COBERTURA ESPECIAL - PCC - Gangues - Segurança

17 de Novembro, 2019 - 22:22 ( Brasília )

Carlos Wagner - Cartéis de droga sul -americanos estão mexicanizando o tráfico no Brasil



 

Carlos Wagner

O mais experiente jornalista brasileiro em questões de fronteiras e grupos criminais
Histórias Mal Contadas




O Brasil caminha a passos largos para se perfilar ao lado do México como um dos maiores países de trânsito de drogas do mundo. Nas últimas duas décadas, os cartéis de cocaína sul-americanos financiaram a estruturação de grupos criminosos mexicanos que abastecem de coca o mercado dos Estados Unidos.

Sem a cocaína dos colombianos não existiria Joaquín Archivaldo Guzmán Loere, o El Chapo, o maior traficante do México – atualmente preso nos Estados Unidos e sobre quem existem documentários, reportagens e séries de filmes disponíveis na internet.

O Brasil é vizinho dos três maiores produtores de cocaína do mundo: Colômbia, que produz 50%, Peru, 33%, e Bolívia, 17%. Os cartéis estão estruturando os seus parceiros no tráfico para que os aeroportos e portos brasileiros sejam a porta de saída para abastecer o mercado europeu.

No México, os intermediários entre os produtores e os consumidores americanos estão organizados em cartéis, como o Sinaloa, de El Chapo. A guerra entre eles pelo controle do trânsito da droga é responsável por centenas de mortes – há vasto material na internet. Se nada for feito no Brasil, o país caminha para a formação de cartéis de intermediários.

Há relatórios de várias agências ligadas ao controle do tráfico de drogas que apontam nessa direção, inclusive a inteligência da Polícia Federal (PF). Li esses relatórios por conta do trabalho que estou fazendo de atualização do meu livro País-Bandido Crime Tipo Exportação, editado em 2003. O livro é sobre as fronteiras do Brasil.

Não passa um mês se que os jornais brasileiros noticiem uma apreensão recorde de cocaína por parte da PF ou da Polícia Rodoviária Federal (PFR). O aumento no trânsito de drogas pelo território nacional é um fato. A intermediação entre os produtores de coca e o mercado europeu no Brasil hoje é feita pelas três maiores facções criminosas do país: o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e a Família do Norte (FDN), de Manaus (AM).

A FDN nasceu na periferia de Manaus em 2007 e tem crescido de importância na geografia do crime porque é responsável pelo transporte, através do emaranhado de rios e canais da Região Norte, de enormes quantidades de cocaína vinda dos países produtores. A FDN é aliada do PCC. Mas logo, logo vai reivindicar o seu lugar ao sol. É assim que começam as guerras. Aliás, a entrada das facções nesse mercado começou com uma guerra, em 2002, em Capitán Bado, cidadezinha paraguaia separada por uma rua de Coronel Sapucaia, no oeste do Mato Grosso do Sul.

Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, famoso traficante do Rio de Janeiro, um dos fundadores do CV, estava foragido em Bado, protegido por João Morel, líder de uma gangue local que fornecia maconha, armas e munição para as favelas cariocas. Beira-Mar viu o potencial de negócios da região. Matou a família de Morel e tomou conta dos negócios, montando na fronteira um entreposto da cocaína vinda da Colômbia.

Ele foi pessoalmente negociar com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) a troca de cocaína por medicamentos e munição. Beira-Mar acabou preso na floresta colombiana e cumpre pena no Brasil. Mas os negócios do CV se consolidaram e se ampliaram na região.

Hoje o PCC também se estabeleceu por lá. A posição no mercado de drogas de entreposto também se consolidou no Paraguai. O país é grande produtor de maconha. Todas as pequenas facções regionais de criminosos, com os Bala na Cara, de Porto Alegre (RS), se abastecem de drogas no Paraguai.

Até os cartéis de traficantes sul-americanos investirem na consolidação do território nacional como rota de passagem de drogas para a Europa, as organizações criminosas se envolviam com a venda no varejo do mercado interno.

Pelo volume de apreensões pode-se ver que as quantidades enviadas para a Europa são grandes. O que isso significa? Muito dinheiro envolvido. O que vem por aí merece atenção das autoridades brasileiras. Conheço bem as delegacias da PF das fronteiras. Eles enfrentam vários problemas, sendo que o principal é a carência de efetivos. Como me explicou um agente: “Uma coisa é pegar uns quilos de cocaína, outra é enfrentar o sistema de segurança que guarnece as grandes quantidades”.

Fica uma pergunta. Qual o plano do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, para enfrentar o trânsito de drogas pelo território nacional rumo ao países da Europa?



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