22 de Julho, 2014 - 12:00 ( Brasília )

Geopolítica

Rebeldes entregam caixas-pretas do voo MH17 na Ucrânia


Rebeldes no leste da Ucrânia entregaram as duas caixas-pretas do voo MH17, que foi derrubado na última quinta-feira, quando ia de Amsterdã, na Holanda, para Kuala Lumpur, na Malásia. Elas foram entregues a especialistas da Malásia na cidade ucraniana de Donetsk.

A ação ocorreu horas depois de o Conselho de Segurança da ONU ter exigido o acesso imediato de enviados internacionais à área da queda. A tragédia deixou 298 mortos.

Especialistas dizem que as caixas-pretas irão revelar a hora do acidente, altitude e posição exatos da aeronave, além de gravações do que foi dito na cabine, que podem dar pistas para a solução do caso. Um dos dirigentes da delegação da Malásia disse a repórteres que os gravadores estão "em boas condições".

Espera-se que a entrega das caixas-pretas ajude a minimizar as incertezas sobre as causas e as consequências do acidente, que ocorreu em uma área crítica da fronteira com a Rússia.

Ucrânia e Rússia trocam acusações pela responsabilidade do acidente, enquanto a Holanda, país de origem da maioria das vítimas, chora pelos mortos do voo da Malaysia Airlines.

A BBC tenta trazer as respostas para as cinco principais interrogações que surgiram até agora sobre a queda do avião:

Por que o avião caiu?

Até agora, não se sabe quais são as causas que fizeram o voo MH17 cair no leste da Ucrânia, no meio de uma área de guerra entre governo e rebeldes pró-Rússia.

No acidente, 298 pessoas morreram - 283 eram passageiros e 15, tripulantes. A maioria das pessoas a bordo eram cidadãos holandeses, entre eles o cientista Joep Lange, reconhecido por seu trabalho no tratamento do vírus HIV.

A teoria mais forte até agora é a pregada pelas autoridades americanas e pelo governo da Ucrânia: o avião foi abatido com um míssil SA-11 Buk lançado por militantes separatistas pró-russos que atuam na região onde o avião caiu.

Essa hipótese é apoiada por uma conversa, divulgada na sexta-feira pelo governo ucraniano, entre dois ativistas pró-Rússia em que se relata que um avião civil fora atingido e que havia centenas de vítimas. Mas a informação não foi confirmada.

Entretanto, tanto o governo de Vladimir Putin como os rebeldes separatistas têm negado a responsabilidade no incidente e acusaram os Estados Unidos, a União Europeia e a Ucrânia de realizarem uma "guerra de informação". Eles ainda acusam o governo da Ucrânia pela queda da aeronave durante ataques na fronteira com a Rússia.

Quem poderia derrubar o avião?

Em meio à disputa pelo controle da região na Ucrânia, os dois lados teriam armamento para abater um avião voando a 10.000 metros de altitude.

Michael Clarke, diretor-geral do Departamento de Estudos em Defesa e Segurança do Royal United Services Institute, disse à BBC que é possível que o ataque tenha sido feito pelo lado rebelde por engano. "Todas as provas são circunstanciais, mas tudo aponta para um sentido: os separatistas utilizaram um míssil SA-11 Buk", disse Clarke.

O sistema Buk, também conhecido como o Gadfly (como nomeia a Otan), é de fabricação russa e foi concebido originalmente nos anos 70 (como sucessor do sistema SA-6).

"Nós sabemos que os separatistas comemoram no dia 29 de junho o fato de terem roubado um (míssil russo) SA-11 Buk dos ucranianos", disse, "inclusive disseram onde pegaram, de uma região de defesa aérea ucraniana e até informaram seu número, que era A1402 ", conta Clarke.

Mas a Rússia e os rebeldes separatistas acusaram a Ucrânia de ser responsável pelo ato. O exército da Ucrânia também usa o mesmo sistema de mísseis.

Por essa razão, o ministro da Defesa da Ucrânia emitiu um comunicado na sexta-feira negando qualquer operação militar na área onde ocorreu o roubo do míssil e também negou que utilizaram aeronaves de guerra.

Quem transporta os corpos?

As equipes de resgate que trabalham na área onde caiu MH17 relatam que até agora foram encontrados 196 corpos nos destroços.

A maioria dos corpos foi colocada em vagões refrigerados e levada para a cidade de Torez. De lá, um trem saiu com os corpos rumo a Kharkiv, onde deverão ser entregues a autoridades holandesas. Não se sabe quem tem ou teve acesso aos corpos.

O correspondente da BBC na região, Fergal Keane, informou que esses corpos foram retirados da área que está sob o controle de separatistas pró-Rússia por homens que se recusaram a ser identificados.

Ele acrescentou que a indisciplina e o caos dos últimos dias foram substituídos por uma forte presença da polícia de choque, que isola a área.

Para os representantes do governo holandês – nacionalidade de maior parte das vítimas - a maneira como a situação está sendo tratada é mais do que indelicada.

"Estou chocado com as imagens do lugar. As pessoas andam por lá com os pertences pessoais das vítimas. É absolutamente repugnante", disse o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte.

O chanceler da Holanda, Frans Timmermans, apelou à cooperação internacional para ter acesso à área do desastre.

"A Holanda está de luto e quer repatriar seu povo para casa. Recuperar os corpos é a nossa prioridade, e, dadas as circunstâncias, é um grande desafio", disse Timmersmans.

Por que não começaram uma investigação?

Uma das principais dificuldades encontradas pelas autoridades europeias é o fato de os ativistas pró-russos controlarem o local.

Um dos líderes dos separatistas, Aleksander Borodai, rejeitou as acusações do governo da Ucrânia, que disse que os rebeldes estão interferindo nas provas.

No entanto, representantes da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que foram inspecionar o local onde o avião caiu, encontraram uma parede humana que, a princípio não deixou que realizassem seu trabalho e, em seguida, permitiram, mas com limitações.

A competência da investigação é do país onde ocorreu o acidente, de acordo com a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO, na sigla em Inglês), agência filiada à ONU.

Neste caso, seria a Ucrânia, mas, como se trata de uma área disputada, ainda é muito difícil saber como proceder com a investigação. Os Estados Unidos, a Holanda e a Austrália pediram, através de seus representantes, que seja feita uma investigação internacional.

Que implicações internacionais tem o caso?

Uma das preocupações no âmbito internacional é que, encontrando evidências de que rebeldes separatistas derrubaram o avião com armas pesadas dadas pela Rússia, a relação entre o Ocidente e Moscou possa piorar.

Na segunda-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que "tudo deve ser feito para garantir a segurança dos especialistas internacionais no local da tragédia."

O relato foi uma resposta à solicitação dos líderes dos governos da Grã-Bretanha, Alemanha e Estados Unidos, que continuam pedindo que a Rússia se empenhe em colaborar com o início de uma investigação internacional sobre as causas do incidente.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, falou por telefone durante meia hora no domingo com o presidente russo, para solicitar sua intervenção para ajudar a repatriar os corpos.

Os Estados Unidos, por sua vez, anunciaram no sábado uma série de medidas para reforçar as sanções econômicas contra a Rússia.