Documento de cem páginas sustenta que Havana consolidou uma ampla rede internacional de influência baseada em exportação da revolução, inteligência, articulação política e formação ideológica, mantendo papel estratégico muito além de sua capacidade econômica ou militar.
Por Redação DefesaNet
(FYI -RDN) Um pequeno país, uma grande influência – O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou o relatório “Cuba: The Capital of 21st Century Communism”, uma análise de aproximadamente cem páginas que busca reavaliar o papel desempenhado pelo regime cubano desde a Revolução de 1959 até os dias atuais. Longe de concentrar sua atenção apenas sobre a economia ou o sistema político da ilha, o documento propõe uma interpretação mais ampla: segundo seus autores, Cuba tornou-se o principal centro internacional de articulação do comunismo revolucionário contemporâneo.
Ao longo do relatório, Havana é apresentada não apenas como um Estado comunista, mas como uma estrutura permanente dedicada à exportação de ideologia, formação de lideranças revolucionárias, operações de inteligência, apoio a movimentos políticos e construção de redes internacionais de influência. Na avaliação do Departamento de Estado, essa estratégia permitiu ao regime exercer uma projeção geopolítica muito superior às dimensões territoriais, demográficas ou econômicas do país.
O documento está organizado em nove capítulos que percorrem desde a consolidação do Estado revolucionário até sua atuação internacional por meio de organizações políticas, serviços de inteligência, programas de intercâmbio e alianças ideológicas.
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O Estado Revolucionário
O relatório inicia sustentando que a política externa cubana nunca esteve baseada na competição militar convencional com os Estados Unidos. Reconhecendo sua incapacidade de enfrentar Washington em igualdade de condições, Havana teria desenvolvido uma estratégia alternativa fundamentada em instrumentos assimétricos.
Segundo o documento, espionagem, infiltração política, propaganda, apoio a organizações revolucionárias, operações clandestinas e formação ideológica passaram a constituir os principais instrumentos da política externa cubana. Em vez de buscar vitórias militares diretas, o regime teria concentrado seus esforços na construção de uma infraestrutura internacional capaz de influenciar sociedades, governos e movimentos políticos ao longo de décadas.
Na interpretação apresentada pelo Departamento de Estado, essa estratégia tornou-se o eixo permanente da atuação internacional de Cuba desde os primeiros anos da Revolução.
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Cuba e o nascimento da Nova Esquerda
O segundo capítulo dedica-se a explicar como Havana teria assumido protagonismo ideológico após o desgaste do modelo soviético ocorrido durante os anos 1950.
Segundo o relatório, a desilusão de parte da esquerda internacional com Moscou — intensificada após a denúncia dos crimes de Stalin por Nikita Khrushchev e pela repressão à Revolução Húngara de 1956 — abriu espaço para que Fidel Castro e Ernesto Che Guevara oferecessem uma nova narrativa revolucionária.
O documento argumenta que Cuba substituiu a tradicional luta de classes como eixo exclusivo da revolução por uma visão centrada no chamado Terceiro-Mundismo, enfatizando o anti-imperialismo, a descolonização e a oposição à influência ocidental.
Nesse contexto, a Conferência Tricontinental realizada em Havana, em 1966, é apresentada como um marco na construção dessa nova corrente ideológica, reunindo centenas de representantes de movimentos revolucionários da África, Ásia e América Latina. Para os autores do relatório, esse encontro consolidou Cuba como centro intelectual e político de uma nova esquerda internacional.
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A exportação da revolução
Uma das partes centrais do relatório descreve aquilo que o Departamento de Estado considera a principal característica da política externa cubana desde a chegada de Fidel Castro ao poder: a exportação organizada da revolução.
Segundo o documento, Havana não se limitou à difusão de um discurso ideológico ou à defesa retórica do socialismo internacional. A partir dos primeiros anos após a Revolução de 1959, o regime teria estruturado uma ampla rede destinada ao treinamento de guerrilhas, fornecimento de armamentos, apoio logístico, financiamento, intercâmbio de quadros políticos e coordenação de movimentos revolucionários em diferentes regiões do mundo. Para os autores, essa política transformou Cuba em um centro permanente de articulação da luta armada durante a Guerra Fria.
