29 de Maio, 2014 - 15:25 ( Brasília )

Geopolítica

OBAMA - Os EUA Devem Sempre Liderar

Discurso do Presidente Obama em West Point delineando a nova estratégia dos Estados Unidos

White House
Academia Militar dos EUA – West Point
West Point, Nova York
28 de maio de 2014

 

PRONUNCIAMENTO DO PRESIDENTE DURANTE DISCURSO DE FORMATURA NA ACADEMIA WEST POINT
(trechos do Discurso)
Para a íntegra em inglês acesse Link


PRESIDENTE: Obrigado. (Aplausos.) Muito obrigado. Obrigado. E obrigado, general Caslen, por essa apresentação. (...)
* * * *
Quando eu falei pela primeira vez em West Point em 2009, ainda tínhamos mais de 100 mil soldados no Iraque. Estávamos nos preparando para um aumento significativo no Afeganistão. Nossos esforços de combate ao terrorismo estavam centrados na liderança central da Al Qaeda — aqueles que tinham cometido os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. E nossa nação estava apenas começando uma longa escalada para se livrar da pior crise econômica desde a Grande Depressão.

Quatro anos e meio depois, em sua formatura, o cenário mudou. Retiramos nossas tropas do Iraque. Estamos reduzindo gradualmente nossa guerra no Afeganistão. A liderança da Al Qaeda na região de fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão foi dizimada, e Osama bin Laden não existe mais. (Aplausos.) E em meio a tudo isso, temos reorientado nossos investimentos naquilo que sempre foi uma fonte fundamental da força americana: uma economia em crescimento que pode proporcionar oportunidades para todos que estejam dispostos a trabalhar arduamente e assumir responsabilidade aqui internamente.

Na verdade, em grande medida, os Estados Unidos raramente não têm sido mais fortes em relação ao restante do mundo. Aqueles que defendem o contrário — que sugerem que os Estados Unidos estão em declínio, ou que viram sua liderança mundial escapar — ou estão interpretando mal a história ou estão envolvidos em política partidária. Pensem nisso. Nossas Forças Armadas não têm igual. As chances de uma ameaça direta contra nós por qualquer nação são pequenas e não chegam perto dos perigos que enfrentamos durante a Guerra Fria.

Enquanto isso, nossa economia permanece a mais dinâmica na Terra; nossas empresas, as mais inovadoras. A cada ano, expandimos ainda mais nossa independência energética. Da Europa à Ásia, somos o centro de alianças inigualáveis na histórias das nações. Os Estados Unidos continuam a atrair imigrantes ambiciosos. Os valores de nossa fundação inspiram líderes em Parlamentos e em novas manifestações em praças públicas ao redor do mundo. E quando um tufão atinge as Filipinas, ou meninas de uma escola são raptadas na Nigéria, ou homens mascarados ocupam um edifício na Ucrânia, são aos Estados Unidos que o mundo recorre em busca de ajuda. (Aplausos.) Portanto, os Estados Unidos são e continuam sendo a única nação indispensável. Isso foi verdade durante o século passado e será verdade durante o próximo século.

Mas o mundo está mudando em velocidade acelerada. Isso nos apresenta oportunidades, mas também novos perigos. Sabemos muito bem, depois de 11 de setembro de 2001, simplesmente como a tecnologia e a globalização colocaram o poder uma vez reservado para os Estados nas mãos de indivíduos, aumentando a capacidade de terroristas causarem o mal. A agressão da Rússia em relação aos antigos países soviéticos enerva as capitais na Europa, enquanto a ascensão econômica e o alcance militar da China preocupam seus vizinhos. Do Brasil à Índia, classes médias em ascensão competem conosco, e os governos buscam uma maior influência nos fóruns globais. E mesmo no momento em que nações em desenvolvimento abraçam a democracia e as economias de mercado, notícias 24 horas e as mídias sociais tornam impossível ignorar a continuação de conflitos sectários e Estados falidos e revoltas populares que há uma geração poderiam ter recebido apenas uma menção passageira.

