COBERTURA ESPECIAL - Panorama Haiti - Geopolítica

01 de Julho, 2014 - 13:33 ( Brasília )

Cruz del Sur prevê estréia no Haiti em 2016

Três anos depois de ter sido oferecida à ONU, a Força de Paz formada por Argentina e Chile continua inservível; e, por culpa dos argentinos, só deve fazer sua estréia dentro de dois anos, no teatro de operações do Haiti.

 

Cruz del Sur prevê estréia no Haiti em 2016


Roberto Lopes
robertojlopes@hotmail.com

Jornalista especializado em assuntos militares.
Em 2000 graduou-se em Gestão e Planejamento de Defesa
no Colégio de Estudos de Defesa Hemisférica
da Universidade de Defesa Nacional dos Estados Unidos, em Washington.
Autor de vários livros, em 2001 lançou, em Washington, a monografia
“Oportunidades para Civis na Condução dos Assuntos
da Defesa Nacional: o Caso do Brasil”.

 
 
O Ministério da Defesa argentino recorreu a uma resolução ministerial de 2010, a de número 1.501 – que define o Plano de Equipamento Conjunto para Operações de Manutenção da Paz (PECOMP, na sigla em castelhano) –, para dar início à aquisição do último lote de equipamentos necessários à prontificação do seu batalhão de infantaria da Força de Paz Binacional Cruz del Sur (Fuerza de Paz Conjunta Combinada Cruz del Sur), criada há oito anos juntamente com os militares chilenos.

Buenos Aires vai comprar dois helicópteros de porte médio franceses, além de viaturas blindadas 4x4 e 8x8, também européias. A escolha dos veículos de maior porte deve recair sobre os carros suíços Mowag Piranha, que o Corpo de Fuzileiros Navais do Brasil também importou para transportar os seus boinas azuis (combatentes a serviço das Nações Unidas) pelas ruas de Port-au-Prince, a capital haitiana.

A Cruz del Sur foi oferecida ao Departamento de Operações de Paz da ONU ainda em dezembro de 2010, e teve essa disponibilidade ratificada perante o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, em junho de 2011. Contudo, a tropa – de aproximadamente 1.200 homens – nunca pôde ser convocada, por força do insuficiente preparo material argentino, e do rol de problemas políticos mantidos pela Administração Kirchnerista com a Inglaterra e os Estados Unidos.

Oferta

Recentemente, a empresa estadunidense Sikorsky, que faz a remodelação dos velhos helicópteros Sea King da Marinha argentina, ofereceu ao Exército portenho um lote de aeronaves UH-60L Black Hawk usadas, que seriam revisadas e comercializadas pelo valor unitário de US$ 6,5 milhões.

Equipamentos desse tipo já são empregados pelos Exércitos da Colômbia e do Brasil. Contudo, focados na aquisição dos aparelhos franceses, os argentinos não demonstraram entusiasmo pela oferta americana.

A cautela que presidiu a análise da alternativa oferecida pela Sikorsky teria sido motivada pelo receio de que, numa circunstância de esfriamento das relações Washington-Buenos Aires, o governo americano possa vir a bloquear o fornecimento de peças de reposição e outros suprimentos para as aeronaves – atitude que a Casa Branca já adotou no caso dos equipamentos militares de origem estadunidense a serviço das Forças Armadas venezuelanas. A ligação entre Estados Unidos e Argentina vem se caracterizando pela instabilidade desde o fim de1999, quando o presidente Carlos Saúl Menem deixou a Casa Rosada. 

Helicópteros argentinos e chilenos operaram de forma combinada no Haiti, ano passado, transportando soldados uruguaios do contingente da ONU, mas essas tarefas – cumpridas pelos velhíssimos UH-1H argentinos – não aconteceram no âmbito da "la Fuerza de Paz Conjunta Combinada Força Cruz del Sur".

Buenos Aires já havia iniciado os procedimentos de compra de um helicóptero Bell 412 de segunda mão para a Força de Paz, já que possui um outro aparelho desse tipo, mas os oficiais argentinos constataram que as aeronaves não eram perfeitamente iguais (o que dificultaria a manutenção), e resolveram recomeçar os trâmites de aquisição concentrados em modelos franceses – que, eventualmente, poderão até ser revisados na indústria brasileira Helibras.

Com os recursos do PECOMP, os argentinos também vão adquirir rádios de campanha, mochilas, sacos de dormir e até capas de chuva – quer dizer, praticamente tudo que uma tropa expedicionária necessita para operar em campo aberto.

O comando do Exército argentino considera, igualmente, que os seus meios mecanizados representam uma séria deficiência da corporação.

Na invasão das Malvinas, em abril de 1982, eles levaram para a capital Port Stanley (rebatizada, à época, de Puerto Argentino), alguns blindados ligeiros de origem francesa Panhard AML-90 – viaturas de 5,5 toneladas, com tração 4x4, dotadas de um canhão de 90mm. Mas, hoje, esses veículos (cerca de 40), além de estarem obsoletos, apresentam desgaste excessivo.

Os argentinos encaram a questão do reequipamento do seu material rodante blindado tão prioritário, que já se colocaram como potenciais clientes da família de blindados brasileiros Guarani (de desenho da companhia italiana Iveco).

Em Brasília, o Comando do Exército avalia a possibilidade de embarcar um certo número de viaturas Guarani juntamente com a tropa de infantaria que seguirá, no início de 2015, para o sul do Líbano, a fim de juntar-se às chamadas “forças de imposição de paz” da ONU ali estacionadas. A região é considerada de periculosidade elevada, por causa das freqüentes escaramuças entre forças israelenses e o grupo guerrilheiro Hizbollah.

A carência de equipamentos básicos demonstrada pelo batalhão argentino da Força Cruz del Sur, demonstra a incapacidade das Forças Armadas desse país para operar fora de suas fronteiras.