O relatório afirma que essa estratégia começou praticamente imediatamente após a consolidação do novo governo. Ainda em 1959, Havana já estaria apoiando tentativas de insurgência em países como Haiti, República Dominicana, Nicarágua e Panamá. Nas décadas seguintes, o apoio cubano teria alcançado organizações revolucionárias na Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Guatemala, El Salvador e Nicarágua, além de movimentos ativos na África e no Oriente Médio. Segundo o documento, essa atuação combinava treinamento militar, assessoria política, fornecimento de equipamentos, criação de canais de comunicação e suporte diplomático para grupos alinhados à estratégia revolucionária cubana.
Na interpretação apresentada pelo Departamento de Estado, um marco dessa política foi a realização da Conferência Tricontinental, em Havana, em 1966. O encontro reuniu representantes de organizações revolucionárias, movimentos de libertação nacional e grupos considerados anti-imperialistas provenientes da África, Ásia e América Latina. Para os autores, a conferência representou mais do que um fórum político: consolidou uma infraestrutura internacional destinada a aproximar organizações que, embora atuassem em contextos distintos, compartilhavam objetivos estratégicos semelhantes.
O relatório destaca ainda a criação, no ano seguinte, da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), sediada em Havana. Segundo o documento, a entidade foi concebida para coordenar e incentivar a luta armada no continente americano, funcionando como um mecanismo de integração entre movimentos revolucionários latino-americanos. Na visão apresentada pelos autores, a OLAS simbolizou a passagem de Cuba do papel de referência ideológica para o de centro operacional da revolução continental, articulando contatos, intercâmbio de experiências e cooperação entre diferentes organizações insurgentes.
Como exemplos dessa atuação, o relatório dedica capítulos específicos ao apoio prestado aos Sandinistas, na Nicarágua; ao Exército de Libertação Nacional (ELN), na Colômbia; aos Montoneros, na Argentina; aos Tupamaros, no Uruguai; ao grupo porto-riquenho FALN; além de outras organizações revolucionárias latino-americanas. Segundo o Departamento de Estado, Havana não apenas fornecia treinamento e recursos, mas buscava integrar esses movimentos em uma rede transnacional de cooperação política e militar, ampliando sua capacidade de atuação muito além das fronteiras cubanas.
Na avaliação apresentada pelo relatório, essa política de internacionalização da revolução tornou-se um dos principais instrumentos da projeção estratégica cubana durante a Guerra Fria. Embora o país dispusesse de recursos econômicos e militares limitados, os autores sustentam que a construção de uma extensa rede de alianças políticas, organizações revolucionárias e estruturas de apoio permitiu a Havana exercer uma influência internacional desproporcional ao seu tamanho, transformando a exportação da revolução em um dos eixos permanentes de sua política externa.
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Sandinistas e a expansão da influência cubana
Entre os diversos casos analisados, o relatório dedica atenção especial à Revolução Sandinista na Nicarágua, apresentada como um dos exemplos mais bem-sucedidos da estratégia internacional desenvolvida por Havana ao longo da Guerra Fria.
Segundo o Departamento de Estado, Cuba exerceu papel central na consolidação da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), oferecendo não apenas armamentos e treinamento militar, mas também infraestrutura política, apoio logístico, canais de propaganda e coordenação internacional. O documento afirma que Havana funcionou simultaneamente como centro de treinamento, base operacional e ponto de articulação entre dirigentes sandinistas e outras organizações revolucionárias vinculadas à rede construída pelo regime cubano.
O relatório destaca que essa cooperação foi resultado de um processo iniciado anos antes da vitória sandinista. Segundo os autores, Cuba investiu na formação de quadros políticos e militares da FSLN, promoveu contatos entre lideranças revolucionárias latino-americanas e utilizou estruturas como a Conferência Tricontinental e a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) para integrar a causa sandinista a um movimento revolucionário de alcance continental. Nesse contexto, Havana teria deixado de atuar apenas como apoiadora externa para assumir a função de centro coordenador de uma rede internacional de alianças políticas e militares.
Outro aspecto destacado pelo documento é a dimensão internacional dessa cooperação. Segundo o relatório, a FSLN passou a integrar uma cadeia logística e política que envolvia governos simpáticos, organizações revolucionárias, estruturas clandestinas e movimentos transnacionais capazes de deslocar combatentes, armamentos, recursos financeiros e mensagens por diferentes países da América Latina. Os autores afirmam ainda que militantes sandinistas receberam treinamento em Cuba e, posteriormente, estabeleceram contatos com outras organizações revolucionárias, incluindo grupos palestinos, ampliando a dimensão internacional da rede articulada por Havana.
