Enquanto a Alemanha acelera o maior programa de rearmamento de sua história recente, França e Alemanha tentam reconstruir a cooperação estratégica europeia em meio às lições da Ucrânia, à expansão dos drones e às dúvidas sobre o compromisso militar dos Estados Unidos
Por Ricardo Fan e Redação DefesaNet
(FYI-RDN) A Europa iniciou um dos maiores ciclos de rearmamento desde o fim da Guerra Fria. A deterioração do ambiente de segurança, a continuidade da guerra na Ucrânia, o aumento da pressão militar russa e as incertezas sobre a permanência do compromisso estratégico dos Estados Unidos com o continente levaram os governos europeus a ampliar rapidamente seus orçamentos de defesa.
A Alemanha ocupa posição central nesse movimento. Além do fundo extraordinário de 100 bilhões de euros criado após a invasão russa da Ucrânia, Berlim elevou seu orçamento regular de defesa de 62,4 bilhões de euros, em 2025, para 82,7 bilhões em 2026. O planejamento prevê que o valor alcance 152 bilhões de euros em 2029.
Os números demonstram a dimensão da transformação política ocorrida no país. Durante décadas, a Alemanha manteve uma postura militar restritiva, baseada na proteção proporcionada pelos Estados Unidos e na percepção de que sua segurança poderia ser preservada principalmente por meio da integração econômica, da diplomacia e das estruturas multilaterais europeias.
Essa premissa foi enfraquecida pela guerra da Ucrânia. Entretanto, o aumento dos recursos também revelou uma questão mais complexa: a Alemanha está investindo em capacidades adequadas ao campo de batalha contemporâneo ou apenas ampliando financeiramente um modelo de aquisição concebido para conflitos anteriores?
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O risco de financiar estruturas ultrapassadas
A guerra moderna passou a combinar plataformas militares sofisticadas com sistemas baratos, numerosos, descentralizados e rapidamente substituíveis. Drones de ataque, munições vagantes, sensores comerciais, sistemas de Inteligência Artificial, guerra eletrônica e redes digitais de comando transformaram a relação entre custo, precisão e capacidade destrutiva.
Conflitos recentes demonstraram que equipamentos relativamente baratos podem neutralizar sistemas desenvolvidos durante anos e adquiridos por dezenas ou centenas de milhões de dólares. Drones de baixo custo passaram a atacar blindados, depósitos logísticos, sistemas de defesa aérea, instalações industriais e tropas posicionadas muito além da linha de contato.
A guerra da Ucrânia também evidenciou que a superioridade tecnológica não depende apenas da posse de plataformas avançadas. Ela exige capacidade de adaptação, integração de informações, produção em escala e atualização constante dos sistemas empregados.
O problema alemão, portanto, não está na decisão de ampliar os investimentos. A deterioração da segurança europeia tornou inevitável a reconstrução das Forças Armadas. A questão está na distribuição dos recursos e na capacidade do sistema político, militar e industrial de converter orçamento em poder de combate.
Um estudo do Kiel Institute for the World Economy analisou 736 contratos de aquisição militar da Alemanha, do Reino Unido e da Polônia. Segundo o levantamento, apenas cerca de 12% dos gastos examinados estavam direcionados a sistemas associados ao novo paradigma da guerra, como plataformas autônomas, drones, redes digitais, sensores avançados e tecnologias disruptivas. Na Alemanha, a participação proporcional dessas capacidades diminuiu entre 2020 e 2026, apesar do crescimento geral das despesas.
O estudo concluiu que a Alemanha, embora lidere os valores de aquisição militar na Europa, apresenta a transformação mais lenta entre os três países analisados. Em 2025, os contratos alemães alcançaram aproximadamente 85 bilhões de euros, contra 25 bilhões no Reino Unido e 21 bilhões na Polônia.
O contraste demonstra que gastar mais não significa necessariamente adaptar-se mais rapidamente.
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O sistema de aquisição como vulnerabilidade estratégica
Parte importante das dificuldades alemãs decorre da estrutura de planejamento e aquisição militar. Procedimentos burocráticos extensos, requisitos excessivamente rígidos, fragmentação institucional e longos períodos de desenvolvimento reduzem a velocidade com que as novas tecnologias chegam às unidades operacionais.