Será tarefa de sua geração responder a este novo mundo. A questão que enfrentamos, a questão que cada um de vocês enfrentará, não é se os Estados Unidos irão liderar, mas como iremos liderar — não apenas para assegurar nossa paz e prosperidade, mas também para estender a paz e a prosperidade em todo o mundo.

Pois bem, essa questão não é nova. Pelo menos desde que George Washington atuou como comandante em chefe, tem havido aqueles que advertiram contra envolvimentos estrangeiros que não tocam diretamente em nossa segurança ou bem-estar econômico. Hoje, de acordo com os que se autodescrevem realistas, não cabe a nós resolver conflitos na Síria ou na Ucrânia ou na República Centro-Africana. E, sem surpresa, depois de guerras dispendiosas e contínuos desafios internos em nosso país, aquele ponto de vista é compartilhado por muitos americanos.

Uma visão diferente de intervencionistas da esquerda e da direita afirma que ignoramos esses conflitos por nossa conta e risco; que a disposição dos Estados Unidos em aplicar a força ao redor do mundo é a principal salvaguarda contra o caos, e que o insucesso dos Estados Unidos em agir em relação à brutalidade síria ou às provocações russas não apenas viola nossa consciência, mas convida uma escalada da agressão no futuro.

E cada lado pode apontar para a história para basear suas alegações. Mas eu creio que nenhum dos dois pontos de vista expressa plenamente as demandas deste momento. É absolutamente verdade que no século 21 o isolacionismo americano não é uma opção. Não temos a escolha de ignorar o que acontece além de nossas fronteiras. Se os materiais nucleares não estão seguros, isso representa um perigo às cidades americanas. À medida que a guerra civil síria se expande através das fronteiras, a capacidade de grupos extremistas aguerridos nos atacarem somente aumenta. A agressão regional que não é controlada — quer seja no sul da Ucrânia ou no Mar do Sul da China, ou em qualquer outro lugar do mundo — em última análise, afetará nossos aliados e poderia atrair nossas Forças Armadas. Não podemos ignorar o que acontece além de nossas fronteiras.

E além desses pensamentos limitados, acredito que temos uma real participação, um constante interesse próprio no sentido de assegurar que nossas crianças e nossos netos cresçam em um mundo onde meninas que frequentam escolas não sejam raptadas e onde indivíduos não são mortos por razões tribais, de fé ou de crenças políticas. Acredito que um mundo de maior liberdade e tolerância não é apenas um imperativo moral; também ajuda a nos manter seguros.

Mas dizer que temos interesse em perseguir a paz e a liberdade para além de nossas fronteiras não quer dizer que todo problema possui uma solução militar. Desde a Segunda Guerra Mundial, alguns de nossos erros mais caros vieram não de nossas limitações, mas de nossa vontade de nos apressar em aventuras militares sem refletir nas consequências — sem a criação de apoio internacional e legitimidade para a nossa ação; sem consultar o povo americano acerca dos sacrifícios exigidos. Conversa dura sempre atrai manchetes, mas a guerra raramente está de conformidade com slogans. Como o general Eisenhower, que adquiriu conhecimento arduamente nesse assunto, disse nesta cerimônia em 1947: “A guerra é a loucura mais trágica e estúpida da humanidade; procurar ou aconselhar sua provocação deliberada é um crime desolador contra todos os homens.”

* * * *

Eis a minha conclusão: os Estados Unidos devem sempre liderar no cenário mundial. Se não o fizermos, ninguém mais o fará. As Forças Armadas a que vocês aderiram são e sempre serão a espinha dorsal daquela liderança. Mas as Forças Armadas dos EUA não podem ser o único — ou mesmo o principal — componente de nossa liderança em todas as instâncias. Justamente porque temos o melhor martelo não quer dizer que todo problema é um prego. E porque os custos associados à ações militares são tão altos, vocês deveriam esperar que cada líder civil — e especialmente o seu comandante em chefe — seja claro sobre como esse poder excepcional deveria ser usado.