Na avaliação apresentada pelo Departamento de Estado, a vitória da Revolução Sandinista, em 1979, representou a comprovação prática da estratégia cubana de combinar formação ideológica, apoio militar, inteligência e coordenação política internacional. O documento sustenta que o sucesso da FSLN demonstrou a capacidade de Cuba de transformar uma insurgência nacional em parte de uma estrutura revolucionária regional mais ampla, projetando influência muito além de suas fronteiras.
Segundo o relatório, após a consolidação do novo governo na Nicarágua, o país passou a desempenhar papel semelhante ao de Cuba na América Central, servindo como base de apoio, corredor logístico e referência política para movimentos revolucionários em países como El Salvador, Guatemala e Honduras. Para os autores, essa expansão marcou uma nova etapa da estratégia cubana de internacionalização da revolução, baseada não apenas no apoio direto a guerrilhas, mas também na criação de governos aliados capazes de ampliar a influência regional de Havana.
Esse texto permanece integralmente fiel ao conteúdo do relatório, sem incorporar interpretações ou conexões que não foram feitas pelos próprios autores.

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Da guerrilha ao Estado: o caso venezuelano
O documento também dedica espaço significativo às relações entre Cuba e Venezuela.
Segundo a análise, após o fracasso das tentativas de promover revoluções armadas na Venezuela durante os anos 1960, Havana teria adotado uma estratégia distinta, baseada no fortalecimento institucional de um governo aliado.
A ascensão de Hugo Chávez ao poder é apresentada como ponto de inflexão dessa política. O relatório afirma que acordos bilaterais permitiram ampla presença de técnicos, assessores, profissionais civis e especialistas cubanos em diversas áreas da administração venezuelana, incluindo setores de segurança e inteligência.
Na avaliação dos autores, essa cooperação consolidou uma parceria estratégica que ampliou significativamente a influência regional de Havana durante as décadas seguintes.
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Um império de espionagem
O quarto capítulo é dedicado à atuação da Dirección de Inteligencia (DI), serviço de inteligência exterior cubano.
O relatório descreve a DI como uma das organizações de inteligência mais eficientes já direcionadas contra os Estados Unidos, destacando sua capacidade de desenvolver operações de longo prazo, infiltração institucional e recrutamento de agentes motivados por afinidade ideológica.
Entre os casos apresentados estão Victor Manuel Rocha, Ana Belén Montes, Walter Kendall Myers e integrantes da chamada Rede Wasp, todos apontados como exemplos de infiltrações de grande impacto em instituições norte-americanas.
Segundo o documento, uma das características distintivas da inteligência cubana seria privilegiar operações de décadas de duração, recrutando indivíduos ainda durante sua formação acadêmica e acompanhando sua ascensão profissional até posições de elevada sensibilidade estratégica.

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Universidades e formação ideológica
O relatório dedica uma seção específica ao papel das universidades norte-americanas, apresentando o meio acadêmico como um dos principais ambientes de interesse da inteligência cubana para a construção de relações de longo prazo. Segundo os autores, o objetivo não se limita ao intercâmbio científico ou à cooperação educacional.
As instituições de ensino superior são descritas como espaços onde jovens em formação, especialmente aqueles politicamente engajados, podem estabelecer vínculos que futuramente se converterão em redes de influência ou, em alguns casos, em ativos de inteligência.
Segundo o documento, a Dirección de Inteligencia (DI) atribui elevada prioridade à presença em universidades de prestígio nos Estados Unidos. Com base em análises da inteligência norte-americana e em depoimentos de ex-integrantes da própria DI, o relatório afirma que o serviço cubano procura identificar estudantes ideologicamente simpáticos às posições do regime, sobretudo aqueles com potencial para, no futuro, ocupar cargos de relevância no governo, no setor privado, na academia ou em organizações da sociedade civil. Na interpretação apresentada pelos autores, trata-se de uma estratégia de investimento político de longo prazo, baseada menos em resultados imediatos e mais na formação gradual de uma rede de contatos influentes.
O relatório sustenta que essa aproximação ocorre por diferentes meios. Entre eles estão bolsas de estudo, programas de intercâmbio, acordos acadêmicos, projetos conjuntos de pesquisa, conferências, cursos de curta duração e cooperação institucional entre universidades cubanas e norte-americanas.
Segundo os autores, esses mecanismos constituem formas legítimas de relacionamento acadêmico, mas também criariam oportunidades para ampliar contatos pessoais, identificar perfis considerados promissores e fortalecer afinidades ideológicas ao longo do tempo.