Sistemas de armas tradicionais são planejados para permanecer em serviço durante décadas. Essa lógica continua necessária para caças, submarinos, fragatas, carros de combate e sistemas de defesa aérea. Entretanto, ela mostra limitações quando aplicada a tecnologias cujo ciclo de inovação pode ser medido em meses.
Um drone empregado atualmente pode tornar-se vulnerável em poucas semanas devido à introdução de novos bloqueadores, sensores ou mecanismos de interferência. O sistema de aquisição precisa ser capaz de absorver essas mudanças sem reiniciar processos administrativos que frequentemente se estendem por anos.
Na guerra contemporânea, a velocidade de atualização tornou-se parte da própria capacidade militar. Um equipamento tecnicamente superior pode perder relevância antes mesmo de ser entregue se o adversário evoluir mais rapidamente.
Os prazos europeus também continuam elevados. O estudo do Kiel Institute identificou entregas normalmente situadas entre dois e quatro anos para os contratos que apresentavam cronogramas definidos. Na Alemanha, aumentou ainda a proporção de encomendas sem data final pública de entrega.
Essa lentidão compromete a dissuasão. Uma capacidade prevista para o final da década não responde necessariamente a uma ameaça existente no presente.
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A guerra moderna não elimina as plataformas convencionais
A crítica ao modelo tradicional de aquisição não significa que carros de combate, caças, navios, submarinos ou sistemas de artilharia tenham se tornado irrelevantes.
Drones podem localizar e destruir alvos, mas não ocupam território. Sistemas autônomos podem ampliar a vigilância, mas não substituem completamente tropas treinadas. Munições de baixo custo podem saturar defesas, mas não garantem controle do espaço aéreo, proteção de rotas marítimas ou dissuasão nuclear.
A guerra da Ucrânia, na realidade, não demonstrou o desaparecimento das capacidades convencionais. Demonstrou sua vulnerabilidade quando empregadas sem proteção contra drones, sem guerra eletrônica, sem inteligência em tempo real e sem integração entre os diferentes domínios operacionais.
O desafio europeu não consiste em escolher entre plataformas tradicionais e tecnologias emergentes. Consiste em integrar ambas.
Um carro de combate moderno continua sendo instrumento relevante, desde que opere protegido por sensores, defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e reconhecimento aéreo não tripulado. Um caça permanece decisivo, mas sua eficácia aumenta quando conectado a satélites, drones colaborativos, sistemas de comando em nuvem e redes distribuídas de sensores.
A transformação necessária é doutrinária, tecnológica e organizacional. Não basta acrescentar drones à estrutura existente. É preciso modificar a própria forma de planejar e conduzir operações.

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França e Alemanha tentam reconstruir o núcleo da defesa europeia
Nesse contexto, a ampliação da cooperação entre França e Alemanha representa uma tentativa de responder simultaneamente à pressão militar externa, às limitações industriais europeias e às dúvidas sobre o futuro da presença norte-americana.
Em reunião realizada em 17 de julho de 2026, o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz comprometeram-se a aprofundar a parceria em defesa, incluindo sistemas de defesa antimísseis, capacidades de ataque de longo alcance, tecnologias digitais e dissuasão nuclear.
O movimento possui significado político relevante. França e Alemanha constituem os principais centros econômicos e industriais da União Europeia, mas frequentemente apresentam visões distintas sobre segurança.
A França tradicionalmente defende maior autonomia estratégica europeia, preservando capacidade nuclear própria, indústria militar nacional e liberdade para conduzir operações fora das estruturas diretamente controladas pelos Estados Unidos.
A Alemanha, por sua vez, mantém sua defesa profundamente vinculada à OTAN e à presença militar norte-americana. Mesmo com o rearmamento, Berlim continua adquirindo sistemas dos Estados Unidos e considerando a relação transatlântica indispensável à segurança europeia.
A nova aproximação não elimina essa diferença, mas indica que ambos os governos reconhecem a necessidade de construir capacidades complementares dentro da Europa.
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A entrada alemã na dissuasão nuclear francesa
Um dos elementos mais relevantes do acordo é a decisão de incluir forças convencionais alemãs em um exercício nuclear conduzido pela França.
Será a primeira participação alemã em uma iniciativa dessa natureza. O governo francês continuará responsável pelo financiamento e pelo controle de seu arsenal nuclear, enquanto a cooperação deverá envolver exercícios, intercâmbio de práticas e maior integração entre estruturas militares.
