05 de Janeiro, 2016 - 11:50 ( Brasília )

Mitsubishi acerta saída da Ecovix, dona do Estaleiro Rio Grande


Francisco Góes


Durou pouco a parceria de grupos industriais japoneses com a nascente indústria naval do Rio Grande do Sul. Um consórcio de cinco empresas japonesas lideradas pela Mitsubishi Heavy Industries (MHI) está saindo do capital da Engevix Construções Oceânicas (Ecovix), que controla o Estaleiro Rio Grande (ERG), na cidade gaúcha homônima. O estaleiro assinou contratos com a Petrobras para a construção de oito cascos de plataformas para o pré-sal e tinha previsão de entregar três sondas de perfuração para a Sete Brasil, empresa que deve cancelar encomendas e corre o risco de pedir recuperação judicial a curto prazo.

Pouco mais de dois anos depois de terem entrado no capital da Ecovix, em outubro de 2013, comprando 30% da empresa por cerca de US$ 300 milhões, a MHI, a Mitsubishi Corporation e os estaleiros Imabari, Namura e Oshima Shipbuilding estão deixando o negócio. O investimento deve ser considerado integralmente como "perda" pelos japoneses. Procurada no Japão, a MHI não se pronunciou.

A decisão que respalda a saída dos grupos nipônicos do capital da Ecovix foi tomada em dezembro pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O Cade aprovou, "sem restrições", a aquisição da fatia dos japoneses na empresa pela holding Jackson Empreendimentos, que já tinha 70% da Ecovix. Na operação, a Jackson deve comprar por valor simbólico a participação de 30% dos grupos japoneses. A fatia das empresas nipônicas está reunida na JB Minovix Investimentos e Participações.

Em nota, a Petrobras disse que "existem obrigações dos acionistas da Ecovix de cumprirem os escopos e garantias contratuais, que não são alterados em caso de troca de controle acionário. Desta forma, a mudança do controlador da Ecovix não pode mudar as relações contratuais de construção dos oito cascos replicantes".

A Ecovix foi criada em 2010 como braço de construção naval e offshore do grupo de engenharia Engevix, também controlado pela Jackson. A Engevix foi envolvida na Operação Lava-Jato, que investiga desvios de recursos da Petrobras, e teve sócios presos. Um deles, Gerson Almada, foi condenado em primeira instância a 19 anos de prisão. Outro sócio, José Antunes Sobrinho, foi preso em setembro e cumpre prisão domiciliar.

Em dificuldades financeiras desde então, o Engevix busca saídas para se reestruturar via venda de ativos, entre os quais a Ecovix, cuja subsidiária RG Estaleiros controla um complexo de estaleiros em Rio Grande. A Ecovix está em meio a um processo de reestruturação liderado pelo banco Brasil Plural, contratado como assessor financeiro. Nessa reestruturação, o objetivo é encontrar um sócio que tenha interesse em desenvolver o ERG com visão de longo prazo, para atender tanto Petrobras quanto outros clientes. Ecovix e Brasil Plural não se pronunciaram.

A partir da assinatura do acordo para a saída dos japoneses, que deve ser oficializado ainda este mês, a Ecovix quer encontrar um grupo que tenha interesse em fazer um aporte de capital na companhia. Estima-se no mercado que para terminar os cascos das plataformas em construção no ERG seja necessário cerca de R$ 1,5 bilhão.

Conforme já noticiado pelo Valor, o mercado entende que um dos potenciais interessados em comprar o ERG pode ser a China Offshore Oil Engineering Corporation (COOEC). O interesse da COOEC no ERG faz sentido, segundo fontes, uma vez que a empresa pertence ao mesmo grupo da China National Offshore Oil Corporation (CNOOC), sócia da Petrobras no campo de Libra, no pré-sal.

