COBERTURA ESPECIAL - Rafale

07 de Abril, 2013 - 20:00 ( Brasília )

Rafale avança na conquista de sucesso comercial

Amadurecimento de negociações em 3 continentes pode fazer do Rafale mais um caso bem sucedido de vendas da Dassault


por Vianney Jr.,
de Saint Cloud e do Rio de Janeiro

A agência DefesaNet ouviu os dois mais importantes nomes da Dassault e do Programa Rafale, respectivamente na França e no Brasil, o Presidente e CEO do Grupo, Eric Trappier, e o Diretor da Dassault International do Brasil, Jean-Marc Merialdo.

Divulgamos os pontos relevantes destas conversas neste momento, que se segue ao comentado sucesso da apresentação do caça da Dassault na mostra LIMA 2013, na Malásia, onde o Rafale é um dos favoritos na competição para substituição dos atuais F-5E/F e Mig-29N da Força Aérea daquele país. Também extraímos os mais atualizados detalhes da proposta da fabricante Francesa, short-listed no F-X2, a concorrência pública para compra dos 36 aviões à Força Aérea Brasileira.

Uma manhã no Alto do Sena

Na fria manhã de 18 de março, nos encontramos na sede da Dassault Aviation, em Saint Cloud, na França, com o Presidente e CEO, Eric Trappier. Previamente, fomos recepcionados na sala Pierre Clostermann, uma demonstração clara da sensibilidade e elegância francesas, nos honrando com a acomodação em uma área batizada com o nome do Ás da Segunda Grande Guerra, Franco-Brasileiro, nascido em Curitiba e crescido no Rio de Janeiro, formado piloto pelo Aeroclube do Brasil.

Após o acolhimento, conhecemos as instalações da empresa e tivemos uma apresentação do Centro de Realidade Virtual com a demonstração do mock-up digital, um modelo com exatidão de detalhes que permite à Dassault simular das características de voo de um novo protótipo, até mesmo ao life-cycle de suas aeronaves. Uma visita ao Centro de Imersão de Realidade nos propiciou uma experiência interativa no cockpit virtual do Rafale e a simulação da operação dos sistemas que promovem a interação entre o homem e a máquina - MMI. Tudo isto para começarmos a compreender os conceitos de engenharia e design do Grupo e seus reflexos sobre os produtos ali concebidos, mas, para além disso, perceber os valores imprimidos no estilo de relacionamento com seus clientes.

Eric Trappier tem expressão vibrante, que inspira a paixão e convicção na capacidade e qualidade de seus aviões. A ele deve-se em grande parte o sucesso mundial do antecessor do Rafale, o Mirage, cuja venda em largos números no Oriente Médio tem sua assinatura. Quando perguntado sobre as perspectivas do caça conquistar um desempenho de vendas semelhante, guardadas as devidas proporções da realidade atual de redução do número de aeronaves e restrições orçamentárias, Monsieur Trappier afirma que o momento dos resultados está em franco caminho de concretização.

Ele explica que o processo de venda de aeronaves militares tem um tempo absolutamente próprio, principalmente se levarmos em conta as transformações em curso. “O Rafale incorpora hoje um Radar AESA operacional, peça imprescindível a um caça de primeira linha. Isto é um exemplo da maturidade e consolidação das capacidades de nosso produto, ajustadas à realidade, e que o mantém em estado-da-arte, apto a competir com as mais modernas tecnologias”, define. Outro aspecto levantado em defesa do caça da Dassault, é independência. “Uma vantagem que podemos oferecer, é o acesso de nossos clientes a uma plataforma que permite a incorporação de desenvolvimentos próprios nacionais de cada operador”, e complementa que, no caso do Brasil, a Dassault e o Governo François Hollande já garantiram oficialmente todos os itens da oferta ao Governo Brasileiro, o que inclui 100% de transferência de tecnologia, inclusive repassar à Força Aérea os códigos-fonte do Rafale, o “coração digital” dos programas de computador que controlam a aeronave e suas armas.

Concluindo nosso encontro, o Presidente e CEO da fabricante francesa, concorrente no F-X2 brasileiro, reafirmou sua confiança no que chama de “parceria ideológica e política natural”, uma vez que “a visão socialista da França é a que mais se assemelha com a do Governo Brasileiro”, definindo seu ponto de vista sobre as vantagens estratégicas acerca de tal decisão.

