias oferecidas por fornecedores. O país precisa conhecer suas dependências, auditar equipamentos críticos, estabelecer regras claras para armazenamento e transmissão de dados e desenvolver capacidade própria de inspeção técnica e contrainteligência.

Portos, redes de telecomunicações, sistemas não tripulados e plataformas digitais devem ser avaliados conforme o risco operacional, a sensibilidade das informações e a possibilidade de interrupção do abastecimento. Diversificar fornecedores e preservar alternativas nacionais ou regionais é uma medida de segurança, não apenas uma escolha comercial.

Conclusão

As tarifas sobre drones são um fato jurídico e econômico estabelecido. Já a alegada utilização de navios da COSCO para espionagem permanece como acusação oficial sem comprovação pública suficiente. Colocar as duas situações no mesmo contexto é válido porque ambas refletem a securitização das relações econômicas entre Estados Unidos e China, mas suas evidências não possuem o mesmo peso.

Washington está construindo uma política na qual indústria, tecnologia, logística e inteligência formam um único campo de competição. Pequim, por sua vez, procura preservar o acesso aos mercados e rejeita a caracterização de suas empresas como extensões automáticas do Estado e das Forças Armadas.

Para países que mantêm relações econômicas e estratégicas com ambos os lados, o desafio será evitar tanto a dependência excessiva quanto decisões orientadas exclusivamente por narrativas externas. Em um ambiente no qual equipamentos civis podem possuir funções de uso dual e cadeias comerciais podem afetar a prontidão militar, soberania exige capacidade, continuidade e coerência.

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