IA como Poder Estratégico – O caso Pentágono–Anthropic e a reconfiguração do setor de defesa no século XXI

O embate entre o Pentágono e a Anthropic inaugura a era da soberania algorítmica na defesa

A convocação do CEO da Anthropic, Dario Amodei, pelo Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, para uma reunião no Pentagon, marca mais do que uma divergência contratual. Trata-se de um ponto de inflexão na relação entre Estados e empresas desenvolvedoras de inteligência artificial avançada.

No centro do debate está o modelo Claude, sistema de IA de alto desempenho com potencial aplicação em ambientes classificados. A controvérsia não gira apenas em torno de acesso tecnológico, mas sobre algo mais estrutural: quem define os limites do emprego militar da inteligência artificial?

IA como Infraestrutura Estratégica

A guerra contemporânea opera em múltiplos domínios — terrestre, aéreo, naval, espacial e cibernético. A IA tornou-se transversal a todos eles. Modelos de linguagem avançados já são empregados em:

  • análise massiva de dados de inteligência (SIGINT/OSINT);
  • apoio à decisão estratégica;
  • simulação de cenários operacionais;
  • automação logística;
  • integração com sistemas autônomos.

Diferentemente de plataformas convencionais — aeronaves, blindados ou navios — os modelos de IA são desenvolvidos majoritariamente por empresas privadas, com governança própria e políticas de uso específicas.

Essa mudança desloca o eixo de poder.

O Dilema Estrutural: Ética Corporativa vs. Imperativo Estratégico

A Anthropic mantém políticas restritivas quanto ao uso de seus sistemas em:

  • vigilância doméstica em larga escala;
  • armas autônomas sem supervisão humana;
  • aplicações potencialmente violadoras de direitos humanos.

Para uma empresa de tecnologia, tais cláusulas mitigam risco reputacional e regulatório. Para uma instituição militar, porém, qualquer limitação externa sobre capacidade operacional representa vulnerabilidade potencial.

O impasse revela uma tensão inédita:

Pela primeira vez, fornecedores privados detêm capacidade técnica superior à de muitos Estados em um domínio estratégico crítico.

Se o Estado não controla integralmente a tecnologia, sua liberdade operacional pode ser condicionada por termos corporativos.

Anthropic é uma empresa norte-americana de inteligência artificial fundada em 2021, especializada no desenvolvimento de modelos fundacionais avançados, como o Claude. Com forte ênfase em segurança, alinhamento e governança tecnológica, a companhia se destaca por sua abordagem de “IA Constitucional”, buscando equilibrar inovação de ponta com mitigação de riscos — posicionando-se como um ator estratégico no debate global sobre o uso civil e militar da inteligência artificial.

Reconfiguração do Complexo Militar-Industrial

O episódio sugere que estamos ingressando em uma nova fase do complexo militar-industrial.

No século XX, a base industrial de defesa era composta por:

  • fabricantes de aeronaves,
  • estaleiros navais,
  • indústrias de blindados,
  • conglomerados de mísseis e sistemas eletrônicos.

No século XXI, o núcleo estratégico passa a incluir:

  • desenvolvedores de modelos fundacionais de IA;
  • proprietários de infraestrutura de computação em larga escala;
  • integradores de sistemas autônomos.

A vantagem militar deixa de depender exclusivamente de capacidade industrial pesada e passa a depender da capacidade algorítmica soberana.

Soberania Algorítmica: O Novo Paradigma

O conceito emergente é o de soberania algorítmica — a capacidade de um Estado de:

  • desenvolver,
  • treinar,
  • modificar,
  • e empregar modelos avançados de IA

sem restrições impostas por terceiros.

Caso o Pentágono avalie que as limitações da Anthropic comprometem flexibilidade estratégica, três caminhos se apresentam:

  1. Desenvolvimento acelerado de modelos proprietários militares;
  2. Parcerias com empresas mais flexíveis, como a xAI;
  3. Estabelecimento de marcos regulatórios subordinando o uso corporativo a interesses de segurança nacional.

Cada opção implica repercussões industriais e geopolíticas.

Impactos Prospectivos Globais

Estados Unidos

Possível consolidação de um ecossistema dual:

  • IA comercial com salvaguardas éticas,
  • IA militar com governança estatal ampliada.

China

Reforço do modelo integrado Estado–indústria, sem fricções institucionais comparáveis.

Europa

Aceleração de iniciativas de autonomia digital estratégica.

Países Emergentes

Necessidade urgente de evitar dependência integral de modelos estrangeiros para aplicações sensíveis de defesa.

Para nações com ambições estratégicas regionais, o alerta é inequívoco: a dependência algorítmica pode se tornar tão crítica quanto a dependência energética ou industrial.

Cenários para o Médio Prazo (2026–2030)

Integração Regulada

Acordos específicos permitem uso militar com cláusulas diferenciadas.

Fragmentação Tecnológica

Mercado divide-se entre modelos “éticos comerciais” e modelos “estratégicos estatais”.

Estatização Funcional

Grandes potências internalizam desenvolvimento de modelos fundacionais militares, inaugurando corrida armamentista algorítmica.

Conclusão

O episódio entre o Pentágono e a Anthropic não representa um conflito isolado. Ele simboliza a transição do poder estratégico industrial para o poder estratégico digital.

Se o século XX foi moldado pelo domínio do aço, do petróleo e do átomo, o século XXI será definido pelo domínio do código, da computação de larga escala e da inteligência artificial avançada.

A pergunta que emerge para o setor de defesa global é direta:

Os Estados aceitarão limites impostos por empresas privadas ou internalizarão a capacidade algorítmica como instrumento soberano de poder?

A resposta a essa questão definirá a arquitetura de segurança internacional nas próximas décadas.

Foto capa: Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth 05/02/2026 REUTERS/Al Drago

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