COBERTURA ESPECIAL - Prosub

26 de Junho, 2014 - 09:00 ( Brasília )

Energia nuclear: o Brasil pode abrir mão?

Brasil tem a sexta maior reserva de urânio do mundo, detém tecnologia própria de enriquecimento e dispõe de um complexo produtivo consistente


Sergio Malta
Presidente do Sinergia (Sindicato Interestadual das
Indústrias de Energia Elétrica) e conselheiro da FIRJAN


Desde fins de 2012, o sistema elétrico brasileiro vem enfrentando um verdadeiro teste de stress em função da configuração de uma crise hidrológica com nível de chuvas, em praticamente todas as regiões, bem abaixo das médias históricas. Essa situação anormal indica de forma clara e objetiva um processo de transição do sistema elétrico de modelo de geração hidroelétrico para geração hidrotérmica, sem que a política e o planejamento elétrico estejam adotando medidas necessárias e compatíveis com essa transição inexorável de paradigma.

A origem desse novo paradigma de geração está diretamente relacionada à imposição de um conjunto complexo e confuso de restrições derivado da política e da legislação ambiental, que dificultam e impedem a construção de usinas hidrelétricas, em especial daquelas que podem ter reservatórios de acumulação.

Como resultado direto dessas restrições ambientais, a capacidade de regulação dos reservatórios entre os períodos de chuva e de estiagem vem se reduzindo de forma significativa e gradativa, diminuindo a capacidade de oferta de energia de fonte hídrica ao longo do ano. Nos últimos anos, é possível constatar uma maior velocidade de esvaziamento dos reservatórios entre os meses de abril a novembro. E recentemente, por conta da crise hídrica, desde outubro de 2012 praticamente todo o parque de usinas termelétricas vem sendo despachado de forma contínua. Como a maioria dessas usinas foram contratadas para operarem como back up, ou seja, para operar não intensamente, os custos acabam provocando aumentos elevados para os consumidores. Portanto, é perceptível que o sistema elétrico encontra-se diante de um problema estrutural, de mudança de paradigma, que foi agravado por uma conjuntura de afluências desfavoráveis.

A ampliação da inserção de fontes renováveis, especialmente energia eólica, é bastante pertinente para diversificação da matriz brasileira e para manter a sua posição de uma das melhores do mundo em termos de sustentabilidade e economia verde. No entanto, por ser uma fonte sujeita a interrupção, sem capacidade própria de armazenamento de excedentes, é imprescindível a contratação de centrais de geração de energia controláveis para garantir segurança de operação e suprimento de energia elétrica, justificativa que fica ainda mais evidente frente à diminuição relativa da capacidade de armazenamento das usinas hidroelétricas.

Desta forma, a política e o planejamento elétrico brasileiro terão que ampliar a participação das fontes não renováveis na matriz. Há três vetores de possibilidades: carvão, gás natural e energia nuclear. A ampliação da fonte carvão na matriz é difícil, não por questões ambientais, pois o Brasil só tem 16 plantas a carvão. O problema é que o Brasil não tem reservas de carvão de qualidade, o que levaria à importação desse insumo energético, introduzindo mais um componente de custo cambial.

A segunda alternativa é o gás natural, que o Brasil ainda não tem produção suficiente, importado da Bolívia e via GNL. Há perspectivas positivas em relação ao gás natural vinculado às explorações de petróleo das reservas do pré-Sal. Possivelmente para viabilizar as necessidades mais imediatas e, de certa forma, urgentes, em função da rápida transição para o paradigma hidrotérmico, o planejamento adotará um mix entre GNL com gás do pré-Sal.

No entanto, a construção de plantas termonucleares parece ser a melhor opção para a próxima década, quando o potencial hidrelétrico estará esgotado através, basicamente, da construção de usinas hidrelétricas do tipo fio de água, ou seja, sem reservatórios.

As usinas nucleares apresentam uma grande e harmônica vantagem técnica para a matriz elétrica, que é a operação na base, com custo variável unitário relativamente baixo. Além disso, apresenta externalidades econômicas derivadas de o Brasil ter a sexta maior reserva de urânio do mundo, deter tecnologia própria de enriquecimento de urânio e ter um complexo produtivo consistente que poderia dar uma contribuição econômica e tecnológica para o desenvolvimento e ampliação dessa fonte na matriz elétrica brasileira.