Operação Catrimani II: Laboratório Estratégico para a transformação do Exército Brasileiro

A continuidade da Operação Catrimani II transcende o combate ao garimpo ilegal e revela uma oportunidade estratégica para validar doutrina, testar tecnologias e preparar o Exército Brasileiro para os desafios do campo de batalha do século XXI.

Por Gen Bda Candian

(FYI) A evolução dos conflitos contemporâneos evidencia que a superioridade militar depende cada vez mais da integração entre tecnologia, inteligência, logística, comando e controle e rapidez no processo decisório. O emprego intensivo de sistemas não tripulados, inteligência artificial, guerra eletrônica, comunicações resilientes e operações no multidomínio tem redefinido a forma de planejar e conduzir operações militares.

Nesse contexto, o Exército Brasileiro possui oportunidade singular: transformar a Operação Catrimani II em ambiente permanente de experimentação operacional, inovação tecnológica e desenvolvimento doutrinário.

Embora concebida para apoiar a desintrusão do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e assegurar a presença do Estado em uma região estratégica da Amazônia, a Operação Catrimani II reúne características que a qualificam como verdadeiro laboratório para o desenvolvimento de capacidades militares.

Diferentemente de exercícios de curta duração, a operação proporciona presença operacional contínua ao longo do ano, permitindo a observação, avaliação e aperfeiçoamento de equipamentos, processos e doutrinas em condições reais de emprego. Essa continuidade reduz a distância entre experimentação e aplicação operacional, permitindo que as lições aprendidas sejam rapidamente incorporadas ao preparo da Força Terrestre.

O ambiente amazônico acrescenta elevado grau de complexidade. As grandes distâncias, a limitada infraestrutura, a dependência do modal aéreo e fluvial, as restrições impostas pelo terreno e pelo clima e a necessidade de sustentação logística em áreas remotas impõem desafios que dificilmente podem ser reproduzidos em centros de instrução. Cada missão executada produz conhecimento valioso para o aperfeiçoamento da logística militar, das comunicações e do planejamento operacional.

Outro diferencial é a integração permanente entre meios terrestres, aéreos e fluviais. O planejamento das operações exige sincronização entre diferentes capacidades, aproximando a realidade operacional dos conceitos modernos de operações no multidomínio. Além disso, a atuação conjunta com diversos órgãos governamentais fortalece a interoperabilidade, aspecto cada vez mais relevante nas operações contemporâneas. Esse ambiente oferece excelentes oportunidades para apoiar diversos programas estratégicos do Exército Brasileiro.

Na área de sistemas não tripulados, a operação permite validar drones de reconhecimento, monitoramento e apoio logístico, além de desenvolver procedimentos para seu emprego em ambiente de selva. Da mesma forma, cria condições para experimentação de capacidades de defesa antidrones, considerando a crescente utilização de aeronaves remotamente pilotadas por organizações criminosas e, até mesmo, pelo garimpo ilegal.

As dificuldades de comunicação na Amazônia também fazem da operação um cenário privilegiado para testar rádios definidos por software, redes em malha (mesh), comunicações via satélite e soluções de redundância que aumentem a resiliência dos sistemas de comando e controle.

No campo da transformação digital, a operação pode servir como projeto-piloto para painéis operacionais em tempo real, integração de bancos de dados, georreferenciamento de ocorrências, emprego de inteligência artificial para apoio ao planejamento e sistemas digitais de acompanhamento logístico. A consolidação dessas ferramentas contribui para acelerar o ciclo de observação, orientação, decisão e ação, ampliando a consciência situacional dos comandantes.

A logística também encontra na Catrimani II um ambiente ideal para inovação. O rastreamento digital de suprimentos, a manutenção preditiva de meios, a gestão automatizada de estoques e o monitoramento do consumo de recursos podem ser avaliados continuamente, produzindo soluções aplicáveis não apenas à Amazônia, mas a qualquer operação em áreas remotas.

A operação também representa importante fonte de dados para o desenvolvimento da inteligência militar. Informações provenientes de satélites, drones, patrulhas terrestres, sensores e órgãos parceiros podem ser integradas em uma arquitetura única de consciência situacional, permitindo aperfeiçoar processos de fusão de dados e apoio à decisão.

Outro aspecto de grande relevância é a possibilidade de utilizar dados coletados para alimentar simuladores, exercícios de posto de comando e processos de atualização doutrinária. Dessa forma, a experiência operacional deixa de beneficiar apenas as tropas empregadas e passa a contribuir para toda a Força Terrestre.

