22 de Julho, 2011 - 10:19 ( Brasília )

Geopolítica

No Tajiquistão, crescimento do islã preocupa o governo

Legisladores aprovam lei que proíbe menores de 18 anos de frequentar serviços religiosos nas mesquitas do país

O islã está florescendo no Tajiquistão. Barbas estão na moda. Lenços sobre a cabeça também. Lojas passaram a lucrar com a venda de tapetes de oração, gravações de áudio religiosas e relógios no formato dos locais sagrados dos muçulmanos.

Depois de décadas de secularismo forçado, as pessoas da empobrecida ex-república soviética voltaram à sua religião tradicional, com todo zelo adotado por movimentos renascidos em qualquer lugar do mundo.

O governo autoritário local não poderia estar mais preocupado. Assustados com o fantasma do radicalismo islâmico e os desafios representados por líderes religiosos cada vez mais influentes, as autoridades tajiques têm trabalhado intensamente para conter a expressão religiosa.

Homens barbudos têm sido detidos de forma aleatória e as mulheres, impedidas de frequentar serviços religiosos. Esse ano, o governo exigiu que os estudantes de universidades de lugares como Egito, Síria e Irã voltassem para casa. A polícia fechou mesquitas privadas e websites islâmicos, e os censores do governo agora monitoram os sermões de sexta-feira, intervindo quando os muftis desviam da linha permitida pelo governo.
 

No mês passado, os legisladores adotaram o que muitos disseram ser uma medida ainda mais drástica: eles aprovaram uma lei que, entre outras coisas, proíbe menores de 18 anos de frequentar os serviços religiosos nas mesquitas.

Ela é chamada de lei "sobre o poder paternal para educar e criar os filhos" e, de acordo com as autoridades, destina-se a evitar que as crianças faltem à escola para participar de orações – os pais podem ser penalizados caso não cumpram a lei.

'Estilo soviético'

Críticos do governo comparam a postura atual à uma tentativa de estilo soviético de reverter a disseminação do islã. Muitos advertem, no entanto, que a proibição aos jovens pode ter o efeito oposto.

"Depois que a lei entrar em vigor e o governo e os serviços de segurança começarem a colocar pressão, os jovens podem ser atraídos para as organizações ilegais", disse Mahmadali Hait, vice-presidente do Partido do Renascimento do Islã no Tajiquistão. "E é possível que o nível de radicalização no país aumente."

Religiosidade crescente no Tajiquistão e nas vizinhas ex-repúblicas soviéticas é vista como uma ameaça pela região de entrincheirados líderes autoritários, muitos dos quais têm estado no poder há décadas. Ao contrário da arena política ou da mídia, o islã é uma fonte potencial de dissidência que, até agora, não se tem conseguido monopolizar.

A insurgência do Taleban no vizinho Afeganistão tem apenas agravado o temor, especialmente agora que os EUA planejam retirar suas tropas do país. Confrontos ao longo da extensa fronteira do Tajiquistão com o Afeganistão são frequentes, e as autoridades ligaram militantes estrangeiros a diversos ataques contra a polícia e unidades militares locais no ano passado. Viajar entre os dois países é relativamente fácil, e vários tajiques entrevistados disseram ter visitado o Afeganistão para obter formação religiosa.

"Temos observado nos últimos anos tentativas de movimentos extremistas em influenciar a visão de mundo dos nossos filhos", disse o presidente do Tajiquistão, Emomali Rakhmon, argumentando a necessidade da lei sobre responsabilidade parental. "Os líderes de grupos extremistas e de várias correntes começaram a aparecer em instituições acadêmicas para recrutar jovens inexperientes."

Peritos independentes dizem que há poucas evidências de que grupos militantes islâmicos tenham encontrado muitos seguidores no Tajiquistão. Em vez disso, dizem eles, os líderes regionais costumam usar a ameaça do extremismo islâmico como um pretexto para reprimir a oposição política e seus apoiadores.

Rakhmon e seu grupo, cuja maioria é de ex-seculares apparatchiks (funcionários do Partido Comunista) soviéticos, lutaram e venceram uma guerra civil brutal contra uma coalizão de grupos de oposição muçulmana e secular na década de 90. Apesar de ex-comandantes de campo da oposição terem recebido promessas de cadeiras no governo após a guerra, muitos foram presos, exilados ou assassinados.

"Aqui nós temos o extremismo secular ", disse Akbar Khodzhi Turadzhonzoda, um proeminente líder islâmico e ex-membro do Parlamento do Tajiquistão. Discutir o radicalismo islâmico no Tajiquistão, disse ele, "é uma fraude".

"Isso é feito apenas para enganar o povo, fortalecer ditaduras e gastar mais dinheiro em armas e no serviço secreto”.

A lei proibindo crianças de frequentar as mesquitas ainda não entrou em vigor. Rakhmon, que propôs a medida, ainda deve assiná-la. Mas os críticos do governo e figuras religiosas dizem que as autoridades começaram a aplicá-la em alguns lugares, invadindo mesquitas, retirando jovens e adultos, multando os acusados de ensinar a religião sem a permissão do governo.

Multas

Depois que a lei for assinada, os pais podem enfrentar multas exorbitantes e até mesmo pena de prisão caso se arrisquem a desafiá-la.

A lei não impede que as crianças ou qualquer outra pessoa rezem, disse Mavlon Mukhtorov, vice-presidente do Comitê de Assuntos Religiosos, um órgão do governo que está promovendo a medida. Mas ele insistiu que os tajiques, muitos dos quais são religiosos novos, precisam de orientação - e contenção.

"Esta lei foi aprovada para que os pais dessas crianças cumpram as suas responsabilidades em criá-las", disse Mukhtorov. "Os alunos deveriam estar na escola. Se todos forem às mesquitas para as orações e deixarem de lado seu trabalho escolar eles não serão capazes de aprender”.

A lei não impediria os estudantes de estudar o islã em uma das escolas de religião do Tajiquistão ou em departamentos de teologia nas universidades, disse ele. Há apenas cerca de 20 escolas desse tipo no Tajiquistão, país de 7,6 milhões de pessoas, embora Mukhtorov diga que o governo planeja abrir mais. Todas as crianças, disse ele, podem participar dos cultos especiais nas mesquitas.

Os governos ocidentais, incluindo os Estados Unidos, condenaram a medida, bem como o que um diplomata americano descreveu recentemente como a "sistemática violação da liberdade religiosa” perpretada pelo governo tajique. Mas os temores do extremismo islâmico são graves o suficiente para que muitos tajiques, incluindo muçulmanos praticantes, apoiem a lei.

"O governo está trabalhando para garantir que as estruturas terroristas estrangeiras não influenciam os jovens, distorcendo suas impressões sobre o islã", disse Zaur Chilayev, 32 anos, engenheiro que fazia parte de uma multidão de pessoas presente na mesquita central de Dushanbe para as orações de sexta-feira. "As ameaças estão sempre presentes, especialmente tendo em conta os nossos vizinhos”.

Outros criticaram a campanha do governo como equivocada. Se são eficientes ou não em sufocar fanáticos religiosos, tais leis, para esses críticos, fariam pouco para enfrentar a causa principal do extremismo. A pobreza no Tajiquistão, juntamente com todos os problemas a ela associados, é endêmica, e as autoridades têm feito pouco para aliviá-la.

Tais problemas estavam expostos recentemente na mesquita central, onde um bando de meninos de rua, alheios aos apelos do muezzin, pediam esmolas no pátio. Quando questionado por que não entrou na mesquita para as orações, um dos rapazes respondeu timidamente: "Nós somos muito jovens".

*Por Michael Schwirtz