Uma noite em Copacabana

Uma semana depois, já ao ar tropical do Rio de Janeiro, tive outro proveitoso encontro, com o Diretor da Dassault International do Brasil. Jean-Marc Merialdo, que já acrescentou ao seu nacional pendão Bleu-Blanc-Rouge, tons Verde-Amarelo, daí a naturalidade com que versa sobre o Brasil. Mais uma vez, uma demonstração da sensibilidade do grupo francês.

Nosso objetivo nesse encontro, foi aprofundar questões acerca da visão da Dassault no Brasil e detalhes da oferta do Rafale para a Força Aérea. Merialdo de pronto enfatizou que a oferta francesa se pautou pelo integral atendimento às exigências da RFP (request for proposal) do Governo Brasileiro, sem aspas em nenhum item, nem pendências referentes à sujeição de autorizações. Quando da oferta da Dassault, havia já então, plena aprovação da República Francesa para todas as questões sensíveis de transferência de tecnologia e conhecimento.

“O ponto de partida de nossa oferta foi oferecer a transferência de autonomia ao Brasil para fazer melhorias ao avião, integrar novas capacidades e novos armamentos além de incorporar itens específicos de desenvolvimento adequados à realidade brasileira. Também já no início da formatação da proposta, a capacidade de fazer toda a manutenção do avião no próprio país, tendo em vista o que aconteceu no passado com os Mirage, cujos motores tinham que ser enviados à França. Esta foi a primeira linha geral”, especifica o Diretor da Dassault.

“A segunda linha geral foi a imposição da transferência de tecnologia para a indústria brasileira e para a própria Força Aérea, o que significa que o DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial),será um dos principais receptadores desta tecnologia”, completa Merialdo.
 
Quando peço para detalhar ainda mais o diferencial da proposta ele afirma que “o coração da oferta está articulado em torno de todos os pedidos de modificações do Rafale feitos pela FAB, por volta de 18 itens, que envolve um leque de especificidades bem brasileiras”. A execução deste processo já está desenhada de forma concreta, segundo ele, em três etapas. Na primeira, técnicos e engenheiros brasileiros vão para a França receber uma formação que inclui toda a documentação física e eletrônica do Rafale, o que faz parte da NAP - National Autonomy Package, para poder intervir no próprio Rafale.

Depois disso, ainda na França, junto com técnicos e engenheiros franceses, os brasileiros irão começar a trabalhar nas primeiras modificações a serem implantadas no avião. Numa segunda etapa, brasileiros e franceses vão se deslocar para o Brasil nas respectivas empresas ou entidades, como no caso do DCTA, e vão continuar desenvolvendo e adequando novas capacidades ao avião, no Brasil, sob supervisão francesa. Na terceira etapa, então, o comando destas modificações passa em definitivo aos técnicos e engenheiros brasileiros, ficando seu pares franceses no apoio, até terminar todo o conjunto de modificações previstas. Segundo Merialdo, “este esquema é o coração de nossa oferta de transferência prática e real de tecnologia e conhecimento”.

No que diz respeito ao armamento ar-ar, foi oferecido o MICA, como também foi considerada a pedido da FAB, a integração de todos os outros mísseis disponíveis no inventário ou programas da Força, como o A-Darter. Para missões ar-solo foi oferecido o AASM além da integração de qualquer outro de posse do Brasil. Merialdo destaca que o próprio Ministério da Defesa Francês já aprovou a disponibilização e desenvolvimento conjunto ao Brasil de novos armamentos a serem integrados no Rafale. “Dentro da oferta da Dassault, também foi oferecido o Pod Damocles, e obviamente, já foi aberta a possibilidade de integrar outros Pods de posse da FAB, como o LITENING”, esclarece, passando a destacar os itens de offset, a seguir.

Hoje, já celebrados, são 78 acordos com empresas e universidades. À Embraer, por exemplo, estão previstos desde todos os testes em voo à produção de asas de aviões de caça supersônicos, dentre outras partes e sistemas. Em um número global, o percentual de compensação da oferta da Dassault alcança os 160%, nos explica Merialdo. “Em termos de tempo, tudo o que está relacionado ao desenvolvimento de novas funções no Rafale Brasileiro, evidentemente está enquadrado no prazo de entrega da ordem de 3 anos a partir do T-zero”, quantifica.

O Diretor da Dassault me lembra da carta oficial na qual o Governo Francês se compromete à comprar no mínimo dez KC-390, para as Forças Armadas daquele país, quando da escolha do Rafale pelo Brasil.