Portanto, permitam-me usar o restante do meu tempo descrevendo minha visão de como os Estados Unidos da América e nossas Forças Armadas devem liderar nos próximos anos, pois vocês farão parte dessa liderança.

Em primeiro lugar, permitam-me repetir um princípio que apresentei no início da minha presidência: os Estados Unidos usarão de força militar, unilateralmente se necessário, quando nossos interesses centrais o exigirem — quando nosso povo estiver ameaçado, quando os nossos meios de subsistência estiverem em jogo, quando a segurança de nossos aliados estiver em perigo. Nessas circunstâncias, ainda precisamos fazer as perguntas difíceis sobre se nossas ações são proporcionais e eficazes e justas. A opinião internacional importa, mas os Estados Unidos nunca pedem permissão para proteger nosso povo, nossa pátria, ou nosso modo de vida. (Aplausos.)

Por outro lado, quando questões de interesse mundial não representam uma ameaça direta aos Estados Unidos, quando tais questões estão em jogo — quando as crises surgem e agitam a nossa consciência ou empurram o mundo em uma direção mais perigosa, mas não nos ameaçam diretamente — então o limite para ação militar deve ser maior. Em tais circunstâncias, não devemos agir sozinhos. Em vez disso, devemos mobilizar os aliados e parceiros para adotar uma ação coletiva. Temos de ampliar nossas ferramentas para incluir a diplomacia e o desenvolvimento; sanções e isolamento; apelos ao Direito Internacional; e, se justa, necessária e eficaz, ação militar multilateral. Em tais circunstâncias, temos de trabalhar com outros porque a ação conjunta nessas circunstâncias tem maior probabilidade de ter sucesso, mais chances de ser sustentada e é menos suscetível a provocar erros dispendiosos.

Isso leva ao meu segundo ponto: para o futuro próximo, a ameaça mais direta para os Estados Unidos internamente e no exterior continua sendo o terrorismo. Mas uma estratégia que envolva todos os países que abrigam redes terroristas é ingênua e insustentável. Acredito que devemos mudar a nossa estratégia contra terrorismo — aproveitando os sucessos e deficiências de nossa experiência no Iraque e no Afeganistão — para criar parcerias mais eficazes com países onde as redes terroristas buscam uma base.

E a necessidade de uma nova estratégia reflete o fato de que a principal ameaça de hoje não mais advém de uma liderança centralizada da Al Qaeda. Em vez disso, advém de afiliados e extremistas descentralizados da Al Qaeda, muitos com agendas focadas em países onde operam. E isso diminui a possibilidade de ataques em grande escala no estilo de 11 de setembro contra a pátria, mas aumenta o perigo de funcionários dos EUA no exterior serem atacados, como vimos em Benghazi. E aumenta o perigo para os alvos menos defensáveis, como vimos em um shopping center em Nairobi.

Portanto, temos de desenvolver uma estratégia que corresponda a essa ameaça difusa — uma que expanda nosso alcance sem enviar forças que diminuam nossas Forças Armadas ou agitem ressentimentos locais. Precisamos de parceiros para lutar contra os terroristas ao nosso lado. E capacitar parceiros é uma grande parte do que temos feito e o que estamos fazendo atualmente no Afeganistão.

Juntos com nossos aliados, os Estados Unidos desferiram enormes golpes contra o núcleo da Al Qaeda e impediram uma revolta que ameaçava invadir o país. Mas sustentar esse progresso depende da capacidade dos afegãos fazerem o trabalho. E é por isso que treinamos centenas de milhares de soldados e policiais afegãos. No início dessa primavera, aquelas forças, aquelas forças afegãs, garantiram uma eleição na qual os afegãos votaram pela primeira transferência democrática de poder em sua história. E no final deste ano, um novo presidente afegão será empossado e a missão de combate dos Estados Unidos chegará ao fim. (Aplausos.)

