Agenda Trump – Como os americanos querem deter o avanço chinês na América do Sul

Região está na disputa entre China e EUA por concentrar a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás do Oriente Médio. Empresas chinesas se tornaram sócias de reservas no Brasil

Bruno Rosa
11 Janeiro 2026
Rio de Janeiro
O Globo

Pouco depois de os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em Caracas, há uma semana, o Departamento de Estado americano publicou uma foto do presidente Donald Trump com uma frase: “Este é o nosso hemisfério”. Foi uma referência à renovação da Doutrina Monroe, de domínio das Américas pelos EUA, em curso na Casa Branca. No entanto, concordam analistas, a frase poderia muito bem ser substituída por “Este é o nosso petróleo”.

Trump nem fez questão de esconder que o controle do comércio da commodity mais importante do planeta está no centro da motivação da intervenção militar na Venezuela, sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região vai para o centro da disputa global pelo ainda cobiçado recurso mineral por concentrar a segunda maior reserva do mundo, atrás do Oriente Médio.

Dados do setor apontam não só o aumento das compras de petróleo sul-americano pela China nos últimos anos, mas também uma transformação silenciosa do país, de cliente a detentor de reservas na região.

Essa disputa entre EUA e China tem razão econômica: as duas maiores economias do mundo consomem 35% do petróleo global, diz a Agência Internacional de Energia.

A geopolítica do setor na região — Foto: Editoria de arte

Para especialistas, a ação de Trump na Venezuela — dona da maior reserva conhecida do mundo, com produção atual longe do potencial — é parte de sua tentativa de redesenhar a geopolítica energética do continente, reforçando a presença de petroleiras americanas na América do Sul para conter o avanço das chinesas em meio a uma onda de investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas que se abrem em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina. Neles, empresas americanas e chinesas já disputam reservas estratégicas diretamente.

Os principais fornecedores da China na região são Brasil e Venezuela, que somam cerca de 10% de todas as importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a década de 2010, petroleiras chinesas passaram a se associar a outras, como a Petrobras, para atuar na produção de óleo e gás na região, assegurando acesso a reservas estratégicas como as do pré-sal brasileiro não só como cliente.

A movimentação ainda não faz sombra à atuação das americanas, mas tende a crescer com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul.

Atuação discreta

Especialistas observam que essa expansão chinesa é “silenciosa”, com petroleiras que têm atuação discreta nos países e cujas cifras investidas escapam dos principais levantamentos do setor.

Muitos investimentos chineses no setor são feitos em associação com empresas de outros países e por meio de aquisição de ativos de outras companhias de fora, sem chamar a atenção nas estatísticas de investimento estrangeiro. Essa característica faz com que os investimentos da China no setor na América Latina sejam subestimados.

Um levantamento da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), por exemplo, mapeou US$ 47,5 bilhões em investimentos em óleo e gás na região, entre 2020 e 2024, sendo US$ 1,3 bilhão chinês. Já o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) apurou US$ 6 bilhões em investimentos chineses no setor só no Brasil no período.

— Os EUA são os principais investidores na região por meio de relações antigas, sobretudo em petróleo, mas a China tem crescido na América Latina, com investimentos amplos no setor e também em energia renovável, mineração, tecnologia e infraestrutura — diz Fernanda Brandão, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie Rio. — Agora, os EUA vão tentar consolidar sua presença e têm mostrado que podem recorrer a meios militares para que a América Latina continue sendo uma zona de influência exclusiva, coibindo a presença chinesa.

Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, também vê incômodo aos interesses dos EUA na expansão chinesa, mas acredita que a ofensiva de Trump não deve afastar a China do petróleo sul-americano. O país asiático precisa dessa fonte de energia, ainda que invista pesado em renováveis. Para o especialista, o jogo geopolítico está apenas começando na região:

— O fornecimento de 400 mil a 450 mil barris por dia da Venezuela para a China é algo fácil de ser suprido por outros países, principalmente num mercado em baixa e bem abastecido no momento. Por enquanto, é mais uma sinalização política do que um impacto econômico na China. A sinalização americana foi clara ao ser mais assertiva na presença e no controle americano na América Latina. Não espero nenhuma mudança brusca da diplomacia ou pragmatismo econômico chinês em relação à América Latina, que é o principal parceiro comercial de vários países da região.

O diretor de Conteúdo do CEBC, Tulio Cariello espera mais investimento chinês:

— A China é o principal comprador de petróleo do Brasil, cerca de 60% das exportações brasileiras. Enquanto houver leilões no Brasil, haverá presença chinesa. É uma questão de oportunidade. Há muita incerteza sobre como será o processo de transição na Venezuela, mas há um interesse claro da China na região.

Mudança de estratégia

Até o início dos anos 2000, a exploração de petróleo em países sul-americanos que abriram o setor à concorrência, como o Brasil, tinha empresas europeias e americanas como protagonistas.

Isso começou a mudar nos anos 2010, quando os EUA passaram a direcionar suas atenções para o seu próprio shale gas (gás de xisto que deu ao país a autossuficiência), abrindo espaço para a incursão de estatais chinesas na região como investidoras, fazendo aquisições ou se associando a consórcios que operariam, por exemplo, os megacampos do pré-sal em parceria com a Petrobras, lembra Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV.

Neste período, a China também intensificou sua busca no mundo por outros insumos para seu crescimento acelerado, como cobre e minério de ferro, acompanhados do crédito de seus bancos estatais e investimentos em infraestrutura nos países-alvo.

Onde estão os investimentos das petroleiras americanas e chinesas na América do Sul — Foto: Editoria de arte

No Brasil, as chinesas CNOOC, CNPC e Sinopec já respondem por 6,2% da produção de petróleo, cerca de 305 mil barris por dia. Ainda estão atrás das europeias (como Shell, Total, Petrogal e Equinor), com mais de 920 mil barris diários (19%), mas à frente das americanas, que se concentram atualmente em campos brasileiros ainda em fase de exploração. A Exxon produz no Brasil hoje 7 mil barris diários, mas, com a Chevron, soma 40 áreas em desenvolvimento, contra 28 das chinesas.

Influência sobre o preço

O pesquisador da FGV observa que, com Trump, os EUA voltaram a ver o petróleo como recurso estratégico. O republicano indicou a interlocutores semana passada que quer influenciar o mercado para baratear combustíveis nos EUA com a queda do preço do petróleo, da faixa atual de US$ 60 para US$ 50, o que pode colidir com os interesses das petroleiras.

A advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou destaca o “elevado risco político” e a “fragilidade” estrutural do país. Seriam necessários ao menos R$ 100 bilhões em investimentos para retomar a capacidade de produção que a Venezuela já teve. Trump quer que as petroleiras americanas façam esses aportes em troca de altos lucros, mas executivos saíram cautelosos de uma reunião com ele na sexta-feira.

— Do outro lado, a China vai buscar diversificar seus investimentos — pontua Paz.

Nos leilões recentes no Brasil, americanas e chinesas foram os destaques no pré-sal e em novas áreas como as bacias marítimas de Pelotas, no Sul, e Foz do Amazonas, no Norte. O mesmo se dá no Suriname e na Guiana, que recebeu investimentos de US$ 13 bilhões em 2024, e conseguiu fazer chineses e americanos se tornarem sócios no principal bloco de sua porção da Margem Equatorial.

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