Peço uma ilustração concreta de qualificação internacional para empresas e profissionais brasileiros, e Merialdo menciona o caso da empresa Omnisys, sediada em São José dos Campos. “A Omnisys foi criada por engenheiros brasileiros, trabalhando em diversos projetos de radares, e em 2000 a Thales adquiriu participação na empresa transferindo à Omnisys a produção de radares de vigilância aérea para a aviação civil. Depois de produzir esse radar, passou a desenvolver novas funções e performances para este produto, passando a exportar do Brasil para diversos países como Cingapura, China e a própria França. Está prevista para a Omnisys receber a tarefa de desenvolver a nova parte do software do radar AESA do Rafale e também produzir as antenas ativas do próprio radar para os aviões brasileiros e para futuros compradores no exterior. A previsão é que ele possa dobrar a sua mão de obra com esse aumento de carga do programa Rafale”, esclarece. 

Merialdo completa as explicações destacando que a oferta da Dassault é mais focada em transferência de tecnologia do que a transferência de carga industrial. “Nossa experiência demonstra que essa tecnologia gera atividade econômica não só restrita a uma área específica, mas sim estendendo-se à outras áreas tecnológicas tão logo absorvida pelo próprio país”, defendendo o que em ditado local traduz-se em “ensinar a pescar tem mais valia do que simplesmente dar o peixe”, conclui. 

Aproveito para questionar sobre as recentes notícias referentes à questões industriais no processo de compra de 126 caças pela Força Aérea Indiana. Primeiramente, Merialdo menciona que “o Rafale foi o vencedor em um rigoroso processo de escolha que levou em conta aproximadamente 650 itens e medidas, em 3 avaliações em ambientes diferentes, entre eles um montanhoso, nas quais o Rafale demonstrou suas capacidades e foi escolhido frente a outros concorrentes, dentre estes os dois modelos concorrentes também no Brasil”, e ainda acrescenta que, até nos itens referentes a life-cycle cost o caça da Dassault venceu, sendo avaliado como o menor. Quanto às eventuais demoras na confecção do contrato, Merialdo pondera que por força de sigilo e confidencialidade acordados, a Dassault tem por política não comentar detalhes de negociações com clientes civis ou militares, no entanto, afirma ser natural que ajustes e acomodações sejam feitos no decorrer do processo contratual.

O Diretor da Dassault Internacional do Brasil é confiante no sucesso de vendas de seu caça “omnirole” - expressão que costuma usar para descrever a capacidade de desempenhar todos os diversos tipos de missão aérea em uma mesma surtida - citando que além da Índia, a França retomou negociações com os Emirados Árabes Unidos, em uma negociação com valores expressivos (60 Rafales - nota do autor). “Além destas negociações em curso, mais 5 países (Qatar, Malásia, Kuait, Canadá, ? - nota do autor) demonstraram interesse no Rafale, mediante competições ou consultas diretas”, diz Merialdo. “Assim considerados que alcançaremos nosso objetivo com o Rafale, que é o mesmo para todos os nossos aviões, vender ao exterior, no mínimo, o mesmo número de aeronaves que foram vendidos para as Forças Armadas Francesas”, conclui confiante.

Tendo estado em Istres, base de Ensaios em Voo da Dassault, na semana anterior, e havendo percebido a aura de satisfação dos engenheiros em função dos recentes voos do nEUROn, pergunto a Merialdo se enxerga no futuro, a operação do Rafale em conjunto com drones de combate. Estaria o caça francês apto à integração com estas novas tecnologias? “Nesse respeito, vale lembrar que ao contrário de outras aeronaves, o biplace do Rafale não foi concebido como uma aeronave de treinamento e instrução, mas sim, como uma aeronave de combate com o diferencial da capacidade de conduzir missões mais complicadas que exijam mais atenção por parte da tripulação.

Dentro das possibilidades de emprego, nós consideramos também a capacidade do Rafale, no futuro, vir a controlar um determinado número de aeronaves não tripuladas, como o nEUROn, lembrando no entanto, que aquele UCAV que voou não é ainda uma aeronave operacional, mas sim um demonstrador de tecnologia, que vai servir para definir as novas tecnologias para futuras aeronaves de combate”, responde Merialdo, citando o recente sucesso da cooperação europeia para a construção de uma aeronave de combatestealth não tripulada.

Com esta visão do futuro e das respostas diretas às questões levantadas, despedi-me de Jean-Marc Merialdo, convencido de que a proposta da Dassault é clara e ajustada à requisição expedida, e por tê-lo voado em diversos cenários de circunstâncias operacionais, que o Rafale tem capacidades suficientes para corresponder aos desafios que um país de dimensões continentais, e que se consolida além de potência regional, como ator de relevância mundial, deverá estar preparado para enfrentar agora e nos anos próximos.



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Última atualização 17 DEZ, 20:52

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