COBERTURA ESPECIAL - Nuclear - Geopolítica

23 de Agosto, 2016 - 11:00 ( Brasília )

EUA muda armas nucleares da Turquia para a Romênia


Georgi Gotev, Joel Schalit
Voz da Turquia


Duas fontes independentes contaram à EurActiv.com que os EUA começaram a transferir armas nucleares posicionadas na Turquia para a Romênia, em um cenário em que as relações ente Washington e Ancara estão piorando.

De acordo com uma de nossas fontes, a transferência tem sido desafiadora em termos técnicos e políticos.

“Não é fácil deslocar mais de 20 ogivas nucleares”, disse a fonte, sob condição de anonimato.

De acordo com um relatório recente feito pelo Simson Center, desde a Guerra Fria, cerca de 50 armas nucleares táticas estiveram posicionadas na base aérea de Incirlik, na Turquia, aproximadamente a 100 quilômetros da fronteira com a Síria.

Durante o golpe fracassado na Turquia em julho, a energia para Incirlik foi cortada, e o governo turco proibiu as aeronaves americanas de voarem para lá ou saírem de lá. Por fim, o comandante da base foi preso e envolvido no golpe.

Se os EUA poderia ter mantido o controle das armas no caso de um conflito civil prolongado não é uma pergunta que não é possível responder, diz o relatório.

Outra fonte contou ao EurActiv.com que as relações EUA-Turquia se deterioraram tanto que depois do golpe que Washington não mais confiava em Ancara para guardar as armas lá. As armas americanas estão sendo deslocadas para a base aérea de Deveselu na Romênia, disse a fonte.

Deveselu, perto da cidade de Caracal, é o novo lar do escudo de mísseis dos americanos, o que deixou a Rússia furiosa.

A Romênia era uma aliada da União Soviética durante a Guerra Fria, mas nunca hospedou armas nucleares durante esse período. Posicionar armas nucleares americanas táticas próximas às fronteiras da Rússia provavelmente deixará ela furiosa e levará a uma escalada. O posicionamento de mísseis nucleares russos em Cuba em 1962 foi o mais próximo que a Guerra Fria chegou de aumentar para uma guerra nuclear completa.

O EurActiv pediu ao Departamento de Estado Americano, e aos ministérios do exterior turco e romeno, que comentassem. Os americanos e turcos prometeram responder. Após várias horas, o Departamento de Estado disse que a questão deve ser direcionada ao Departamento de Defesa. O EurActiv publicará a reação do Departamento de Defesa assim que for recebida.

Enquanto isso, a OTAN enviou um comentário com um palavreado diplomático sugerindo que os aliados devem assegurar que as armas nucleares americanas instaladas na Europa permaneçam “seguras”.

“Quanto a sua pergunta, por favor verifique o Comunicado da Cúpula da OTAN em Varsóvia (publicado em 9 de julho de 2016), no parágrafo 53: ‘A postura de dissuasão nuclear da OTAN também depende, em parte, das armas nucleares dos Estados Unidos de posicionamento avançado na Europa e das capacidades e infraestrutura fornecidas pelos Aliados envolvidos. Esses Aliados assegurarão que todos os componentes da dissuasão nuclear da OTAN permaneçam a salvo, seguros e efetivos”, escreveu um porta-voz da OTAN para o EurActiv.

A cúpula da OTAN ocorreu apenas alguns dias antes da tentativa fracassada de golpe na Turquia. Naquele momento, os riscos para as ogivas nucleares em Incirlik estavam relacionados à proximidade da guerra na Síria e aos vários ataques terroristas que aconteceram na Turquia nos últimos meses. Por alguns dos ataques, Ancara culpou o Estado Islâmico, e por outros o PKK, a organização militar curda que aparece nas listas de terroristas da União Europeia e dos EUA.

Romênia nega veementemente

O ministério do interior romeno negou veementemente a informação de que o país virou o novo lar das ogivas nucleares americanas. “Em resposta a sua pergunta, o Ministério das Relações Externas romeno nega firmemente a informação a que se referiu”, escreveu um porta-voz.

De acordo com uma prática que data da Guerra Fria, informação vazada a respeito da presença de armas nucleares americanas em sola europeu nunca foi oficialmente confirmada. Contudo, é de conhecimento público que a Bélgica, a Holanda, a Alemanha e a Itália mantém armas nucleares americanas.

Depois do golpe fracassado, as relações entre Washington e Ancara estão em sua pior fase desde que a Turquia se juntou a OTAN em 1952. Ancara acredita que o governo americano apoia o clérigo turco exilado nos EUA, Fethullah Gulen, a quem ela acusa de ser o mentor do golpe fracassado. A Turquia exige a extradição de Gulen, e se espera que a questão tome o centro do palco quando o vice-presidente americano Joe Biden visitar a Turquia em 24 de agosto.

Arthur H. Hughes, um embaixador americano aposentado, escreveu para o EurActiv ontem (17 de agosto) dizendo que Gulen de fato recebeu uma considerável assistência da CIA.

A Rússia capitalizou em cima das maculadas relações EUA-Turquia e há temores nas capitais ocidentais de que a Turquia, membro da OTAN, poderia se aproximar ainda mais de Moscou – com o Presidente Recep Tayyip Erdogan deixando claro de forma grossa que se sente decepcionado com os Estados Unidos e com a União Europeia.

Ao ser entrevistado hoje (18 de agosto) por jornalistas romenos que pediram que comentasse o artigo do EurActiv, Mihnea Motoc, Ministro da Defesa da Romênia, afirmou que não existe nenhum plano para abrigar armas nucleares americanas na Romênia.

“Não existem planos nessa direção. Podemos apenas chamar essa informação de especulação”, disse Motoc.

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Armas nucleares dos EUA na Turquia podem cair em mãos de terroristas [Link]

Fonte: http://www.euractiv.com/