A Base Industrial de Defesa (BID) e os centros de pesquisa nacionais também poderiam ser integrados a esse processo. Novos equipamentos, sensores, softwares, sistemas de comunicação, soluções logísticas e tecnologias autônomas poderiam ser avaliados em ambiente operacional real, reduzindo riscos de aquisição e acelerando o desenvolvimento de capacidades nacionais.

Nesse contexto, uma evolução natural seria a institucionalização da Operação Catrimani II como Programa Permanente de Experimentação Operacional. Essa iniciativa permitiria coordenar projetos de inovação, validar tecnologias emergentes, consolidar lições aprendidas e produzir conhecimento para subsidiar a evolução doutrinária e os programas estratégicos do Exército Brasileiro.

Mais do que uma operação voltada ao combate ao garimpo ilegal, a Operação Catrimani II pode consolidar-se como instrumento de transformação institucional. Sua combinação de presença continuada, ambiente amazônico, desafios logísticos, integração interagências, monitoramento persistente e emprego intensivo de inteligência cria condições únicas para acelerar a modernização da Força.

Transformar esse patrimônio operacional em conhecimento estruturado representa oportunidade estratégica para fortalecer a capacidade do Exército Brasileiro de enfrentar os desafios do combate moderno, preservando sua prontidão, ampliando sua capacidade de inovação e contribuindo para a defesa dos interesses nacionais na Amazônia e em todo o território brasileiro.

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A transformação da Força Terrestre analisada neste artigo encontra aplicação imediata no terreno. A recente destruição de uma aeronave empregada pelo garimpo ilegal e a interdição de uma pista clandestina na Terra Indígena Yanomami evidenciam como a Operação Catrimani II funciona, simultaneamente, como instrumento de combate aos ilícitos e como laboratório para validação de doutrina, interoperabilidade, mobilidade aeromóvel e emprego integrado de capacidades militares em ambiente de selva.

Operação Catrimani II destrói aeronave em missão de interdição de pista clandestina na Terra Indígena Yanomami

(FYI) Boa Vista (RR) – Uma aeronave escondida em meio à mata foi destruída pelo Comando Operacional Conjunto Catrimani II durante uma missão de interdição de pista clandestina utilizada pelo garimpo ilegal, na Terra Indígena Yanomami (TIY), na manhã desta quinta-feira (9). Ao longo do mesmo dia, os militares também localizaram e destruíram uma balsa empregada nas atividades ilícitas. As ações representam um prejuízo estimado em R$ 3,2 milhões ao garimpo ilegal na região.

A operação foi realizada por meio de infiltração aeromóvel em ambiente de selva. Com a conjugação de meios do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira (FAB), a missão contou com militares da Força Terrestre Componente, incluindo efetivos da 1ª Brigada de Infantaria de Selva e do 6º Batalhão de Engenharia de Construção, transportados por uma aeronave H-60 Black Hawk da FAB, evidenciando a integração e a interoperabilidade entre as Forças Armadas na execução das ações de combate ao garimpo ilegal.

O êxito das ações foi resultado do trabalho de Inteligência, aliado ao levantamento de informações e ao planejamento integrado da operação, que possibilitaram a identificação e a neutralização de meios empregados pelo garimpo ilegal. 

Referências:

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BRASIL. Comando do Exército. Conceito Operacional do Exército: Operações de Convergência 2040. Brasília, DF: Estado-Maior do Exército, 2023.

BRASIL. Comando do Exército. Bases para a Transformação da Doutrina Militar Terrestre. Brasília, DF: Estado-Maior do Exército, 2013.

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BRASIL. Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa. Brasília, DF, 2024.

BRASIL. Ministério da Defesa. Doutrina de Operações Conjuntas – MD30-M-01. Brasília, DF: Ministério da Defesa, edição vigente.

Exército Brasileiro. Plano Estratégico do Exército (PEEx) 2024–2027. Brasília, DF: Estado-Maior do Exército.

Exército Brasileiro. Catálogo de Capacidades do Exército Brasileiro. Brasília, DF: Estado-Maior do Exército.

JARDIM, Jonathas da Costa. Os desafios logísticos do Exército Brasileiro no contexto das Operações Multidomínio. Revista Doutrina Militar Terrestre, v. 13, n. 41, 2025.

CAMPOS, Luis Felipe Moraes Daltro et al. Operação PERSEU: o laboratório doutrinário dos conceitos no multidomínio na Força Terrestre. Revista Doutrina Militar Terrestre, v. 12, n. 39, 2024.

SOARES, João Henrique Alves. Reconhecimento e Vigilância nas Operações Multidomínio. Revista do Exército Brasileiro, 2022.

SOUZA, Enio Corrêa de. Operações Multidomínio e seus desafios para o Comando e Controle e as capacitações necessárias para o Exército. O Comunicante, 2023.

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