25 de Outubro, 2012 - 08:48 ( Brasília )

Militar brasileiro em fragata argentina detida em Gana retorna a Buenos Aires


O segundo-tenente da Marinha, Lailton Souza Jorge, de 26 anos, desembarcou, na madrugada desta quinta-feira, na capital da Argentina, Buenos Aires, junto a outros 280 militares, em sua maioria argentinos, após passar 22 dias em uma embarcação da Marinha do país no porto de Tema, em Gana, na África.

A fragata Libertad, de nacionalidade argentina, foi impedida, no último dia 2 de outubro, de deixar o porto africano porque a justiça local acatou o pedido de um fundo de investimentos que reclama uma suposta dívida da Argentina na justiça internacional.

Souza, o único brasileiro na tripulação, participava da 43ª Viagem de Instrução do navio, usado para a instrução de futuros oficiais e marinheiros.

Segundo fontes do governo brasileiro, ainda não há confirmação se o militar, que é da Bahia, mas mora no Rio de Janeiro, permanecerá na capital argentina para a conclusão do curso naval que faria no navio do país vizinho.

"É o que estamos analisando", disseram autoridades brasileiras à BBC Brasil.

Segundo o cronograma oficial, ele retornaria ao Brasil em janeiro do ano que vem.

Como a questão envolve a Marinha e o governo vizinho, autoridades brasileiras estão tomando cuidado para não "afetar" a relação bilateral.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, os militares chegarão em um voo da Air France fretado pelo governo da presidente Cristina Kirchner.

Apreensão

No dia 2 de outubro, a fragata Libertad não pôde deixar o porto de Tema, em Gana, no oeste da África, depois de o governo local ter acatado o pedido do fundo de investimentos NML que exige o pagamento de títulos de dívida da Argentina na justiça internacional.

O barco só poderia ser liberado a partir do pagamento de fiança de US$ 20 milhões (R$ 40 milhões), segundo informou a imprensa argentina.

A presidente Cristina Kirchner determinou que a embarcação fosse evacuada e que os militares voltassem para Buenos Aires.

"Enquanto eu for presidente, podem ficar com a fragata, mas com a liberdade, a soberania e a dignidade deste país não vai ficar nenhum fundo de especuladores", disse a presidente na última segunda-feira, durante pronunciamento veiculado nas redes nacional de rádio e de televisão.

A declaração da presidente gerou polêmica no país. A fragata é considerada um "símbolo" da Argentina e opera há mais de 50 anos.

Nas últimas horas, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Hector Timerman, participou de reuniões nas Nações Unidas, em Nova Iorque, para tentar a liberação da embarcação.

No entanto, a fragata continuava impedida de sair do porto, nesta quarta-feira, de acordo com a imprensa local.

O governo argentino levaria a questão ao G20, a Unasul e ao Mercosul, segundo diplomatas do país vizinho.

O analista de política do jornal Clarín, Eduardo van der Kooy, escreveu que a Argentina teria pedido ajuda ao Brasil para tentar costurar um acordo com Gana.

"Dois países, discretamente, mostraram disposição para colaborar. Chile quis emprestar um avião (para viagem de retorno dos militares) e o Brasil fez uma oferta similar. A via do Itamaraty ficou aberta para se tentar destravar o conflito com Gana, através de vias diplomáticas", publicou o jornalista.

No período em que a fragata Libertad esteve retida, uma comitiva com autoridades argentinas contou com apoio da diplomacia brasileira em Acra, capital de Gana, segundo fontes do governo brasileiro. A Argentina não possui representação diplomática no país.

"Mas Cristina não deve esperar milagres da representação brasileira em Gana", escreveu o jornalista argentino.

De acordo com a imprensa local, enquanto esperavam a liberação da fragata, os militares "jogaram futebol" e "passearam pela região".

Quando o governo argentino decidiu pela evacuação da fragata, eles saíram para comprar malas para voltar para Buenos Aires.

Além de argentinos e do brasileiro, integraram a viagem de estudo na embarcação militares chilenos, uruguaios, entre outros da América do Sul.

Cerca de 40 oficiais e sub-oficiais permanecerão a bordo "cuidando" da fragata em Tema.