A decisão não substitui os mecanismos de compartilhamento nuclear da OTAN. A Alemanha permanece integrada à estrutura nuclear da Aliança Atlântica, na qual armas norte-americanas são mantidas em território europeu e aeronaves alemãs podem ser empregadas em missões nucleares em caso de conflito.
A aproximação com a França, contudo, adiciona uma nova dimensão à defesa europeia. Ela sinaliza que Berlim começa a considerar alternativas complementares para um cenário no qual a presença dos Estados Unidos possa ser reduzida ou condicionada por mudanças políticas em Washington.
Desde a saída do Reino Unido da União Europeia, a França permanece como o único Estado-membro do bloco dotado de armas nucleares. Isso transforma seu arsenal em componente inevitável de qualquer debate sobre autonomia militar europeia.
A cooperação com a Alemanha amplia a legitimidade política dessa discussão, embora permaneçam questões sobre comando, consulta, emprego e responsabilidade estratégica.

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A crise dos grandes projetos conjuntos
A aproximação franco-alemã ocorre após uma sucessão de dificuldades nos principais projetos industriais conduzidos pelos dois países.
O programa Future Combat Air System, conhecido como FCAS, foi concebido para desenvolver um sistema aéreo de combate de próxima geração destinado a substituir o Rafale francês e o Eurofighter operado pela Alemanha e pela Espanha.
O projeto, estimado em mais de 100 bilhões de euros, enfrentou disputas entre a Dassault Aviation e a Airbus sobre liderança industrial, propriedade intelectual, divisão de responsabilidades e controle tecnológico. Os desacordos levaram ao abandono do plano de desenvolver conjuntamente uma aeronave de combate, embora partes do programa relacionadas à nuvem de combate, conectividade e sistemas de informação devam continuar.
O caso demonstra os limites concretos da cooperação europeia. Os governos defendem integração, mas suas indústrias continuam protegendo mercados nacionais, tecnologias sensíveis e posições de liderança.
A França deseja preservar sua capacidade soberana de projetar aeronaves de combate e integrar armamentos nucleares. A Alemanha procura maior participação industrial e tende a favorecer modelos de governança mais distribuídos. Essas diferenças transformam projetos conjuntos em disputas sobre soberania, empregos, exportações e controle tecnológico.
A nova parceria prevê mecanismos de governança e supervisão mais rígidos. O objetivo é evitar que futuros programas sejam paralisados pelas mesmas rivalidades que afetaram o FCAS.
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Autonomia estratégica depende de capacidade industrial
A autonomia militar europeia não será determinada apenas pela existência de grandes projetos tecnológicos. Ela dependerá da capacidade de produzir equipamentos, munições e componentes em quantidade suficiente para sustentar operações prolongadas.
A guerra da Ucrânia expôs limitações importantes na indústria europeia. Países tecnologicamente avançados enfrentaram dificuldades para ampliar rapidamente a produção de projéteis de artilharia, mísseis, explosivos, propelentes, sistemas de defesa aérea e peças de reposição.
Durante décadas, a indústria militar europeia foi dimensionada para contratos relativamente pequenos e produção em períodos prolongados. O retorno da guerra de alta intensidade mostrou que esse modelo não consegue repor rapidamente os estoques consumidos em combate.
A dependência externa também permanece significativa. Componentes eletrônicos, matérias-primas, semicondutores, terras raras e tecnologias digitais utilizadas em sistemas militares estão inseridos em cadeias produtivas globais vulneráveis a interrupções políticas ou comerciais.
Por essa razão, França e Alemanha passaram a tratar defesa, política industrial, energia, minerais críticos, espaço e tecnologia como partes de uma mesma estratégia.
A autonomia militar não significa produzir nacionalmente cada componente. Significa preservar acesso seguro a tecnologias essenciais, manter capacidade de reposição e evitar que um adversário possa interromper a produção militar por meio de sanções, bloqueios ou controle de fornecedores.
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A fragmentação permanece como obstáculo
Apesar dos anúncios políticos, a defesa europeia continua marcada por forte fragmentação.
Os países mantêm diferentes modelos de carros de combate, aeronaves, navios, sistemas de artilharia, mísseis e equipamentos de comunicação. Essa diversidade amplia custos de manutenção, reduz a interoperabilidade e limita os ganhos de escala.