Como exemplo dessa política, o documento destaca a Universidade de Havana, apresentada como um dos principais polos acadêmicos vinculados ao Estado cubano. Segundo o relatório, em 2023 a instituição mantinha acordos de cooperação com aproximadamente 80 universidades norte-americanas.
Entre os casos mencionados está o acordo firmado em 2017 entre a Universidade de Harvard e o Ministério da Educação Superior de Cuba, destinado à ampliação de programas de pesquisa conjunta, estágios, intercâmbios acadêmicos, publicações científicas e realização de seminários e conferências. Para os autores, essas iniciativas demonstram o alcance da rede de cooperação internacional desenvolvida pela universidade cubana.
Outro aspecto enfatizado pelo relatório é aquilo que denomina “Long-Term Target Development” — o desenvolvimento de alvos de longo prazo. Segundo os autores, a inteligência cubana privilegiaria a identificação de indivíduos ainda durante a graduação ou a pós-graduação, período considerado particularmente favorável à formação de convicções políticas e ao estabelecimento de relações duradouras.
O documento afirma que alguns dos casos de espionagem atribuídos a Cuba permaneceram ativos por décadas antes de serem descobertos, permitindo que esses indivíduos alcançassem posições de elevada responsabilidade dentro do governo norte-americano e tivessem acesso a informações classificadas.
O relatório acrescenta que, na doutrina atribuída à DI, espionagem, influência política e propaganda não são atividades separadas, mas componentes de um mesmo projeto estratégico. Segundo essa interpretação, um indivíduo não precisaria necessariamente ter acesso a informações sigilosas para ser considerado útil aos interesses cubanos.
Pessoas inseridas na academia, na imprensa, em organizações não governamentais, movimentos sociais ou instituições públicas poderiam contribuir para ampliar influência política, moldar percepções públicas ou fortalecer narrativas alinhadas ao regime, ainda que jamais participassem de operações clássicas de espionagem. O documento descreve essa integração entre influência ideológica e inteligência como uma das características distintivas do modelo cubano de atuação internacional.
Na conclusão desse capítulo, o Departamento de Estado sustenta que a atuação de Cuba nas universidades deve ser compreendida dentro de uma estratégia mais ampla de formação de redes permanentes de relacionamento. Segundo o relatório, o objetivo não seria apenas produzir resultados imediatos, mas estabelecer vínculos capazes de atravessar décadas, acompanhando a trajetória profissional de indivíduos que, no futuro, poderiam ocupar posições de influência política, acadêmica ou institucional nos Estados Unidos.

Nota DefesaNet — Quando a revolução chegou à cultura pop
A influência internacional da Revolução Cubana e, posteriormente, da Revolução Sandinista ultrapassou os círculos políticos e militares descritos no relatório do Departamento de Estado. Durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, símbolos associados aos movimentos revolucionários latino-americanos passaram a integrar a cultura popular ocidental.
Um dos exemplos mais conhecidos é o álbum Sandinista!, lançado pela banda britânica The Clash em 1980. O próprio título faz referência direta à Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que havia chegado ao poder na Nicarágua no ano anterior. Diversas músicas do disco abordam temas ligados ao anti-imperialismo, às revoluções latino-americanas e às disputas da Guerra Fria.
Paralelamente, a imagem de Ernesto “Che” Guevara tornou-se um dos ícones gráficos mais difundidos do século XX. Baseada na fotografia Guerrillero Heroico, de Alberto Korda, sua reprodução em camisetas, cartazes, bandeiras, adesivos, livros e materiais promocionais espalhou-se por universidades, movimentos estudantis e manifestações políticas em diversos países, transformando um símbolo originalmente revolucionário em um dos elementos visuais mais reconhecidos da cultura contemporânea.
O relatório do Departamento de Estado concentra sua análise na atuação política, diplomática e de inteligência do regime cubano. Entretanto, a ampla difusão desses símbolos demonstra que a influência internacional associada à Revolução Cubana também alcançou o campo da cultura, da música e do mercado editorial, ampliando significativamente seu alcance junto às novas gerações.
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Turismo revolucionário e redes internacionais
O relatório dedica um capítulo específico ao que denomina “turismo sociopolítico” (socio-political tourism), apresentado como uma das ferramentas de projeção internacional utilizadas por Cuba desde o final da década de 1960. Segundo o Departamento de Estado, o objetivo dessas iniciativas ultrapassaria a promoção do turismo convencional ou do intercâmbio cultural, funcionando como instrumentos de aproximação política, formação ideológica e fortalecimento de redes internacionais de solidariedade ao regime cubano.