Na reestruturação, a Ecovix lançou plano, capitaneado pelo Brasil Plural, para renegociar dívidas que tem com os 178 fornecedores dos cascos das plataformas-replicantes (idênticas), encomendadas pela Petrobras. No total, a Ecovix deve R$ 1,7 bilhão a fornecedores, incluindo os cascos e as sondas da Sete Brasil. Do total, só com os fornecedores dos oito cascos são R$ 900 milhões. Já houve assembleias com os fornecedores dos cascos em São Paulo, Rio e Porto Alegre. A empresa conseguiu a adesão de mais de 60% dos credores ao acordo, que deve impor um desconto de 37,68% sobre os valores dos créditos, disseram fontes. Ao aderir ao acordo, o fornecedor terá de garantir a liberação de equipamentos que haviam sido bloqueados em função das dívidas em atraso.

Nas discussões, a Ecovix negociou com a Petrobras a criação de conta vinculada na qual a estatal aceitou fazer um adiantamento de cerca de R$ 500 milhões, equivalentes aos mais de 60% da dívida a serem pagos aos fornecedores no acordo. A Ecovix também conseguiu um acordo de suspensão temporária ("stand-still") com bancos credores aos quais deve R$ 1,6 bilhão, entendimento válido até o próximo semestre.

Japoneses uniram-se no retorno ao Brasil, mas agora enfrentam crise

A saída das empresas japonesas lideradas pela Mitsubishi Heavy Industries (MHI) do capital da Engevix Construções Oceânicas (Ecovix) representa o desfecho de uma crise envolvendo os investimentos de grupos nipônicos na construção naval e offshore no Brasil. As empresas japonesas, que já foram fortes nos estaleiros no país entre os anos de 1960 e 1980, via antiga Ishikawajima-Harima Heavy Industries, voltaram ao mercado brasileiro em anos recentes.

Para atuar no Brasil, as empresas japonesas chegaram a se unir no "Japan Team", grupo que reúne concorrentes nipônicas em busca de oportunidades no pré-sal. Nesse movimento, grupos industriais japoneses investiram em três estaleiros nacionais: a IHI liderou um consórcio de empresas nipônicas no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), de Pernambuco. Já a Kawasaki comprou fatia do Enseada, da Bahia, e a Mitsubishi adquiriu participação com outros sócios na Ecovix, dona do Estaleiro Rio Grande (ERG), do Rio Grande do Sul.

Todos enfrentam dificuldades resultantes de atrasos nos pagamentos, pela Sete Brasil, para a construção de sondas de perfuração para a Petrobras. Sofrem ainda as consequências da Lava-Jato, que atingiu as empreiteiras sócias dos estaleiros e também a Petrobras, o cliente único. Os três estaleiros fizeram demissões em massa.

No caso da Ecovix, parte dos cascos que seria feita no ERG teve a construção transferida para estaleiros na China. A questão é saber o que pode acontecer agora com os investimentos dos demais grupos japoneses nos estaleiros no país. Em maio do ano passado, executivos da IHI, Kawasaki e Mitsubishi estiveram com a presidente Dilma Rousseff em busca de apoio para a crise nos estaleiros. Mas nada aconteceu. O EAS, que tem Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e IHI como sócios, não comenta uma possível saída dos japoneses.

As perspectivas para o EAS tornaram-se mais sombrias a partir da notícia, publicada pelo Valor, de que a Transpetro pode cancelar metade da encomenda de navios-petroleiros que tem com o estaleiro. Procurada, a Transpetro disse que não iria comentar. O EAS disse que todos os contratos de sua carteira encontram-se plenamente vigentes, e em regular andamento. Dos 22 navios contratados pela Transpetro ao EAS, sete foram entregues, dos quais quatro nos últimos 13 meses. Há ainda oito embarcações em fase de construção, das quais três em estágio final.

O Enseada segue parado, mas segundo fontes a Kawasaki continua a apoiar o projeto. O estaleiro, liderado pela Odebrecht, tenta garantir que os contratos de quatro sondas sejam "honrados". Mas seriam, no entanto, "desacoplados" da Sete Brasil, disse a fonte.