O estudo do Kiel Institute verificou ainda forte preferência por fornecedores nacionais e concluiu que as aquisições verdadeiramente paneuropeias permanecem limitadas. Em vez de um processo coordenado de rearmamento continental, o que existe é uma combinação de programas nacionais conduzidos paralelamente.
Essa fragmentação também possui razões políticas. Governos utilizam contratos militares para preservar empregos, instalações industriais, competências tecnológicas e influência regional. A escolha de um sistema comum implica frequentemente aceitar que determinadas fábricas ou empresas perderão participação.
Assim, a racionalidade estratégica europeia entra em conflito com os interesses industriais nacionais.
A parceria franco-alemã pode reduzir esse problema, mas também pode reproduzi-lo caso seja utilizada principalmente para dividir contratos entre empresas dos dois países sem considerar eficiência, custo e necessidade operacional.
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Entre o rearmamento necessário e o risco de financiar a guerra do passado
O rearmamento como condição para restaurar a dissuasão – Os defensores da estratégia europeia argumentam que décadas de baixos investimentos deixaram as Forças Armadas sem efetivos, munições, peças de reposição e capacidade logística suficientes para enfrentar um conflito prolongado.
Sob essa perspectiva, o aumento dos orçamentos não representa desperdício, mas recuperação de capacidades básicas que deveriam ter sido preservadas após o fim da Guerra Fria.
A Alemanha precisa reconstruir sua defesa aérea, ampliar estoques, modernizar sua frota terrestre, fortalecer a logística e garantir capacidade de mobilização. Nenhuma dessas tarefas pode ser executada exclusivamente por drones baratos ou startups tecnológicas.
A cooperação com a França também oferece a possibilidade de integrar capacidades convencionais alemãs à experiência operacional, industrial e nuclear francesa. A combinação pode fortalecer a OTAN e, simultaneamente, reduzir a dependência europeia dos Estados Unidos.
O risco de confundir orçamento com capacidade militar – A visão crítica observa que o aumento dos gastos pode apenas transferir mais recursos para estruturas burocráticas e industriais incapazes de adaptar-se à velocidade da guerra contemporânea.
Grandes plataformas continuam importantes, mas podem consumir parcelas excessivas dos orçamentos, reduzindo os recursos disponíveis para drones, guerra eletrônica, Inteligência Artificial, munições, comunicações resilientes e produção distribuída.
Projetos multinacionais também podem transformar-se em instrumentos de preservação industrial, com cronogramas longos, custos crescentes e prioridades definidas pela divisão política dos contratos, não pelas necessidades operacionais.
Sob essa perspectiva, o verdadeiro problema alemão não seria a falta de dinheiro, mas a ausência de reformas no planejamento, na aquisição, na doutrina e na relação entre as Forças Armadas e a indústria.
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A capacidade de inovar durante a guerra
A principal lição dos conflitos contemporâneos talvez seja a impossibilidade de prever integralmente quais tecnologias serão decisivas no momento em que uma guerra começar.
Drones, sensores, algoritmos e sistemas de guerra eletrônica evoluem durante o próprio conflito. Soluções desenvolvidas por pequenas equipes podem ser testadas no campo de batalha, modificadas e produzidas em escala em períodos muito inferiores aos programas militares tradicionais.
Isso exige que os países construam não apenas estoques, mas ecossistemas capazes de inovar sob pressão.
Universidades, startups, empresas de software, fabricantes civis e unidades militares precisam operar de forma integrada. Os combatentes devem poder fornecer retorno direto aos desenvolvedores, permitindo que as tecnologias sejam ajustadas com base na experiência operacional.
A Alemanha começou a reconhecer essa necessidade. O governo anunciou uma estratégia para permitir investimentos estatais diretos em empresas emergentes de defesa e tecnologias de uso dual, buscando reduzir a dependência de capital estrangeiro e acelerar o desenvolvimento de novos sistemas.
A iniciativa representa uma mudança importante. Historicamente, grande parte da inovação militar europeia esteve concentrada em empresas tradicionais e contratos públicos de grande escala. A guerra contemporânea exige uma combinação entre essas companhias e organizações menores, mais flexíveis e capazes de assumir riscos tecnológicos.
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O equilíbrio entre massa, sofisticação e custo
O futuro das Forças Armadas europeias dependerá da capacidade de equilibrar três elementos: plataformas sofisticadas, produção em massa e sistemas de baixo custo.