Pois bem, essa foi uma enorme conquista alcançada graças às Forças Armadas dos Estados Unidos. Mas à medida que caminhamos para uma missão de treinamento e aconselhamento no Afeganistão, nossa presença reduzida nos permite tratar de forma mais eficaz as ameaças no Oriente Médio e no Norte da África. Portanto, no início deste ano, pedi à minha equipe de segurança nacional para desenvolver um plano para uma rede de parcerias do Sul da Ásia até o Sahel. Hoje, como parte desse esforço, estou pedindo ao Congresso para apoiar um novo Fundo de Parcerias Contra Terrorismo de até US$ 5 bilhões, que nos permitirá treinar, capacitar e dar facilidade aos países parceiros na linha de frente. E esses recursos nos darão flexibilidade para cumprir missões diferentes, incluindo o treinamento de forças de segurança no Iêmen que passaram para a ofensiva contra a Al Qaeda; apoiar uma força multinacional para manter a paz na Somália; trabalhar com os aliados europeus para treinar uma força de segurança em funcionamento e uma patrulha de fronteira na Líbia; e facilitar as operações francesas no Mali.

Um foco importante para esse esforço será a crise em curso na Síria. Por mais frustrante que seja, não há respostas fáceis, nenhuma solução militar que possa eliminar o sofrimento terrível a qualquer instante em breve. Na qualidade de presidente, tomei uma decisão que não devemos colocar as tropas americanas no meio dessa guerra cada vez mais sectária, e acredito que é a decisão certa. Mas isso não significa que não devemos ajudar o povo da Síria a se levantar contra um ditador que bombardeia e faz seu próprio povo passar fome. E ao ajudar aqueles que lutam pelo direito de todos os sírios escolherem seu próprio futuro, também estamos impedindo um número crescente de extremistas de encontrar refúgio no caos.

Portanto, com os recursos adicionais que estou anunciando hoje, intensificaremos nossos esforços para apoiar os vizinhos da Síria — Jordânia e Líbano; Turquia e Iraque — enquanto lidam com refugiados e enfrentam terroristas que trabalham além da fronteira da Síria. Trabalharei com o Congresso para aumentar o apoio àqueles na oposição síria que oferecem a melhor alternativa comparado a terroristas e ditadores brutais. E continuaremos a coordenar com nossos amigos e aliados na Europa e no mundo árabe para pressionar por uma resolução política da crise, e ter certeza de que aqueles países e não apenas os Estados Unidos estão contribuindo com sua justa cota para apoiar o povo sírio.

Permitam-me salientar um aspecto final sobre nossos esforços contra o terrorismo. As parcerias que descrevi não eliminam a necessidade de intervir diretamente quando necessário para nos proteger. Quando temos inteligência acionável, que é o que fazemos — por meio de operações de captura, como a que levou à justiça um terrorista envolvido na conspiração para bombardear nossas embaixadas em 1998; ou ataques aéreos com drones como aqueles que realizamos no Iêmen e na Somália. Há momentos em que são necessárias essas ações, e não podemos hesitar em proteger nosso povo.

Mas como eu disse no ano passado, ao intervir diretamente devemos manter os padrões que refletem nossos valores. Isso significa realizar ataques somente quando enfrentarmos uma ameaça contínua e iminente, e somente onde não há certeza — há quase certeza de não haver vítimas civis. Pois nossas ações devem atender a um simples teste: não devemos criar mais inimigos do que tiramos do campo de batalha.

Eu também creio que devemos ser mais transparentes sobre a base de nossas ações de contraterrorismo e a maneira pela qual são realizadas. Temos de poder explicá-las publicamente, sejam elas ataques com drones ou treinamento de parceiros. Eu cada vez mais me voltarei às nossas Forças Armadas para tomar a liderança e fornecer informação ao público sobre nossos esforços. Nossa comunidade de inteligência tem feito um trabalho excepcional, e temos de continuar a proteger fontes e métodos. Mas quando não podemos explicar nossos esforços clara e publicamente, enfrentamos propaganda terrorista e suspeita internacional, erodimos a legitimidade com nossos parceiros e nosso povo, e reduzimos a prestação de contas em nosso próprio governo.

E essa questão de transparência é diretamente relevante a um terceiro aspecto da liderança americana, e esse é nosso esforço para fortalecer e fazer valer a ordem internacional.

Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tiveram a sabedoria de moldar as instituições visando manter a paz e apoiar o progresso humano — da OTAN e das Nações Unidas, ao Banco Mundial e o FMI. Essas instituições não são perfeitas, mas têm sido multiplicadoras de força. Elas reduzem a necessidade de ação unilateral americana e aumentam a moderação entre outras nações.

Bem, assim como o mundo mudou, essa arquitetura tem de mudar também. No auge da Guerra Fria, o presidente Kennedy falou sobre a necessidade de uma paz baseada em “uma evolução gradual das instituições humanas”. E fazer evoluir essas instituições internacionais para atender as demandas de hoje deve ser uma parte crítica da liderança americana.

Ora, há um monte de gente, um monte de céticos, que muitas vezes menosprezam a eficácia da ação multilateral. Para eles, trabalhar através de instituições internacionais como a ONU ou respeitar o Direito Internacional é um sinal de fraqueza. Eu acho que estão errados. Permitam-me dar apenas dois exemplos por quê.

Na Ucrânia, as recentes ações da Rússia recordam os dias em que os tanques soviéticos entraram na Europa do Leste. Mas esta não é a Guerra Fria. Nossa capacidade de moldar a opinião pública mundial ajudou a isolar a Rússia imediatamente. Por causa da liderança americana, o mundo condenou imediatamente as ações russas; a Europa e os países do G-7 se juntaram a nós para impor sanções; a OTAN reforçou nosso compromisso com os aliados da Europa Oriental; o FMI está ajudando a estabilizar a economia da Ucrânia; monitores da OSCE ergueram os olhos do mundo para regiões instáveis da Ucrânia. E essa mobilização da opinião pública mundial e das instituições internacionais serviu como um contrapeso à propaganda russa e às tropas russas na fronteira e às milícias armadas com máscaras de esqui.

Este fim de semana, os ucranianos votaram aos milhões. Ontem, falei com seu próximo presidente. Não sabemos como a situação vai ficar e graves desafios permanecerão pela frente, mas defender nossos aliados em nome da ordem internacional trabalhando com instituições internacionais tem dado uma oportunidade para o povo ucraniano escolher seu futuro, sem que disparemos um tiro sequer.

Da mesma forma, apesar dos alertas frequentes dos Estados Unidos e de Israel, entre outros, o programa nuclear iraniano avançou de forma constante durante anos. Mas no início da minha presidência, construímos uma coalizão que impôs sanções à economia iraniana, enquanto estendia a mão da diplomacia ao governo iraniano. E agora temos uma oportunidade de resolver nossas diferenças pacificamente.

As chances de sucesso são ainda muito improváveis, e reservamos todas as opções para evitar que o Irã obtenha uma arma nuclear. Mas, pela primeira vez em uma década, temos uma chance real de conseguir um acordo revolucionário — que é mais eficaz e duradouro do que o que poderíamos ter conseguido através do uso da força. E ao longo dessas negociações, tem sido a nossa vontade trabalhar através de canais multilaterais que mantiveram o mundo ao nosso lado.

A questão é que esta é a liderança americana. Esta é a força americana. Em cada caso, construímos coligações para responder a um desafio específico. Agora precisamos fazer mais para fortalecer as instituições que podem antecipar e prevenir que problemas se propaguem. Por exemplo, a OTAN é a aliança mais forte que o mundo já conheceu. Mas estamos trabalhando agora com aliados da OTAN para conhecer novas missões, tanto na Europa, onde nossos aliados do Oriente devem ser tranquilizados, mas também para além das fronteiras da Europa, onde nossos aliados da OTAN terão de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para combater o terrorismo e responder a Estados falidos, e treinar uma rede de parceiros.

Da mesma forma, a ONU oferece uma plataforma para manter a paz em Estados dilacerados pelo conflito. Agora precisamos ter certeza de que as nações que fornecem forças de paz tenham o treinamento e equipamentos para realmente manter a paz, para que possamos evitar o tipo de matança que vimos no Congo e no Sudão. Vamos aprofundar nosso investimento em países que apoiam essas missões de paz, porque quando outras nações mantêm a ordem em seus próprios bairros, diminui a necessidade que temos de colocar nossas tropas em perigo. É um investimento inteligente. É o caminho certo para liderar. (Aplausos.)