Segundo o documento, milhares de estudantes, sindicalistas, militantes políticos, acadêmicos, religiosos e ativistas estrangeiros passaram a visitar regularmente Cuba por meio de programas organizados pelo próprio governo cubano ou por entidades de solidariedade internacional. Entre as iniciativas citadas destacam-se as Venceremos Brigades, criadas nos Estados Unidos em 1969, além das International May Day Brigades, das delegações da Witness for Peace Solidarity Collective, das caravanas promovidas pela IFCO/Pastors for Peace, das brigadas organizadas pela British Cuba Solidarity Campaign, da Germany-Cuba Friendship Association e da Che Guevara Volunteer Work Brigade, ligada à Canadian Network on Cuba. O relatório apresenta essas organizações como parte de uma infraestrutura internacional de relacionamento construída ao longo de décadas.
Na interpretação apresentada pelos autores, essas viagens seguiam um formato cuidadosamente estruturado. Os visitantes participavam de atividades agrícolas voluntárias, seminários políticos, encontros com autoridades cubanas, palestras, festivais culturais e celebrações oficiais, como o tradicional desfile do Primeiro de Maio em Havana. O relatório sustenta que essa programação buscava oferecer aos participantes uma experiência direta da Revolução Cubana, fortalecendo vínculos pessoais e consolidando uma percepção positiva do regime entre futuros líderes políticos, acadêmicos e sociais em seus países de origem.
O documento atribui especial importância às Venceremos Brigades, descritas como um dos principais instrumentos de aproximação entre Havana e setores da esquerda norte-americana. Segundo o relatório, participantes eram incentivados a elaborar relatórios sobre atividades políticas em suas regiões antes mesmo da viagem e, após retornarem aos Estados Unidos, integravam comitês encarregados de divulgar informações sobre Cuba, organizar novos participantes e ampliar o apoio ao regime cubano. O texto cita ainda relatórios do Congresso e do Senado dos Estados Unidos segundo os quais a inteligência cubana teria atribuído elevada prioridade ao acompanhamento dessas brigadas, utilizando agentes da Dirección General de Inteligencia (DGI) para observar, recrutar e desenvolver relacionamentos com participantes considerados promissores.
Outro aspecto enfatizado pelo relatório é a continuidade dessas redes ao longo do tempo. Segundo os autores, diversos ex-integrantes das brigadas passaram posteriormente a ocupar cargos de relevância na administração pública, universidades, sindicatos, organizações não governamentais, meios de comunicação e movimentos sociais norte-americanos. Como exemplos, o documento menciona antigos participantes que se tornaram prefeitos de grandes cidades, dirigentes sindicais, professores universitários, executivos de think tanks, líderes de organizações civis e integrantes de equipes de transição presidencial. Na interpretação do Departamento de Estado, esses casos ilustrariam a estratégia cubana de investir em relacionamentos de longo prazo, capazes de produzir influência política muito além do período das visitas à ilha.
O relatório também dedica atenção ao caso da militante Assata Shakur, asilada em Cuba desde a década de 1980. Segundo os autores, sua presença na ilha foi incorporada ao roteiro de diversas delegações internacionais, tornando-se um símbolo da narrativa política promovida pelo regime cubano. O documento afirma que festivais, conferências, brigadas internacionais e produções audiovisuais organizadas por instituições culturais cubanas contribuíram para projetar sua imagem junto a sucessivas gerações de ativistas, escritores, jornalistas, acadêmicos e músicos que visitavam Havana.
Na conclusão desse capítulo, o Departamento de Estado sustenta que o chamado “turismo revolucionário” deve ser compreendido como parte de uma estratégia mais ampla de soft power político. Segundo o relatório, ao proporcionar experiências pessoais, criar vínculos emocionais e manter redes internacionais de contato, Cuba conseguiu ampliar sua influência muito além dos canais diplomáticos tradicionais, transformando programas de intercâmbio e solidariedade em instrumentos permanentes de projeção política e ideológica.

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Organizações de apoio e influência
Nos capítulos seguintes, o documento amplia a análise para organizações internacionais, movimentos sociais, associações de solidariedade, entidades estudantis e grupos considerados simpáticos ao governo cubano.
Segundo o relatório, essas estruturas funcionariam como multiplicadoras da narrativa política desenvolvida por Havana, contribuindo para ampliar sua influência muito além da atuação diplomática tradicional.