Sistemas avançados continuarão necessários para missões estratégicas, defesa aérea de longo alcance, guerra submarina, ataque profundo e dissuasão nuclear. Entretanto, não podem ser empregados isoladamente nem utilizados contra todos os tipos de ameaça.
Interceptar um drone barato com um míssil de milhões de euros pode ser militarmente necessário, mas economicamente insustentável quando os ataques ocorrem em grande escala.
A Europa precisará desenvolver uma defesa em camadas, combinando radares, sensores passivos, canhões, sistemas de energia dirigida, guerra eletrônica, drones interceptadores e mísseis empregados apenas contra ameaças de maior valor.
O mesmo princípio aplica-se às operações ofensivas. Mísseis sofisticados serão reservados para alvos estratégicos, enquanto drones e munições produzidas em massa poderão ser utilizados contra posições, veículos e instalações de menor prioridade.
Não se trata de abandonar a qualidade em favor da quantidade. Trata-se de impedir que o adversário imponha uma guerra economicamente assimétrica na qual cada ataque barato provoque uma resposta desproporcionalmente cara.
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O teste decisivo da autonomia europeia
A cooperação entre França e Alemanha possui potencial para reorganizar a defesa europeia, mas seus resultados dependerão de decisões que ultrapassam declarações políticas.
Os dois países precisarão demonstrar capacidade de superar disputas industriais, harmonizar requisitos militares, reduzir prazos de aquisição e aceitar mecanismos de governança que não sejam dominados exclusivamente por interesses nacionais.
Também terão de definir o significado concreto da autonomia estratégica.
Para a França, autonomia significa preservar liberdade de ação, capacidade nuclear e indústria militar própria. Para a Alemanha, ela tende a significar maior capacidade europeia dentro da OTAN, sem romper a ligação com os Estados Unidos.
Essas visões não são necessariamente incompatíveis, mas produzem prioridades diferentes. A França enfatiza soberania; a Alemanha enfatiza integração transatlântica.
A construção de uma defesa europeia mais autônoma dependerá da capacidade de transformar essas diferenças em complementaridade, e não em paralisia.
O rearmamento europeu tornou-se inevitável diante da transformação do ambiente de segurança. A Alemanha não pode continuar dependendo de estruturas militares enfraquecidas, estoques reduzidos e longos ciclos de reposição. França e Alemanha também não podem imaginar que os Estados Unidos continuarão assumindo indefinidamente a maior parcela da defesa continental.
Entretanto, o volume dos investimentos não garante sua eficácia.
A Europa corre o risco de reconstruir forças concebidas para o campo de batalha do passado enquanto drones, Inteligência Artificial, guerra eletrônica, sensores distribuídos e sistemas autônomos redefinem a forma como as guerras são travadas.
O desafio não é escolher entre tanques e drones, entre caças e algoritmos ou entre plataformas convencionais e sistemas de baixo custo. O desafio é integrá-los dentro de uma estrutura capaz de aprender, produzir e adaptar-se continuamente.
A parceria franco-alemã representa uma oportunidade para reconstruir o núcleo industrial e estratégico europeu. Mas o fracasso do projeto conjunto de caça demonstra que vontade política não basta quando interesses industriais, soberania tecnológica e burocracias nacionais entram em conflito.
A credibilidade militar europeia será determinada menos pelo anúncio de novos bilhões e mais pela capacidade de transformar recursos em unidades prontas, munições disponíveis, sistemas interoperáveis e tecnologias capazes de acompanhar a evolução do campo de batalha.
Na guerra contemporânea, não vence necessariamente quem possui o equipamento mais caro. Vence quem consegue combinar escala, tecnologia, doutrina e velocidade de adaptação antes que o adversário imponha as condições do conflito.
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Leitura recomendada:
Os temas abordados neste artigo fazem parte de uma transformação mais ampla da segurança europeia e da evolução da guerra contemporânea. Para aprofundar a análise, recomendamos a leitura dos conteúdos abaixo, que tratam do rearmamento alemão, da cooperação estratégica entre França e Alemanha, da modernização das forças europeias e dos desafios impostos pelas novas tecnologias no campo de batalha. Em conjunto, esses materiais ajudam a compreender como a Europa busca reconstruir sua capacidade de dissuasão em um cenário internacional cada vez mais instável.





















