08 de Abril, 2015 - 12:10 ( Brasília )

Geopolítica

Premiê grego visita a Rússia em sinal de alerta à União Europeia

Grécia exige da Alemanha 279 bilhões de euros em indenizações

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, está convencido de que as sanções do Ocidente contra a Rússia acabam por afetar também os produtores na Grécia. E isso não passou despercebido em Moscou, onde o tema deverá ser discutido na reunião que ele terá com o presidente Vladimir Putin nesta quarta-feira (08/04).

"A Grécia não vai conseguir uma suspensão das sanções da União Europeia contra a Rússia. Não devem sair mais do que palavras dessa reunião", prevê Mikhail Krutikhin, da consultoria RusEnergy. "A Grécia não tem intenção de deixar a UE. Ela não só quer demonstrar que tem aliados fora do bloco, mas também tem que se mostrar, em certa medida, solidária com Bruxelas."

Segundo o ex-premiê russo e copresidente do partido oposicionista RPR-Parnas, Mikhail Kasyanov, só o fato de a Grécia não concordar com a linha geral da UE e gerar algum tipo de divisão no bloco já agrada a Moscou.

"Putin se isolou do mundo civilizado e, nesta situação, tem apenas um objetivo: destruir a consolidação europeia e transatlântica", diz Kasyanov.

Para ele, Putin quer que a UE volte atrás em suas decisões. Em seguida, a Rússia permaneceria apenas com um inimigo: os Estados Unidos.

"A liderança russa tem mais um motivo para se aproximar da Grécia", acredita Krutikhin. "A Rússia sofre de escassez crítica de aliados e de líderes de Estado que estejam dispostos a sentar com Moscou à mesa de negociações. Se a Rússia já se satisfaz com aliados como as repúblicas de Nauru e Vanuatu, então, é um sonho ter alguém na Europa disposto a apertar as mãos da liderança russa."

Um desejo semelhante parece ter também o governo grego. Krutikhin crê que Tsipras queira influenciar os líderes da UE através das negociações com Moscou. "As conversas se destinam a mostrar que a Grécia tem aliados e que também poderia se virar sem a ajuda da UE", afirma.

Empréstimo improvável

Muitos observadores acreditam que Moscou está tentando garantir a lealdade de países europeus, através de empréstimos. Isso não diz respeito só à Grécia, mas também à Hungria, que recentemente recebeu a promessa de um empréstimo da Rússia de 10 bilhões de euros, e do Chipre, que recebeu de Moscou 2,5 bilhões de euros em 2011.

E, mesmo assim, há dúvidas se Atenas e Moscou concordarão sobre uma ajuda financeira na quarta-feira. "Um empréstimo acarretaria algumas dificuldades. É claro que a Rússia não iria ficar sem dinheiro, mas poderia ter problemas com suas reservas", observa Kasyanov.

O especialista em comércio internacional Alexander Knobel, do instituto russo Gaidar, acredita que a Grécia não deve pedir apoio financeiro a Moscou, de modo a não irritar as autoridades da União Europeia.

"Não acredito ser possível se comprar a Grécia", frisa Knobel. Até agora, a Grécia não pediu um empréstimo a Moscou, embora o ministro das Finanças russo, Anton Siluanow, tenha dito no final de janeiro que seu ministério iria avaliar cuidadosamente um pedido de crédito.

Questões energéticas bilaterais

A visita de Tsipras a Moscou pode também abordar questões energéticas. Mas Mikhail Krutikhin acredita que também não há acordos significativos esperados nesta área. "Uma vez, a Gazprom tentou assumir o controle da rede grega de fornecimento de gás natural, mas esse problema está resolvido – e não a favor da Gazprom", lembrou. Também não se espera suprimentos adicionais de gás russo para a Grécia.

No entanto, é possível que o primeiro-ministro grego leve propostas detalhadas para a participação de empresas russas em concorrências sobre os direitos de exploração da costa da Grécia. A ideia chegou a ser proposta pelo ministro da Energia grego, Panagiotis Lafazanis, no final de março, durante visita a Moscou. Na ocasião, entretanto, o Ministério da Energia russo considerou as propostas vagas demais.

Como uma oferta amigável, a Rússia poderia propor à Grécia diminuir o preço do gás, que já havia sido reduzido pela Gazprom no ano passado, mas que não foi suficiente do ponto de vista de Atenas. Agora os gregos pedem novos cortes.

"Além disso, empresas gregas podem obter certas vantagens", diz Alexander Knobel. "Não se trata da revogação total das sanções russas, mas possivelmente de exceções para matérias-primas agrícolas gregas, que são importadas para o processamento na Rússia", explica. "Assim, Moscou alimentaria um lobista dentro da UE, para usá-lo como ferramenta para promover uma divisão dos europeus."
 

Grécia exige da Alemanha 279 bilhões de euros em indenizações

O vice-ministro grego das Finanças, Dimitris Mardas, afirmou nesta segunda-feira (06/04) que a Alemanha deve a Atenas quase 278 bilhões de euros em reparações referentes à Segunda Guerra Mundial. O montante incluiria cerca de 10 bilhões de euros de um empréstimo tomado pelos nazistas durante a ocupação da Grécia.

"De acordo com nossos cálculos, a dívida referente às indenizações chega a 278,7 bilhões de euros, incluindo 10,3 bilhões do chamado 'empréstimo forçado'", afirmou Mardas a uma comissão parlamentar estabelecida pelo primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, para analisar a dívida alemã.

A questão da indenização por crimes de guerra ganhou força nos últimos anos com o agravamento da crise financeira da Grécia e as medidas de austeridade impostas pela União Europeia (UE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em troca da concessão da ajuda financeira ao país no valor de 240 bilhões de euros.

O ministro grego da Justiça chegou a afirmar no mês passado que poderia ativar uma decisão tomada há 15 anos pela Suprema Corte do país, que autoriza a apreensão de bens alemães na Grécia como forma de compensar atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra.

Governos anteriores, além de alguns cidadãos, vêm há décadas insistindo em indenizações por parte da Alemanha, mas até agora não havia sido especificado o valor das possíveis compensações. Atenas almeja também a devolução de tesouros arqueológicos que teriam sido roubados pelos nazistas.

Tsipras costuma culpar a Alemanha pela rigidez das medidas de austeridade impostas ao país, e gerou indignação em Berlim ao trazer à tona a questão das indenizações em meio às negociações sobre o pacote de ajuda à Grécia.

A Alemanha rejeita o pedido grego e afirma que já cumpriu com suas obrigações para com o país, lembrando que em 1960 realizou pagamentos a Atenas como parte de um acordo estabelecido com diversos governos europeus.

A chanceler federal alemã, Angela Merkel, afirmou em março que a questão das indenizações já foi sido resolvida "política e legalmente". Ela ressaltou que o país está ciente das "atrocidades cometidas" e que leva muito a sério a responsabilidade pelos crimes cometidos pelos nazistas.