Tenham em mente que nem todas as normas internacionais estão diretamente relacionadas com o conflito armado. Nós temos um problema sério com ciberataques, que é por isso que estamos trabalhando para moldar e fazer cumprir as regras de trânsito para proteger nossas redes e nossos cidadãos. Na região Ásia-Pacífico, estamos apoiando os países do sudeste asiático ao negociarem um código de conduta com a China sobre disputas marítimas no Mar do Sul da China. E estamos trabalhando para resolver esses conflitos através do Direito Internacional. Esse espírito de cooperação necessário para energizar o esforço global para combater as mudanças climáticas — uma crise de segurança nacional rastejante que vai ajudar a moldar o período em que vocês estiverem de farda, enquanto somos convocados para responder a fluxos de refugiados e a catástrofes naturais e a conflitos em torno de água e alimentos, que é por isso que no próximo ano pretendo ter a certeza de que os Estados Unidos estejam na dianteira elaborando um quadro global para preservar nosso planeta.

Vejam bem, a influência americana é sempre mais forte quando lideramos pelo exemplo. Nós não podemos nos isentar das regras que se aplicam a todos os outros. Não podemos pedir que outros se comprometam a combater as mudanças climáticas, se vários de nossos líderes políticos negam que elas estão ocorrendo. Não podemos tentar resolver problemas no Mar do Sul da China, quando nos recusamos a garantir que a Lei da Convenção do Mar fosse ratificada pelo nosso Senado dos Estados Unidos, apesar do fato de que nossos líderes militares dizem que o tratado faz avançar nossa segurança nacional. Isso não é liderança; isso é recuo. Isso não é força; isso é fraqueza. Seria algo totalmente estranho para líderes como Roosevelt e Truman, Eisenhower e Kennedy.

Eu acredito no excepcionalismo americano com todas as fibras do meu ser. Mas o que nos torna excepcional não é nossa capacidade de desrespeitar as normas internacionais e do Estado de Direito; é nossa vontade de afirmá-los através de nossas ações. (Aplausos.) E é por isso que vou continuar a fazer pressão para fechar Guantánamo — porque os valores americanos e as tradições legais não permitem a detenção por tempo indeterminado de pessoas além de nossas fronteiras. (Aplausos.) É por isso que estamos colocando em prática novas restrições sobre como os Estados Unidos coletam e usam inteligência — porque vamos ter menos parceiros e ser menos eficazes se houver uma percepção de que estamos realizando vigilância contra cidadãos comuns. (Aplausos.) Os Estados Unidos não defendem simplesmente a estabilidade ou a ausência de conflito, não importa a que custo. Defendemos a paz mais duradoura que só pode vir através de oportunidade e liberdade para todos os povos.

O que me leva ao quarto e último elemento da liderança americana: nossa vontade de agir em nome da dignidade humana. O apoio dos Estados Unidos à democracia e aos direitos humanos vai além de idealismo — é uma questão de segurança nacional. As democracias são nossos amigos mais próximos e são muito menos propensos a ir para a guerra. As economias baseadas em mercados livres e abertos têm um melhor desempenho e se tornam mercados para nossos produtos. O respeito pelos direitos humanos é um antídoto para a instabilidade e as queixas que alimentam a violência e o terror.

Um novo século não trouxe o fim à tirania. Nas capitais de todo o mundo — incluindo, infelizmente, alguns dos parceiros dos Estados Unidos — tem havido uma repressão violenta contra a sociedade civil. O câncer da corrupção enriqueceu muitos governos e seus comparsas, e enfureceu cidadãos de vilas remotas a praças emblemáticas. E observando essas tendências, ou as revoltas violentas em algumas partes do mundo árabe, é fácil ser cínico.