O documento sustenta que a sobrevivência internacional do regime cubano após o fim da Guerra Fria teria sido possível justamente pela existência dessa extensa rede construída ao longo de décadas.
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Cuba como centro de uma rede internacional
Na conclusão, o Departamento de Estado sintetiza a principal ideia desenvolvida ao longo de todo o relatório. Segundo os autores, a relevância estratégica de Cuba no século XXI não pode ser medida por indicadores tradicionais de poder nacional, como Produto Interno Bruto, população, capacidade industrial ou poder militar convencional. O documento sustenta que a verdadeira influência de Havana reside na construção, ao longo de mais de seis décadas, de uma infraestrutura internacional permanente capaz de projetar influência política muito além das limitações materiais da ilha.
Na interpretação apresentada pelo relatório, essa infraestrutura foi construída de forma gradual desde a Revolução de 1959 e passou a integrar diferentes instrumentos de atuação internacional. Serviços de inteligência, organizações de solidariedade, movimentos revolucionários, programas de formação política, universidades, brigadas internacionais, campanhas de propaganda, redes diplomáticas e organizações de fachada seriam, segundo o documento, componentes de uma mesma arquitetura estratégica destinada a ampliar a capacidade de influência do regime cubano. Em vez de atuarem de forma isolada, esses mecanismos seriam empregados de maneira coordenada, reforçando-se mutuamente ao longo das décadas.
O relatório afirma que uma das características mais marcantes desse modelo foi sua capacidade de adaptação. Durante a Guerra Fria, Cuba concentrou seus esforços no apoio direto a movimentos guerrilheiros e organizações revolucionárias. Com o colapso da União Soviética, entretanto, o documento sustenta que Havana reformulou seus instrumentos de atuação, reduzindo a ênfase na luta armada e ampliando mecanismos considerados mais adequados ao novo cenário internacional, como programas de intercâmbio acadêmico, cooperação médica, brigadas internacionais, organizações não governamentais, campanhas de solidariedade, atividades culturais e iniciativas de diplomacia pública. Segundo os autores, embora os métodos tenham evoluído, o objetivo estratégico de preservar e expandir a influência política internacional permaneceu essencialmente o mesmo.
Outro aspecto enfatizado na conclusão é a importância atribuída pelo relatório à continuidade institucional. Ao contrário de movimentos revolucionários que perderam capacidade de articulação após o fim da Guerra Fria, Cuba teria preservado estruturas permanentes de formação política, serviços de inteligência especializados, redes de relacionamento internacional e mecanismos de cooperação capazes de manter ativos vínculos estabelecidos ao longo de décadas. Para o Departamento de Estado, essa persistência organizacional explica por que o regime continua exercendo influência internacional desproporcional ao tamanho da economia cubana ou aos recursos materiais disponíveis.
Segundo o documento, a estratégia cubana também teria produzido um efeito multiplicador. Em vez de depender exclusivamente da atuação direta do Estado cubano, a rede construída desde 1959 passou a incorporar governos aliados, organizações políticas, sindicatos, universidades, movimentos sociais, entidades culturais e grupos internacionais de solidariedade que, segundo os autores, contribuiriam para ampliar a difusão das narrativas e dos interesses defendidos por Havana. Na avaliação do relatório, essa descentralização tornou a rede mais resiliente, permitindo que continuasse operando mesmo diante de mudanças no ambiente geopolítico internacional.
Ao reunir os diferentes elementos apresentados ao longo dos nove capítulos, o Departamento de Estado conclui que Cuba representa um caso singular na história contemporânea: um país de dimensões territoriais e capacidades econômicas limitadas que, por meio de planejamento estratégico, continuidade institucional e construção de redes internacionais de influência, conseguiu manter projeção política global durante mais de seis décadas. É essa combinação entre inteligência, formação ideológica, articulação política, diplomacia e capacidade organizacional que leva os autores a definir Havana como a “capital do comunismo do século XXI”, expressão que sintetiza a principal tese defendida pelo relatório.
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Leia o documento original
O relatório Cuba: The Capital of 21st Century Communism, elaborado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, possui aproximadamente 100 páginas e está disponível integralmente em inglês. O documento reúne a argumentação completa, referências históricas, estudos de caso e fontes utilizadas pelos autores para sustentar sua análise sobre a atuação internacional do regime cubano.
Download do relatório original (PDF): https://www.state.gov/cuba-the-capital-of-21st-century-communism/
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