Mas lembrem-se que, graças aos esforços dos Estados Unidos, graças à diplomacia americana e à assistência estrangeira, bem como aos sacrifícios de nossos militares, mais pessoas vivem sob a liderança de governos eleitos hoje do que em qualquer outro momento da história humana. A tecnologia está capacitando a sociedade civil de uma forma que nenhum punho de ferro pode controlar. Novos avanços estão tirando centenas de milhões de pessoas da pobreza. E até mesmo a revolta do mundo árabe reflete a rejeição de uma ordem autoritária que era tudo menos estável, e agora oferece a perspectiva de longo prazo de governança mais ágil e eficaz.

Em países como o Egito, reconhecemos que nossa relação está ancorada em interesses de segurança — desde tratados de paz com Israel a esforços comuns contra o extremismo violento. Portanto nós não cortamos a cooperação com o novo governo, mas podemos pressionar e o faremos persistentemente por reformas que o povo egípcio exigiu.

E enquanto isso, olhem para um país como a Birmânia, que apenas alguns anos atrás era uma ditadura intratável e hostil para os Estados Unidos — 40 milhões de pessoas. Graças à enorme coragem do povo daquele país, e porque tomamos uma iniciativa diplomática, a liderança americana, vimos reformas políticas abrindo uma sociedade que antes era fechada; um movimento por parte da liderança birmanesa que se distancia de uma parceria com a Coreia do Norte em favor do engajamento com os Estados Unidos e nossos aliados. Estamos apoiando a reforma e a reconciliação nacional muito necessárias por meio de assistência e investimento, através da persuasão e, por vezes, da crítica pública. E o progresso lá pode ser revertido, mas se a Birmânia conseguir, teremos ganhado um novo parceiro sem ter disparado um tiro. Liderança americana.

Em cada um desses casos, não devemos esperar que a mudança aconteça da noite para o dia. É por isso que formamos alianças não só com os governos, mas também com as pessoas comuns. Porque, ao contrário de outras nações, os Estados Unidos não têm medo do poder individual; somos fortalecidos por ele. Somos fortalecidos pela sociedade civil. Somos fortalecidos por uma imprensa livre. Somos fortalecidos pelo empenho de empreendedores e pequenas empresas. Somos fortalecidos pelo intercâmbio educacional e pela oportunidade para todas as pessoas, mulheres e meninas. Isso é o que somos. Isso é o que representamos. (Aplausos.)

Vi que através de uma viagem à África no ano passado, onde a assistência americana tornou possível a perspectiva de uma geração sem Aids, ajudando os próprios africanos a cuidar de seus enfermos. Estamos ajudando os agricultores a levar seus produtos para o mercado, a alimentar as populações uma vez ameaçadas pela fome. Nosso objetivo é dobrar o acesso à eletricidade na África Subsaariana para que as pessoas estejam conectadas com a promessa da economia global. E tudo isso cria novos parceiros e diminui o espaço para o terrorismo e conflitos.

Ora, tragicamente, nenhuma operação de segurança americana pode erradicar a ameaça representada por um grupo extremista como o Boko Haram, grupo que raptou aquelas meninas. E é por isso que temos de nos concentrar não apenas em resgatar aquelas meninas de imediato, mas também em apoiar os esforços da Nigéria para educar seus jovens. Esta deve ser uma das lições aprendidas arduamente no Iraque e no Afeganistão, onde nossos militares se tornaram os maiores defensores da diplomacia e do desenvolvimento. Eles entenderam que a ajuda externa não é uma reflexão tardia, algo de bom para fazer além de nossa defesa nacional, além de nossa segurança nacional. É parte do que nos faz fortes.

Em última análise, a liderança global nos obriga a ver o mundo como ele é, com todo seu perigo e incerteza. Temos de estar preparados para o pior, preparados para todas as contingências. Mas a liderança americana também nos obriga a ver o mundo como deve ser — um lugar onde as aspirações de cada ser humano realmente importam; onde as esperanças e não apenas medos governam; onde as verdades escritas em nossos documentos fundadores podem conduzir as correntes da história em direção à justiça. E não podemos fazer isso sem vocês.